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Cardeal George Pell: do calvário de falsas acusações de pedofilia à libertação da prisão

O cardeal australiano ficou encarcerado por 405 dias pelo crime de pedofilia, que agora se prova que não cometeu. Motivos da falsa alegação? Muito além de simples perseguição.

Redação (20/04/2020 15:02/atual. 19:17, Gaudium Press) Após um calvário de 405 dias atrás das grades, o cardeal australiano George Pell, 78 anos, recuperou a sua liberdade por decisão unânime (7×0) da Suprema Corte da Austrália, após duas sentenças condenatórias em instâncias inferiores, por falsas acusações de pedofilia.

Primeira entrevista

O prelado concedeu a sua primeira entrevista, no Seminário do Bom Pastor (Sydney), ao renomado jornalista Andrew Bolt, da Sky News Australia. Foi transmitida no dia 14 de abril.

Há alguns meses, Bolt já havia demonstrado a impossibilidade de o Cardeal ter cometido o crime de pedofilia com dois menores ao mesmo tempo na Catedral de São Patrício, em Melbourne nos anos 1990.

Acusado de um crime impossível ou ao menos implausível

Entre as características de impossibilidade ou ao menos implausibilidade do crime que supostamente teria cometido, se encontravam:

1) falta de tempo suficiente para cometer o crime após a missa ou impossibilidade de que ele e suas supostas vítimas estivessem ao mesmo tempo no mesmo lugar;

2) a tradição (reconhecida pela Suprema Corte) de que bispos estejam sempre acompanhados nesse tipo de missas públicas ou grandes eventos da diocese;

3) inúmeras testemunhas atestavam que ele estaria na frente da catedral cumprimentando os fiéis no momento do suposto crime;

4) o veredicto das instâncias inferiores se baseou na palavra de apenas uma das supostas vítimas (a outra negou os fatos, antes de morrer de overdose);

5) mesmo que tivesse de fato ocorrido o estupro dos dois adolescentes ao mesmo tempo na sacristia, teria sido presenciado por outros, por se tratar de um local por natureza muito movimentado após a missa.

Perseguição midiática contra a Igreja

Pois bem, o jornalista Andrew Bolt, que sequer é cristão, há tempos já estava intrigado de como, sem qualquer base fática, o cardeal poderia ter sido condenado nesse caso que ele considera como um dos maiores malogros da justiça australiana.

De fato, a acusação contra Pell aconteceu durante uma grande campanha midiática contra a Igreja no assunto da pedofilia. Por exemplo, em um programa de 2016, o apresentador da ABC, Josh Szeps, falando dos “problemas do Arcebispo Pell”, generaliza despudoradamente: “Acho que o mais relevante é que ele é parte de uma instituição que sistematicamente protege estupradores de crianças e tem uma longa história na execução [desses crimes]”.[1]

Caça às bruxas e vilipêndio à fé

Na introdução da entrevista de cerca de 50 min., o repórter deixa claro que a decisão unânime da Suprema Corte em favor do cardeal não se tratava de uma mera tecnicalidade.[2] A acusação pela qual foi preso, juntamente com as demais, simplesmente não faziam sentido (eram contraditórias ou até mesmo risíveis do ponto de vista criminal).

O entrevistador ainda se pergunta como Pell “foi acusado por 26 denúncias, envolvendo 9 supostas vítimas. Cada uma delas ‘ridículas’ caíram por terra”, e conclui: “Parece perseguição”.

E num ato de desafio, dispara: “Percebe-se uma caça às bruxas […]. A ABC (Australian Broadcasting Corporation)[3] vilipendiou Pell durante anos”.[4]

Processo legal cheio de falhas e preconceitos

Em seguida, Bolt levanta dúvidas sobre o processo investigativo empreendido pela polícia da província de Victoria. E agora, curiosamente, abrem uma nova acusação de pedofilia que levanta dúvidas, pois sobre ela nada se sabe. E isso acontece apenas 5 dias depois da libertação do prelado australiano.

Andrew Bolt lamenta que o processo legal não tenha considerado sequer o princípio básico do direito: a questão do ônus da prova (não havia nenhuma digna de ser considerada como tal). Para o jornalista, os seus colegas de trabalho (em particular, da ABC) deveriam repensar o papel da imprensa no meio de tanto ódio.

