Viagem de Leão XIV à América do Sul: a mais exigente de seu pontificado
Entre a fragilidade física e a missão, o Pontífice se prepara para visitar Uruguai, Argentina e Peru. A viagem será uma oportunidade para consolidar as prioridades pastorais de seu pontificado.
Foto: Vatican News/ Vatican Media
Redação (02/11/2026 15:05, Gaudium Press) A poucos dias de iniciar sua viagem apostólica à América do Sul, o Papa Leão XIV encontra-se diante de um desafio que ultrapassa os aspectos pastorais e diplomáticos habitualmente associados às viagens pontifícias. Aos 71 anos, o Pontífice prepara-se para cumprir uma agenda de quase duas semanas, marcada por frequentes deslocamentos, celebrações multitudinárias e visitas a regiões de grande altitude, menos de um mês após a cirurgia pulmonar.
Prevista para ocorrer entre 6 e 17 de novembro, a viagem abrangerá Uruguai, Argentina e Peru. Segundo o programa divulgado pela Santa Sé, será uma das mais exigentes viagens internacionais de seu pontificado.
A principal particularidade, entretanto, reside nas condições de saúde em que o Papa realizará o percurso.
A decisão de manter a agenda demonstra a disposição do Pontífice de retomar suas atividades internacionais, mas não dispensa a prudência.
A saúde do Papa em primeiro plano
O itinerário prevê sucessivas viagens aéreas, deslocamentos de helicóptero, celebrações e encontros públicos. Uma das etapas mais puxadas ocorrerá em 15 de novembro, quando Leão XIV deverá visitar Cusco, situada a aproximadamente 3.400 metros de altitude, antes de seguir para Pucallpa, na Amazônia peruana.
A passagem da altitude andina ao clima amazônico, somada à intensidade dos compromissos, torna o percurso especialmente desafiador para alguém em recuperação de uma cirurgia pulmonar.
A autorização médica é um dado tranquilizador, mas não representa garantia de que o Pontífice estará livre do cansaço ou de eventuais dificuldades físicas. Tampouco permite interpretar a retomada das viagens como prova de recuperação definitiva. Embora o Vaticano tenha informado que os exames não apontaram necessidade de tratamento oncológico adicional, ainda seria precipitado estabelecer conclusões sobre o prognóstico de longo prazo.
Nesse contexto, sua condição física também estará sob a atenção dos observadores a cada etapa da visita.
Três países, três desafios para a Igreja
A escolha dos destinos reúne prioridades pastorais e simbolismos históricos.
A primeira etapa da viagem será o Uruguai, país onde a presença católica é proporcionalmente menor do que em outras nações latino-americanas. A visita permitirá a Leão XIV destacar a missão da Igreja em uma sociedade marcada pela secularização, especialmente por meio da educação, das obras de caridade e da atuação junto às populações mais vulneráveis.
Nesse contexto, o encontro com a comunidade de Casavalle, em Montevidéu, previsto para 7 de novembro, assume particular relevância. Situada em uma região marcada pela violência e pelo narcotráfico, a paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe desenvolve iniciativas de assistência social, reinserção comunitária e apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.
Na Argentina, a viagem de Leão XIV será inevitavelmente associada à memória de Francisco, que não retornou à terra natal durante os doze anos de seu pontificado.
Além dos encontros institucionais, a programação inclui visitas a uma obra assistencial da família Orionita, a um estabelecimento penitenciário e ao Santuário de Nossa Senhora de Luján. Esses compromissos evocam aspectos centrais do ministério de Francisco, mas também permitirão ao novo Pontífice imprimir sua própria orientação pastoral à relação da Santa Sé com a Igreja argentina.
O Peru, por sua vez, possui uma dimensão profundamente pessoal.
Foi nesse país que Robert Francis Prevost desenvolveu parte fundamental de sua trajetória missionária e episcopal. Seu retorno a Chiclayo, onde exerceu o ministério de bispo, representa mais do que uma visita institucional: será o reencontro com uma comunidade que participou diretamente de sua formação como pastor.
A passagem pela Amazônia peruana também deverá evidenciar os desafios da evangelização, a situação dos povos indígenas e as dificuldades enfrentadas pelos missionários em regiões afastadas dos grandes centros urbanos.
Os encontros com vítimas de abusos
Entre os compromissos anunciados pelo Vaticano, os encontros com vítimas de abusos cometidos por membros do clero e de outras instituições eclesiásticas poderão representar uma das etapas mais delicadas da viagem. Segundo o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, a iniciativa pretende expressar proximidade às pessoas que sofreram violência, favorecer caminhos de cura e reafirmar o compromisso de tornar a Igreja um ambiente seguro.
A Santa Sé, entretanto, não informou em quais países ocorrerão esses encontros, nem divulgou a identidade dos participantes.
A ausência de detalhes assume especial importância no caso do Peru, onde o processo de dissolução do Sodalício de Vida Cristã e a reparação de suas vítimas continuam suscitando questionamentos.
Fundado em 1971 por Luis Fernando Figari, o Sodalício tornou-se uma das organizações católicas mais influentes do país. Ao longo dos anos, porém, denúncias de abusos sexuais, físicos, psicológicos e de autoridade motivaram investigações e intervenções da Santa Sé, culminando na decisão de dissolver a instituição, determinada por Francisco em 2025.
