Bienal de Veneza: pavilhão da Santa Sé inspirado em Santa Hildegarda
Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza 2026: um convite à escuta e à contemplação inspirada em Santa Hildegarda de Bingen.
Foto: Vatican News/ Dicastério para a Cultura e a Educação
Redação (29/04/2026 15:49, Gaudium Press) O Pavilhão da Santa Sé na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, que ocorre de 9 de maio a 22 de novembro de 2026, tem como centro o conceito de escuta. A exposição é profundamente inspirada na vida, na obra e na figura de Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179), a abadessa beneditina alemã, mística, compositora, escritora, médica e Doutora da Igreja.
O tema “O ouvido é o olho da alma” resume a proposta curatorial, assinada por Hans Ulrich Obrist, diretor artístico da Serpentine Gallery em Londres, e Ben Vickers, fundador do departamento de Tecnologias das Artes da Serpentine, em colaboração com Soundwalk Collective, uma plataforma contemporânea de arte sonora. O projeto foi apresentado oficialmente na última segunda-feira, 27 de abril, durante coletiva de imprensa na Sala de Imprensa da Santa Sé.
O Cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação e comissário do pavilhão, descreveu a iniciativa como “um observatório do mundo”. Segundo ele, o coração conceitual da exposição está nas palavras do Papa Leão XIV durante o Terço pela Paz, em 11 de abril:
“Precisamos não nos deixar arrastar pela aceleração de um mundo que não sabe o que persegue, para voltarmos a servir o ritmo da vida, a harmonia da criação, curando as suas feridas”
Em um mundo marcado por conflitos, ruído constante e pressa, o cardeal português enfatizou que a participação da Santa Sé na Bienal representa uma oportunidade de mergulho na contemplação e na escuta. “A partir da interioridade — dimensão essencial — esperamos que possam brotar frutos de paz, de encontro e de futuro”, afirmou.
Arte como profecia e a necessidade de novos mestres
Tolentino de Mendonça defendeu que, em tempos de tensão, a arte tem muito a oferecer: “Precisamos que os artistas falem. Devemos ouvi-los como ouvimos os profetas. A arte nos oferece novas visões do mundo.”
Ele destacou ainda que nosso tempo precisa de “novos mestres”. A “personalidade polifônica” de Santa Hildegarda pode funcionar como antídoto ao excesso de monotonia da cultura contemporânea. A santa medieval, canonizada em 2012 por Bento XVI, oferece uma “língua desconhecida” — uma força imaginativa que estimula paradigmas sociais cada vez mais inclusivos e que motiva práticas comunitárias e fraternas”.
Embora tenha vivido no século XII, Santa Hildegarda soa surpreendentemente atual. Seus cantos, escritos e imagens visionárias continuam a iluminar questões do presente, especialmente a necessidade de desacelerar, escutar, contemplar e cuidar.
Um projeto de continuidade e experiência holística
O pavilhão se desdobra em dois espaços distintos de Veneza, criando uma relação harmônica entre as obras e os ambientes:
– O Jardim Místico, no bairro de Cannaregio, um espaço precioso de contemplação, geralmente inacessível, inspirado em O Castelo Interior de Santa Teresa de Ávila.
– O Complexo de Santa Maria Ausiliatrice, no bairro de Castello, um scriptorium contemporâneo — aquele lugar onde outrora se copiavam e iluminavam os livros — articulado em três formas: um arquivo vivo, a obra final de Alexander Kluge e a liturgia sonora das monjas da abadia de Eibingen.
Esta última localização já havia sido usada pelo Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Arquitetura do ano anterior, o que permite uma continuidade sustentável do projeto, sem a necessidade de desmontar completamente as intervenções anteriores.
Para Hans Ulrich Obrist, o projeto se desenvolveu ao longo do tempo, alimentado por memórias e encontros com o legado cultural de Hildegarda. “Para ela, o som era uma forma de conhecimento. A música se torna uma ponte entre o eu e o mundo, entre o microcosmo e o macrocosmo”, explicou o curador.
O resultado é uma experiência holística: 24 artistas — entre eles nomes como Brian Eno, Patti Smith, FKA Twigs e outros — dialogam com os cantos, as visões e a espiritualidade sonora da santa. O pavilhão se propõe como uma espécie de “oração sonora”, convidando o visitante a uma escuta atenta e contemplativa.
O Soundwalk Collective teve um papel central na construção da primeira parte do Pavilhão, no Jardim Místico, onde novas obras sonoras de músicos, poetas e artistas contemporâneos dialogam com o legado de Hildegarda por meio da voz, dos instrumentos e do silêncio.
Para o outro curador, Ben Vickers, Hildegarda serve de exemplo, pois sabia conectar o céu e a terra por meio do canto, ensinando também a importância primordial da escuta.
Por que Santa Hildegarda hoje?
Hildegarda de Bingen foi uma das mulheres mais extraordinárias da Idade Média. Mística, compositora de música litúrgica, autora de tratados de medicina natural e botânica, ela via o universo como uma sinfonia harmônica criada por Deus. Sua capacidade de integrar fé, arte, ciência e natureza a torna uma referência poderosa para os desafios atuais: a crise religiosa, o esgotamento mental, a perda de sentido e a dificuldade de ouvir o outro e a si mesmo.
Ao trazer sua figura para o coração de um dos mais importantes eventos de arte contemporânea do mundo, o Pavilhão da Santa Sé propõe um contraponto necessário: em meio à velocidade e ao ruído, resgatar o valor do silêncio, da escuta profunda e da harmonia.
“O ouvido é o olho da alma” não é apenas uma exposição de arte. É um convite a desacelerar, a olhar para dentro e, quem sabe, a começar a curar as feridas de um mundo que corre sem saber para onde vai.





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