Pell: “Fantástica implausibilidade” do ocorrido, reconhecida até mesmo pelos inimigos

O Cardeal ressalta no início da entrevista, o quanto a defesa apresentou “a fantástica implausibilidade” de o crime ter de fato acontecido, com centenas de testemunhas contrárias, entre elas membros do coro do qual participavam as supostas vítimas e auxiliares da sacristia.

Até mesmo inimigos da Igreja, relata Card. Pell, reconheceram a má condução do processo, com prejulgamentos e inversão do ônus da prova. E acrescenta um dado importante a respeito do problema do preconceito: “Muitos não gostam de minhas posições. Posso ser chamado de um conservador social. Eu acredito em [posições] cristãs. Tenho posições de modo bastante claro em muitos casos”. Isso não impede, porém, que ele reconheça a existência de “crimes terríveis cometidos em nome da Igreja”.

No entanto, os acusadores alegam que ele não mostrou reação depois da decisão e que, por isso, ele teria sido culpado. Cardeal Pell respondeu que, diante do teor das acusações, ele julgou que teria sido contraprodutivo responder naquela altura, após ter apresentado todos os argumentos de modo cabal.

A Igreja não pagou pela defesa

Bolt ainda indaga sobre quem teria pagado pelo (custoso) processo de defesa. Pell respondeu que foram muitas pessoas generosas, de boas condições, cristãos, católicos etc. Como já se sabia, confirmou que a Igreja Católica “não pagou absolutamente nada”.

Apesar da cela solitária e do local lúgubre, Pell declara: “Eu nunca me senti abandonado”.

Cardeal Pell esteve numa cela solitária, por questões de segurança. Ele de fato reconhece que havia ameaças à sua integridade. Ao mesmo tempo, ele nega que tenha se sentido abandonado atrás das grades: “Recebi mais de 4 mil cartas”. Além disso, teve grande apoio prático. Em seguida, reitera: “Eu nunca me senti abandonado”. Esclarece ainda que aproveitou bem o tempo na prisão, apesar de estar num local “sombrio”. Ficava surpreendido por perceber que certos presos “grunhiam” de desespero, como cavalos.

Sobre o caluniador: “Não tenho ódio; sinto pena dele”

Perguntado até que ponto se sentida furioso, respondeu que não existe ódio particularmente forte de sua parte: “Eu não tenho ódio em relação ao meu acusador. Sinto pena dele”.

Histeria anti-Pell: nenhuma das 26 alegações sobreviveu

De acordo com Andrew Bolt, três instituições erraram gravemente no processo: a rede estatal ABC que chegou ao ponto de uma “Histeria anti-Pell”, bem como a polícia de Vitoria (e sua campanha de promoção de denúncias) e dois juízes da Corte de Apelação que tomaram uma decisão inexplicável. A polícia criou uma força-tarefa que incitava acusações, com a presunção de que se ele teria abusado alguém, ele teria abusado de outros também. Nesse quadro, vários passaram a ir à mídia e então reclamar despudoramente. Afinal, encontraram 9 alegantes e 26 supostos crimes contra o cardeal. E conclui o entrevistador: “Nenhuma das alegações sobreviveram, porque eram obviamente muito frágeis”. Assim, ele pergunta ao cardeal se ele acha que teria se tratado de uma perseguição.

Ele responde: “Isso não é uma pergunta para mim. Ninguém é juiz em causa própria”. E o entrevistador insiste que parece uma perseguição por parte da polícia de Victoria, ao que o cardeal responde: “Creio que o ônus cabe a eles de demonstrar, com base nas evidências, que isso não é verdade”.

Absurda denúncia cheia de flagrantes contradições

Andrew Bolt ainda recorda ainda uma das absurdas denúncias: “Muitas das acusações eram claramente uma piada, ridículas. Algumas envolviam o senhor, supostamente tomando um menino de sua casa, diversas vezes para o estuprar, sobre um altar, até mesmo em público, num cinema, e supostamente durante a apresentação ele teria gritado por três minutos, enquanto sentava à sua esquerda e ninguém aparentemente teria percebido o fato. O que me surpreende é que a acusação da polícia continuou mesmo quando se descobriu que o menino não morava naquela casa no ano em que supostamente teria acontecido, o senhor não trabalhava naquela casa, o filme que estavam assistindo não estava passando naquele ano”…

George Pell confirma: “É isso mesmo”. Pois bem, Andrew Bolt então pergunta: “O senhor não ficou surpreendido com o grande desleixo da investigação por parte da polícia?”