A extinção canônica da organização, contudo, não significou o encerramento das reivindicações de suas vítimas. Além do reconhecimento dos abusos sofridos, os sobreviventes continuam reivindicando reparações econômicas, esclarecimentos sobre o patrimônio da instituição e garantias de responsabilização dos envolvidos
Na véspera do anúncio dos encontros pontifícios, cerca de trinta sobreviventes do Sodalício solicitaram formalmente uma audiência com Leão XIV durante sua passagem pelo Peru. Entre suas preocupações está a possibilidade de que a iniciativa contemple apenas determinados grupos, deixando de fora aqueles que ainda exigem esclarecimentos e providências concretas.
Enrique Escardó, um dos primeiros denunciantes dos abusos do Sodalício, declarou à imprensa espanhola que espera apresentar diretamente ao Papa propostas para melhorar a prevenção dos abusos e o acompanhamento das vítimas. Escardó já havia se encontrado com Robert Prevost em janeiro de 2025, quando o atual Pontífice ainda era prefeito do Dicastério para os Bispos.
A questão central, portanto, não é apenas se Leão XIV receberá vítimas de abusos, mas quem será ouvido e as consequências concretas que poderão resultar desses encontros.
O Papa já demonstrou disposição para o diálogo com sobreviventes durante suas viagens à Espanha e à França. Em Madri, em junho, recebeu integrantes do Projeto Repara, iniciativa da arquidiocese local. Em setembro, durante sua passagem por Lourdes, manteve um encontro reservado com vítimas, marcado por testemunhos e reivindicações de verdade, justiça e reparação.
Na ocasião, Leão XIV reconheceu a gravidade dos abusos cometidos no interior da Igreja, porque eles atingem não apenas a integridade das pessoas, mas também sua relação com a fé.
Na América Latina, essa disposição para a escuta será novamente colocada à prova. O caso do Sodalício acrescenta uma complexidade específica, uma vez que envolve não apenas a responsabilidade pessoal de agressores, mas também questões relativas ao patrimônio, à governança institucional e à efetividade dos mecanismos de reparação.
Para as vítimas, um encontro com o Papa poderá representar um gesto de reconhecimento de enorme significado. A experiência acumulada demonstra que a escuta, por mais necessária que seja, não substitui medidas efetivas de justiça.
O desafio para Leão XIV será assegurar que a proximidade pastoral anunciada pela Santa Sé se traduza em avanços concretos nos processos de reparação e na prevenção de novos abusos.
Continuidade e identidade própria
Esta viagem ocorre em um momento no qual Leão XIV procura consolidar sua autoridade e definir com maior clareza as prioridades de seu pontificado.
Na Argentina, o encontro com o presidente Javier Milei deverá atrair atenção particular. As diferenças entre as posições do governo argentino e as preocupações sociais expressas pela Igreja, especialmente quanto à pobreza e às consequências das políticas econômicas, oferecem um cenário sensível para a visita.
No Peru, além das questões já citadas, o Pontífice terá diante de si o desafio de promover a unidade de comunidades católicas que, embora compartilhem a mesma fé, nem sempre concordam quanto às prioridades pastorais e à interpretação do legado de Francisco.
É inevitável que a viagem seja comparada às iniciativas de Francisco, sobretudo pela atenção às periferias, aos migrantes, aos pobres e aos povos indígenas. Reduzir Leão XIV à condição de continuador de seu predecessor seria desconsiderar a experiência singular que conduziu Robert Prevost ao papado.
Diferentemente de outros Pontífices que visitaram a América Latina como observadores externos, Leão XIV conhece de perto a realidade eclesial da região. Viveu suas dificuldades, participou de sua vida pastoral e exerceu responsabilidades diretas no governo de uma diocese peruana.
Essa familiaridade poderá conferir especial peso às suas intervenções sobre a evangelização, a formação do clero, a comunhão eclesial e a responsabilidade dos bispos. Mas também aumenta sua responsabilidade de oferecer respostas convincentes.
Mais do que repetir gestos de Francisco, Leão XIV terá a oportunidade de mostrar como pretende conduzir a Igreja a partir de sua própria experiência missionária.
A fragilidade humana e a força do ministério
A recente enfermidade do Papa introduz uma dimensão humana que dificilmente poderá ser ignorada: o exercício do ministério petrino não está separado dos limites físicos de quem o desempenha.
O êxito da viagem não deverá ser medido exclusivamente pela capacidade do Papa de cumprir todos os compromissos previstos. Também será necessário observar o alcance de suas palavras, a qualidade de seus encontros e, sobretudo, os desdobramentos de seus compromissos com aqueles que aguardam justiça dentro da própria Igreja.
O verdadeiro significado da peregrinação estará na mensagem que Leão XIV conseguirá transmitir às Igrejas locais e na forma como sua presença contribuirá para fortalecer a fé, a comunhão e a confiança dos católicos.
Entre os desafios de saúde, as expectativas dos fiéis, as tensões políticas e eclesiais dos países visitados, e o sofrimento das vítimas de abusos, Leão XIV terá diante de si uma oportunidade singular: demonstrar que a autoridade do sucessor de Pedro se manifesta não apenas na capacidade de governar, mas também na disposição de ouvir, reconhecer responsabilidades e promover a justiça.
Talvez essa seja a imagem mais significativa da viagem: a de um Papa consciente de sua fragilidade humana, que retorna às terras onde aprendeu a ser pastor, e exercerá essa missão diante de uma Igreja que espera dele não apenas palavras de esperança, mas também gestos concretos de reconciliação e reparação.
Por Rafael Ribeiro





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