Vaticano suspende processo de canonização do sacerdote jesuíta Walter Ciszek
Pe. Walter Ciszek, sacerdote jesuíta americano, passou mais de 20 anos na prisão e nos gulags soviéticos, celebrando missa em segredo, ouvindo confissões e sustentando a fé de seus companheiros de sofrimento.

Foto: Reprodução
Redação (20/04/2026 10:56, Gaudium Press) O Vaticano decidiu suspender o processo de beatificação e canonização do Pe. Walter Ciszek, sacerdote jesuíta americano conhecido por sua impressionante história de fé e resistência durante décadas de prisão na União Soviética.
De acordo com uma carta enviada, pelo Monsenhor Ronald Bocian, presidente da antiga Liga de Oração Padre Walter Ciszek, a Diocese de Allentown (Pensilvânia, EUA) foi informada de que a documentação apresentada “não justifica o avanço do processo da causa para a beatificação ou canonização”. Com isso, o processo formal foi interrompido.
A decisão do Vaticano não questiona a vida exemplar ou o testemunho espiritual do padre Ciszek. Monsenhor Bocian destacou que a suspensão “não diminui o valor espiritual duradouro” do testemunho do jesuíta, que continua sendo uma fonte de inspiração para muitos católicos.
Quem foi o Padre Walter Ciszek?
Nascido em 1904, em Shenandoah, na Pensilvânia, de ascendência polonesa, Walter Ciszek entrou na Companhia de Jesus.
Em meio ao avanço do comunismo ateu na União Soviética, o Papa Pio XI (1922-1939) fez um apelo histórico aos seminaristas e jovens sacerdotes católicos: que se preparassem para levar o Evangelho ao povo russo, mesmo sob regime de perseguição religiosa. Esse chamado, feito especialmente a partir de 1929-1930, incluía um pedido concreto e prático: aprender a língua russa. O objetivo era formar missionários capazes de atuar de forma discreta ou clandestina na Rússia, compreendendo a cultura, a liturgia oriental e a realidade do povo soviético. Com efeito, Pio XI via com preocupação o fechamento de igrejas, a perseguição aos cristãos e a tentativa do regime soviético de erradicar a fé religiosa.
Foi exatamente nesse contexto que o jovem jesuíta americano Walter Ciszek, ainda seminarista, sentiu um forte chamado vocacional. Ao tomar conhecimento do apelo papal, ele se ofereceu imediatamente como voluntário. Em 1934, foi enviado a Roma para estudar no Collegium Russicum (ou “Russicum”), um centro jesuíta criado especialmente para preparar sacerdotes para a missão na Rússia e na diáspora russa.
No Russicum, Ciszek dedicou-se intensamente ao estudo da língua russa, da história da Rússia, da teologia e da liturgia bizantina. Foi lá que ele aprendeu a falar russo com fluência, preparando-se para o que viria a ser uma das mais dramáticas histórias de fé do século XX.
Ele foi ordenado em 1937 e, em 1938, foi enviado como missionário para a Polônia, na época próxima à fronteira soviética. Com a invasão da Polônia pela URSS em 1939, ele passou a atuar clandestinamente.
Em 1941, foi preso pela polícia secreta soviética (NKVD), acusado de espionagem a serviço do Vaticano. Após meses de interrogatórios e torturas, foi condenado a 15 anos de trabalhos forçados no gulag. Passou parte desse período em minas de carvão na Sibéria e depois em um campo próximo ao Círculo Polar Ártico, onde realizou trabalhos pesados em condições extremas.

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Durante mais de 20 anos de cativeiro (de 1941 a 1963), o Pe. Ciszek celebrou missas em segredo, ouviu confissões e ofereceu apoio espiritual aos companheiros de prisão, arriscando a própria vida. Libertado em 1963 em uma troca de prisioneiros entre os EUA e a União Soviética, ele retornou aos Estados Unidos e dedicou o resto de sua vida a escrever e falar sobre sua experiência.
Seu livro mais famoso, Pelos Vales Escuros (em inglês He Leadeth Me – Ele Me Conduz), relata como encontrou força e sentido em meio ao sofrimento extremo, tornando-se uma referência espiritual sobre a providência divina e a entrega total a Deus. E, em O Espião do Vaticano (em inglês With God in Russia), ele conta seus anos de prisão e trabalho forçado.
A causa de canonização
A causa de canonização do Pe. Ciszek foi aberta oficialmente em 1990 e recebeu aprovação vaticana para avançar em 2012. Desde então, a Diocese de Allentown reuniu documentos, testemunhos e evidências sobre sua vida e virtudes heroicas. No entanto, após análise da Congregação para as Causas dos Santos, o Vaticano concluiu que a documentação não era suficiente para prosseguir com o processo.
A suspensão significa que, por enquanto, não haverá avanço rumo à declaração de “Servo de Deus”, “Venerável”, beato ou santo. Ainda assim, muitos fiéis continuam a venerar sua memória e a pedir sua intercessão pessoalmente.





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