Resposta: “Fiquei. Trata-se de um caso clássico. […] Eu sequer estava naquela região [quando isso aconteceu]”.

Outra acusação fantasiosa: nenhuma testemunha foi ouvida. Cardeal: “é certamente extraordinário”.

O entrevistador ainda recorda outra acusação fantasiosa de abuso sexual contra Pell: teria se dado com este revestido de todos paramentos e após a missa, acompanhado por um padre ao seu lado e na presença de mais de 50 membros do coro. O caso prosperou mesmo sem ter escutado sequer uma testemunha e assim mesmo a polícia aceitou a palavra do menino. Bolt ainda insiste: “Não existia alguma agenda anti-católica em Victoria, na Polícia de Victoria e Corte de Apelação de Victoria?”

O cardeal reponde sem querer incriminar as instituições, deixando claro, porém, que não se tratava de algo normal: “Eu não sei como explicar, mas é certamente extraordinário”. De modo indireto, confirma que de fato existia uma perseguição anticristã: “Certamente, as pessoas não gostam de cristãos que ensinam o Cristianismo, especialmente a respeito da vida, família, e assunto como esses. Eles ficam muito zangados com isso. Deixo isso para outras pessoas para julgar”.

Primeiro-Ministro da Província toma partido

Pois bem a reportagem ainda reforça que entre as 26 acusações contra o cardeal, nenhuma sobreviveu ao processo, incluindo acusações que não entrevistaram sequer uma testemunha. A Corte de Apelação foi criticada pela Suprema Corte por não ter tomado medidas concretas relativas à defesa, como se procede em qualquer estado democrático de direito. Andrew Bolt ainda recorda que o Primeiro Ministro de Victoria tomou posição abertamente contra o cardeal e quem ousava visitá-lo na prisão, era logo vilipendiado pela imprensa.

Pell: “Existe uma tentativa sistemática de remover os fundamentos legais judaico-cristãos”

Para o Cardeal George Pell “é difícil entender os motivos [dessa campanha]. E todas as evidências factuais que o senhor [Bolt] apresentou são realmente verdadeiras. As guerras culturais são reais. Existe uma tentativa sistemática de remover os fundamentos legais judaico-cristãos, como por exemplo, o casamento, a vida, gênero, sexo… E aqueles que se opõem a isso… Infelizmente existe menos discussão racional, e mais jogo humano, mais abuso e intimidação. E isso não é bom para a democracia”.

“Guerra cultural” contribuiu para a sua condenação, bem como a posição da ABC: “traição do interesse nacional”

Andrew Bolt: “Então o senhor acha que foi uma vítima da guerra cultural?”

George Pell: “Eu acho que isso contribuiu”.

O entrevistador questiona se o papel exercido pela ABC preocuparia o cardeal.

A sua resposta é desafiadora: “Sim, porque em parte é financiada pelos impostos dos católicos. Eu acredito na liberdade de expressão. Eu reconheço o direito daqueles que são diferentes daquilo que penso, mas existir uma posição exagerada e somente de um ponto de vista numa televisão estatal… Eu acho que isso foi uma traição do interesse nacional”.

Pell sobre o detrator: “pergunto-me se ele teria sido usado”

Bolt ainda indaga outro assunto delicado, a saber, se a suposta vítima do crime de pedofilia, falsamente acusado, teria algum interesse. Ou seja, “tudo ficou baseado na acusação de apenas um acusador. O que o Sr. acha que o moveu a fazer isso?”

Pell: “Eu não sei. Eu não sei. Eu me pergunto se ele teria sido usado”. Em outras palavras, o cardeal confirma a possibilidade de a suposta vítima ter sido manipulada.

Vingança por parte de alguém do Vaticano?

O entrevistador ainda vai mais longe. Pergunta ainda se teria alguma relação com as atitudes que o cardeal contra a corrupção em Roma, na época em que era o “tesoureiro do Vaticano”, ao que respondeu:

“A maioria das pessoas mais experientes de Roma, e que eram de alguma forma simpáticas às reformas (financeiras), creem que existe uma relação com o processo que sofreu”. Contudo, o Cardeal esclarece que não tem nenhuma evidência a esse respeito. Ainda comenta que “houve muitos artigos em torno da época de Natal que expuseram todo tipo de coisas, como compras desastrosas [i.e. imobiliárias, por parte do Vaticano], como algumas em Londres. E está demonstrado que éramos tenazmente em oposição a essas coisas”.

