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O grande perseguidor de almas

A conversão de uma alma deve-se ao mérito próprio, ou pela intervenção de Deus?

Redação (11/09/2022 10:55, Gaudium Press) No decurso de nossa transitória passagem por esta vida, algo que jamais a sabedoria humana será capaz de compreender é o imenso desejo que Deus tem em salvar as almas.

Quando se lê a biografia da conversão de uma alma que carregou anos de pecado, de uma existência levada no completo esquecimento de seu Criador, pode-se ter a impressão, muitas vezes, que foi sua a iniciativa de reconhecer as próprias faltas, ter-se arrependido delas, e, portanto, ter o mérito de sua própria conversão.

É bem esta a realidade?

O Evangelho deste 24º Domingo do Tempo Comum recolhe algumas parábolas nas quais o Divino Mestre transmite um ensinamento principal, até então desconhecido para o povo eleito. Queria fazê-lo compreender que a Justiça divina não se iguala à de um legislador intransigente que, encolerizado, castiga imediatamente a menor violação da lei.

A mentalidade da nação judaica do antigo testamento era propensa a considerar muito mais o braço justiceiro Deus – aliás, numa visão mal concebida – do que a sua infinita Misericórdia. Por isto, Jesus insiste no amor de Deus por aquelas criaturas que, lamentavelmente, estão afundadas no pecado, pois anseia por sua conversão mais do que elas mesmas.

Deus vai ao encontro do pecador

Transbordante de beleza é a parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32) tecida por Nosso Senhor, na qual narra a história de um filho que, tendo esbanjado os seus bens numa vida desenfreada, retorna enfim à casa paterna, arrependido ao ver sua péssima condição, a ponto de ter chegado a disputar com os porcos as bolotas que lhes pertenciam. Tal filho recebe – sem merecimento algum – o perdão e a acolhida do pai, que ainda lhe prepara uma festa, matando um novilho gordo.

Sem dúvida alguma, é uma das mais belas parábolas de Jesus, pois reflete o amor e o anseio divino em perdoar o pecador, dando-lhe em troca um prêmio sem medidas: a sua graça e o seu reino celeste.

Mas, há um aspecto do amor de Deus que se encontra também nas outras duas parábolas recolhidas pelo Evangelho de hoje: uma é a história daquela mulher que, tendo encontrado a sua moeda perdida, convida as suas amigas a compartilharem de sua alegria. Outra, certamente mais significativa, é a do pastor que possui cem ovelhas, mas tendo perdido uma, percorre os montes e rochedos à sua busca. Tendo-a recuperado, sente mais alegria em revê-la e tê-la em seus braços do que com todas as noventa e nove que possui. Acerca desta parábola, Jesus dirá:

“Eu vos digo, assim haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15,7).

Daqui extraímos um princípio: é Deus quem vai primeiro ao encontro do pecador com sua graça, pois se assim não fosse, jamais nos arrependeríamos.

Todavia, tal é seu amor pelos homens que, mesmo quando Ele nos procura e o rejeitamos, Ele não desiste de nós, nem diminuiu o seu amor, como afirma São Gregório Magno: “Separamo-nos d’Ele, mas Ele não Se separa de nós. […] Demos as costas ao nosso Criador, e Ele ainda nos tolera; afastamo-nos d’Ele com soberba, mas Ele nos chama com suma benignidade e, podendo nos castigar, ainda promete prêmios para que voltemos”.[1]

Neste sentido, um exemplo: Dr. Sam Alkinson, canadense, grande orador racionalista e organizador socialista no Canadá do século passado.

Tendo lido livros pseudocientíficos sobre o socialismo, descreve ter chegado a uma concepção histórica puramente materialista, considerando a Deus apenas como uma ideia. Entretanto, de modo gradual ele confessa como foi sendo levado a crer na existência de Deus e conduzido para o seio da Santa Igreja.

Sua conversão deu-se definitivamente quando, certo dia, ao ver com satisfação e alegria as novas plantas de seu jardim, preparadas com tanto esmero por ele e sua esposa ao longo de vários dias, serem expostas a uma terrível tempestade. Os ventos uivavam, a chuva caía torrencialmente, e já tinha plena certeza de que as novas plantas seriam totalmente destruídas, mas qual não é sua surpresa, quando após a tempestade, se depara com o jardim e as plantas intactas!

Ele descreve que neste momento compreendeu haver ali um “milagre”, e que devia existir um legislador que está por detrás de todo o universo; e ele só pode ser Deus!

Sobre este fato, na aparência simples, mas que mudou sua vida, ele mesmo afirmará: “Sim, é este o maior de todos os milagres. Não fui eu que mereci o seu amor. Ofendi-O tantas vezes, pequei contra Ele tantas vezes! Muitas outras O atraiçoei. Nunca o teria encontrado, se Ele não me tivesse procurado!”[2]

Qual deve ser então a nossa atitude de alma pecadora? Deixar-se carregar nas mãos de Deus e não impedirmos de estarmos em seus braços. Deste modo, consoantes com Dr. Sam Alkinson, poderemos dizer:

“Ao ver-me refugiado nos braços da Igreja, todos os meus desejos ficaram satisfeitos. Encontrei nela o que me faltava. A paz? Sim, mas ainda mais, a verdade. A felicidade? Sim, mas ainda mais, a verdadeira vida. A liberdade? Sim, mas ainda mais, o espírito de renúncia, que dá maior valor à liberdade do próximo. A satisfação? Sim, mas através do sacrifício. Na Igreja Católica, compreendi quão pequeno eu sou, e quão grande é o nosso Redentor”.[3]

Por Guilherme Motta


[1] SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in Evangelia. L. II, hom. 14, n. 17. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p. 722.

[2] LAMPING, Severin. Homens que regressam à Igreja. Critério: São Paulo, 1952, p. 250.

[3] Idem, p. 251

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