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Recusou-se a revelar o segredo de confissão

No fim do século XIX, um virtuoso sacerdote foi injustamente deportado à Sibéria por guardar o segredo da confissão e da caridade.

Redação (08/03/2021 11:08, Gaudium Press) Em 1853, um sacerdote católico polonês — o padre Kobélovitch, pároco de Orativ, pequena cidade da Ucrânia — foi condenado à deportação na Sibéria. Até então, esse eclesiástico gozava da melhor reputação possível.

Inicialmente, vigário de Biala Tserkva, havia adquirido fama de excelente pregador e ótimo confessor. Ele era tido como um dos sacerdotes mais notáveis e zelosos de sua diocese. Nomeado pároco de Orativ, não tardou em conquistar a estima de todos e desdobrou-se em fecundas atividades. Entre outras realizações, reconstruiu e embelezou em pouco tempo a igreja paroquial.

Condenado a trabalhos forçados

De repente, para grande estupefação de todos que o conheciam, o padre Kobélovitch foi acusado de homicídio. Contra ele existiam as provas mais esmagadoras.

O administrador de uma propriedade de Orativ tinha sido alvejado por um tiro de fuzil, disparado por um desconhecido. Imediatamente, várias pessoas acorreram ao presbitério para chamar o pároco, que era tio da esposa do administrador.

Era uma noite de inverno. O pároco lá não se encontrava; entretanto, sua cama estava ainda quente. Em vão procuraram-no por toda parte. Após uma ou duas horas, voltaram ao seu quarto e, desta vez, acharam-no deitado na cama, dormindo ou parecendo dormir.

Acordaram-no e perguntaram-lhe onde estivera uma hora antes. Visivelmente perturbado, o padre Kobélovitch declarou não haver-se ausentado e estar dormindo havia já muito tempo…

Isso despertou suspeitas que nem mesmo a dor manifestada por ele, ao lhe ser anunciado o crime, pôde desviar. Abriu-se um inquérito judicial. Por indicação do organista, os policiais descobriram, escondido atrás do altar, o fuzil de cano duplo do pároco.

Era patente que ele tinha sido usado havia pouco. Esse conjunto de fatos, não era pegar o culpado em flagrante delito?

 Consequentemente, o padre foi detido e encarcerado. Ante o tribunal, protestou inocência, mas negou-se a dar esclarecimentos sobre sua ausência do presbitério naquela hora da noite. Essa recusa constituía prova esmagadora contra ele.

Assim, foi condenado a trabalhos forçados para o resto da vida. Antes, porém, de ser deportado para a Sibéria, sofreu uma pena ainda mais infamante. O Bispo procedeu à sua degradação solene, em uma igreja de Jitomir.

Entretanto, em meio à multidão que se acotovelava no templo, só se viam rostos com lágrimas. O próprio Bispo, Dom Borowski, não conseguiu reter as lágrimas de simpatia para com o sacerdote.

Quanto a este, reafirmou sua inocência mas, sem nada acrescentar, foi deportado para o distrito de Krasnoyarsk. Enquanto isto, a esposa do pristaf (comissário de polícia de Orativ) ficou louca e, em meio a seus delírios, falava continuamente de padre, de batismo…

— Ele é inocente!… Salvem-no!… Salvem-no! — repetia ela.

Nenhuma atenção lhe foi dada. Com efeito, que relação poderia ter essas palavras com o caso do padre Kobélovitch? E, pouco a pouco, fez-se silêncio na região a respeito da memória do condenado.

Vinte anos mais tarde

Em 1873, morria em Orativ o organista da igreja paroquial. Antes de exalar o último suspiro, pediu para chamar a autoridade judicial.

E então, na presença do juiz e de um grande número de pessoas, confessou ter sido ele quem, vinte anos antes, havia matado o administrador, pois desejava casar-se com sua mulher, tinha escondido o rifle atrás do altar e orientado as buscas policiais de maneira a levantar suspeitas contra o pároco.

Ao mesmo tempo, ele revelou o legítimo motivo da ausência do padre Kobélovitch. Contou como este, no momento do crime, encontrava-se numa aldeia vizinha, distante alguns quilômetros de Orativ.

O pristaf — que, em virtude do decreto imperial de 1836, tinha sido “convertido” à força para o cisma moscovita, mas permanecia secretamente católico — havia solicitado ao padre Kobélovitch que fosse, durante a noite, batizar seu último filho.

Durante o processo criminal, esse funcionário, temendo ser ele mesmo deportado para a Sibéria, nada dissera em defesa do pároco injustamente acusado.

Mais corajosa, ou dotada de uma consciência mais delicada, sua esposa queria revelar tudo ao tribunal, mas o marido a fechou em casa, impedindo-a de sair. Ela, então, enlouqueceu e foi internada no hospício Joulté-Dom, em Vilna.

Até sua morte, dois anos depois, a pobre mulher não cessava de falar de batismo, de sacerdote, do papa ortodoxo, etc., implorando que se libertasse o inocente. Tudo isso, porém, era tomado como sintomas ordinários de loucura.

Por fim, o organista declarou que, após a prisão do pároco, fizera-lhe uma visita e confessara o seu crime. Era um meio seguro de se prevenir contra toda investigação, porque ele bem conhecia o caráter heroico daquele santo sacerdote.

Portanto, o padre Kobélovitch estava submetido, havia vinte anos, a uma punição imerecida. Se quisesse, bastaria ter dito uma única palavra para ser salvo. Teria podido facilmente justificar sua ausência momentânea do presbitério, revelando que tinha ido batizar uma criança na casa do pristaf.

Mas, com isso, teria comprometido aquele homem, violador de uma lei injusta e odiosa. A caridade pedia-lhe que guardasse silêncio, e ele o guardou. Ele conhecia, pela confissão, o verdadeiro culpado.

Com uma simples palavra, seria posto em liberdade. Essa palavra, um sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo não pode dizê-la, pois as leis de Deus e as da Igreja o proíbem.

Diante do tribunal e de seu Bispo, limitou-se a declarar que era inocente. Tão logo o organista acabou sua revelação, tomaram-se providências para conceder a liberdade ao prisioneiro.

Era muito tarde: o heroico confessor tinha falecido alguns dias antes. Até o fim da vida, guardara o duplo segredo da caridade e da confissão!

A memória desse sacerdote permanecerá imortal. A exemplo de São João Nepomuceno, ele imolou-se por obediência à Santa Igreja.

Este fato histórico nos foi narrado pela prestigiosa revista “L’Ami du Clergé”, citando como fonte o jornal “Czas de Cracóvia” dos dias 10 e 13 de fevereiro de 1880.

Traduzido de “L’Ami du Clergé”, nº 52, de 23/12/1880, p. 623, 624

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