Pell: o Papa Francisco respeita a minha honestidade

Ainda sobre a relação do Cardeal Pell com o Vaticano, Bolt indaga-o se sentiu apoiado pelo Papa Francisco em todo este affaire.

O purpurado respondeu que se sentiu apoiado por Francisco, embora afirme que suas posições teológicas não sejam exatamente as mesmas dele. Crê ainda que o Pontífice o respeita por sua honestidade.

Posição evasiva por parte dos bispos locais: “É a vida”…

Quanto ao relativo apoio de seus companheiros no episcopado, comenta conformado: “É a vida… Mas o que é mais surpreendente é que inclusive os meus principais oponentes em Roma não acreditavam nas histórias [de abuso sexual]”.

Vingança? Como conduzirá a sua vida?

Perguntado se haveria alguma relação com a corrupção em Roma (Bolt fala de máfia), Pell respondeu: “O que estávamos fazendo e dizendo em Roma foi massivamente vingado”.

No momento o cardeal espera agora se dedicar a uma vida recolhida, escrevendo e lendo. Não pretende comentar assuntos internos da Igreja na Austrália, preferindo analisar os assuntos internacionais. Comenta também que não se sente particularmente ferido com tudo o que aconteceu, mas comenta: “Uma das coisas que lamento é a ideia de que não sou suficientemente simpático às vítimas”.

Suicídio? “Sou cristão!” Medo? “Não, pois sabia que era inocente”

Andrew Bolt ainda perguntou: “Como o senhor não terminou por se matar?”

Nesse ponto (e único) da entrevista, George Pell se toma de indignação: “Oh que lixo! Eu sou cristão!”

O entrevistador admite que colocou a questão de modo muito grosseiro, reformulando: “Como o senhor sobreviveu ao ponto de dizer que não está com medo”?

A resposta foi taxativa: “Porque eu sabia que era inocente. E essa é uma situação bem diferente de uma pessoa que sabe que é culpada. Quando se tem uma mente sã, não se pensa no suicídio. Nunca entrou na minha cabeça isso”.

Oferecer o sacrifício para Deus

Recordou ainda o princípio cristão de que se pode oferecer o próprio sofrimento para Deus. Algo que lhe confortou foi o fato de que “milhares de pessoas estavam rezando por mim e eu seriamente creio que uma razão pela qual levei tão bem a adversidade foi a oração de todas essas pessoas”.

Pell transparece tranquilidade durante a entrevista

Já no release da notícia, Andrew Bolt comentou um dado que ele julgou importante: “Ele [Cardeal Pell] parece mais em paz do que nunca tenha visto”.

Por fim, detalhou que Pell lhe relatou a história de Jó e a provação infligida por Deus.

Conclusão

Como conclusão, o comentário de Andrew Bolt coloca o dedo na chaga: “E isso é uma das coisas que as pessoas na mídia moderna não entendem e por isso sim deveriam eles temer. E isso digo como um não cristão. Na realidade eu o admiro por isso. Agora, se ele [Pell] nunca pecou, como posso saber disso a respeito de qualquer pessoa… Contudo, no tocante aos crimes que ele foi acusado e preso, a esse respeito eu tenho certeza da resposta: ele absolutamente não os cometeu. A evidência é conclusiva, e não importa se você gosta ou não gosta dele: ele foi vítima de um chocante extravio da justiça. A polícia de Victoria e a ABC devem ser responsabilizados por isso. E aos juízes da Corte de Apelação, deixo a decisão deles para a sua consciência”.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=5gLgu3ZO2Y0

[2] Com efeito, a decisão afirmava que existia uma “significativa possibilidade de que uma pessoa inocente tenha sido condenada”.

[3] Rede de televisão estatal da Austrália.

[4] A rede ABC negou que se tratasse de uma perseguição em editorial (https://www.abc.net.au/news/about/backstory/news-coverage/2020-04-11/why-the-abc-reporting-of-the-pell-case-was-not-a-witch-hunt/12137620). Andrew Bolt, em sua resposta, diz tudo: “ABC nega que tenha feito caça às bruxas em relação a Pell. Então que prove […] A ABC deveria estar envergonhada, humilhada, arrependida e implorando por arrependimento por seu papel central no vilipêndio, destruição e aprisionamento de um homem inocente”. https://www.heraldsun.com.au/blogs/andrew-bolt/abc-denies-pell-witchhunt-how-we-laughed/news-story/130e04313a00ac54789f07fea79d9f18

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