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Divinizaram as leis humanas e humanizaram as Leis divinas

Os Dez Mandamentos não podem sofrer mudança alguma, são fixos e perenes, e têm de ser praticados até o fim do mundo por todos os homens e mulheres, sem adaptações às conveniências do momento.

Redação (12/08/2020 18:20, Gaudium Press) O verdadeiro espírito dos preceitos positivos da Lei Mosaica está sintetizado no Decálogo, explicitação do comportamento que devemos ter para sermos semelhantes ao Criador.

Estas simples leis resumem, de modo excelente, no que consiste o exercício da vida divina em nossas almas e nos torna adequados a ela.

Sem a guarda dos Dez Mandamentos não se participa da vida de Deus, pois, a partir do momento em que é cometido um pecado grave, pela transgressão de qualquer deles, perde-se a graça santificante e a inabitação da Santíssima Trindade na alma, voltando esta a ser escrava do demônio. “O pecado mortal é o inferno em potência. É, pois, como um desabamento instantâneo de nossa vida sobrenatural, um verdadeiro suicídio da alma para a vida da graça”.

Mas a natureza humana é profundamente lógica: quando o homem, arrastado por suas más inclinações, quer praticar o mal, antes mesmo de perpetrá-lo ele inventa uma racionalização para justificar seu ato. E, aos poucos, vai criando outra religião, com uma moral diversa, independente da Lei de Deus.

O espírito do mundo

Aqueles que amam o mundo são levados a dar mais atenção aos princípios do convívio social do que à Lei de Deus, porque, na prática, vivem como se Deus não existisse. E, por vezes, certas leis humanas, contrárias à Lei divina, as observam com uma precisão absoluta. Para estas pessoas o fim último da vida se cumpre aqui na Terra e, no fim, a paga que recebem se reduz ao conceito que os demais fizeram a seu respeito.

Nós precisamos cuidar, em nosso cotidiano, de não dar mais importância à opinião dos outros do que à de Deus. Importa-nos, acima de tudo, seu juízo sobre nós! Imensamente séria é sua Lei e transgredi-la acarreta consequências terríveis. Quando alguém infringe uma lei de trânsito é penalizado com uma multa; mas se por infelicidade violar um Mandamento divino, pode ver as portas do Céu se fecharem diante de si e ir para o inferno por toda a eternidade!

O horrível defeito da hipocrisia

Em uma passagem do Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo Se levantou contra os fariseus e os recriminou, aplicando-lhes a frase de Isaías: “Este povo Me honra com os lábios, mas seu coração está longe de Mim. De nada adianta o culto que Me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”. Ou seja, era meramente humano o empenho deles em observar, de forma meticulosa, uma série de regras externas. Apesar de assim agirem por uma suposta razão religiosa e louvarem o Senhor com os lábios, seu coração estava longe d’Ele.

Erravam, pois, ao praticar uma devoção de aparência, bastando-lhes aquelas abluções para ficarem satisfeitos e se julgarem livres de qualquer impureza, sem se preocuparem com os vícios que lhes manchavam a alma. Enquanto no coração guardavam “más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades”, entre outros —, eles sustentavam a ideia de que o interior do homem — sobretudo se fosse fariseu — de si mesmo era puro, e supunham encontrar nas exterioridades a tranquilidade de consciência e a solução para encobrir estas falhas de espírito. Por isso o principal título que receberam do Salvador foi o de “hipócritas”!

A hipocrisia é um defeito horrível — muito mais comum do que pensamos! —, pelo qual há uma dissociação entre os ditos e as atitudes de uma pessoa e aquilo que ela pensa ou deseja. O hipócrita se parece com o “pai da mentira” (Jo 8, 44), porque este é justamente o modo de ser do demônio: apresenta-se com palavras atraentíssimas, dando a impressão de querer fazer o bem, mas suas intenções são péssimas.

O Divino Mestre ainda foi mais categórico: “Na realidade, invalidais o Mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição” (Mc 7, 9). De fato, os fariseus chegaram a transformar estas normas, que deveriam visar o sobrenatural, numa espécie de idolatria. Arrancaram os autênticos preceitos morais e criaram uma religião própria, diferente da verdadeira, totalmente desprovida de cunho religioso e separada de Deus, porque se apoiava em ditames mundanos, determinados pela vida social da época. Divinizaram a lei humana; dessacralizaram e humanizaram a Lei divina!

Estejam os lábios de acordo com o coração!

Deus nos deu uma Lei eterna que gravou em nossa alma; no Sinai nos entregou esta Lei escrita em tábuas de pedra e, por fim, a manifestou ainda visível e viva no próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós, “para dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37), de modo que todos a conhecêssemos perfeitamente.

Entretanto, no Paraíso, Adão e Eva desprezaram esta Lei na hora da prova e não optaram pela virtude, deixando-se levar pelas atrações do demônio a ponto de cometerem o pecado. Por causa disso, a tendência do homem é esquecer a Palavra e a Lei.

Ora, Deus quer de nós uma aceitação plena da Lei imutável e sempiterna, sendo “praticantes da Palavra e não meros ouvintes” (Tg 1, 22); Ele deseja que nosso íntimo esteja inteiramente de acordo com os lábios. Estes devem pronunciar aquilo que transborda do coração, conforme afirmou Nosso Senhor: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6, 45).

É bem verdade que nós temos de traduzir em palavras, em atitudes, em gestos, em decoração de ambientes, em cerimonial e na própria pessoa, a doutrina que recebemos como herança. Mas para não cairmos no equívoco farisaico, é preciso primeiro progredir na vida espiritual, transformar a alma e alcançar a máxima união de vias e de cogitações com Nosso Senhor Jesus Cristo; o resto virá como consequência! É Ele quem, por sua graça, há de tornar puro o nosso interior, para que dele saia a bondade e brotem obras de justiça.

Se não tivermos meios de dar a Deus uma boa dádiva, à altura de nossos anseios, ofereçamos a Ele o pouco que possuímos, animados, porém, de excelente intenção, com toda a alma… Será como o óbolo da viúva elogiada por Jesus no Evangelho (cf. Mc 12, 41-44): ela lançou só duas moedinhas, quando, no fundo, queria entregar o seu coração!

Todas as nossas ações se correlacionam com nosso destino eterno e com nossa vocação sobrenatural; por isso somos convidados a ser íntegros diante de Deus, amando-O, respeitando suas Leis com elevação de espírito, fervorosos em relação à prática da santidade. Peçamos a Maria Santíssima que nos obtenha graças extraordinárias para que nossos corações sejam chamejantes e os lábios transbordem do que canta e proclama o coração!

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

 

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho agosto 2015

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