Gaudium news > Uso indiscriminado da IA nas universidades obriga a resgatar estratégias educacionais do passado

Uso indiscriminado da IA nas universidades obriga a resgatar estratégias educacionais do passado

A escrita acadêmica deve a recuperar seu propósito original: servir como ferramenta de interiorização do conhecimento, e não como produto final para nota.

Foto: Nahrizul Kadri / Unplash

Foto: Nahrizul Kadri / Unplash

Redação (21/03/2026 08:47, Gaudium Press) Clay Shirky, vice-reitor da Universidade de Nova York (NYU), publicou no ano passado, um artigo no The New York Times intitulado “Students Hate Them. Universities Need Them. The Only Real Solution to the A.I. Cheating Crisis”. Nele, o acadêmico e especialista em tecnologia alerta para uma crise silenciosa na educação superior: o uso generalizado e muitas vezes “preguiçoso” da inteligência artificial (IA) por parte dos estudantes universitários.

O autor afirma que a IA transformou a sala de aula em um campo de batalha e que as universidades precisam “se reinventar” para enfrentar esse fenômeno.

Mais de mil dias após o lançamento do ChatGPT, em fins de 2022, Shirky afirma que as tentativas das universidades de conter o uso indiscriminado da IA falharam, e que chegou a hora de repensar como se ensina e como se avalia o aprendizado. O que era uma preocupação em 2025 se tornou ainda mais realidade em 2026.

O fracasso das estratégias iniciais

Muitas instituições adotaram uma abordagem que incentivava o uso “ativo” e “ético” da IA: permitir que os alunos recorressem a ferramentas como o ChatGPT para explorar ideias, praticar redações, pedir feedback ou desenvolver rascunhos. A expectativa era que, ao familiarizá-los com a tecnologia de forma supervisionada, eles evitariam o uso preguiçoso ou indiscriminado.

Mas o resultado foi o oposto. Shirky relata casos concretos, como o de um professor de filosofia que conversou abertamente com a turma sobre os riscos da IA para o aprendizado — e mesmo assim viu alunos, inclusive os mais dedicados, usando a ferramenta para escrever trabalhos inteiros e pular a leitura dos textos originais.

Outras soluções testadas também fracassaram:

– Pedir que os estudantes usem a IA e depois critiquem o resultado? Eles pedem à própria IA para fazer a crítica.

– Oferecer tutores virtuais baseados em IA? Os alunos encontram ferramentas que simplesmente entregam as respostas prontas.

– Usar detectores de texto gerado por IA? Eles geram muitos falsos positivos e falham ao identificar textos levemente editados, tornando-os pouco confiáveis para punir alguém.

Verdadeiro aprendizado

A utilização da IA no mundo já demonstra que um software é capaz de gerar quantidades ilimitadas de texto razoavelmente aceitável e desvalorizará muitos tipos de escrita. Continuará a existir mercado para a qualidade — tal como existe mercado para o cinema apesar do TikTok —, mas produzir textos comuns ou medíocres exige agora muito menos habilidade do que antes, pois qualquer um com um bom prompt consegue gerar páginas de conteúdo aceitável em segundos.

O verdadeiro aprendizado, segundo Shirky, nunca esteve no produto final (o texto entregue), mas no processo cognitivo: ler, analisar, organizar ideias, formular argumentos e expressar-se com clareza. Quando esse esforço mental se torna opcional, o propósito educacional da escrita desaparece.

O retorno ao analógico

Diante do colapso dos métodos modernos, professores estão resgatando práticas antigas. Entre as tendências observadas:

– Ensaios escritos em sala de aula, sem acesso a dispositivos;

– Diálogos socráticos e perguntas-respostas presenciais diretas;

– Avaliações autênticas: tarefas que só podem ser concluídas se o aluno tiver aprendido o conteúdo.

– Aulas sem celular ou laptop em alguns casos, já que há relatos de alunos consultando o ChatGPT mesmo durante discussões em tempo real.

Shirky compara essa mudança a um retorno parcial ao modelo medieval de ensino: aulas orais, interação direta professor-aluno, memorização e demonstração presencial do conhecimento. Curiosamente, o The Wall Street Journal já noticiava aumento nas vendas de cadernos que os alunos utilizam para escrever as respostas dos exames — sinal de que estudantes e professores buscam meios analógicos para recuperar o esforço intelectual.

Uma adaptação inevitável e necessária

O tom do artigo não é alarmista. Shirky acredita que as universidades vão se adaptar, como sempre fizeram ao longo da história. A escrita acadêmica deve recuperar seu propósito original: servir como ferramenta de interiorização do conhecimento, e não como produto final para nota.

Com o tempo, ressalta Shirky, as universidades se adaptarão, pois a adaptação gradual e constante é precisamente a forma como as universidades funcionam.

Em síntese, o artigo é um apelo para reconhecer o uso real que está sendo dado à IA e começar a redesenhar o ensino superior desde suas bases, assumindo que a tecnologia já mudou para sempre o que significa aprender e demonstrar que se aprendeu. Com efeito, “os cadernos que os alunos utilizam para escrever respostas de exames e as provas orais coexistirão com inovações modernas, como a aprendizagem ativa e a avaliação autêntica. Mas um retorno a um estilo mais coloquial e improvisado tornará o ensino superior mais interpessoal, mais espontâneo e mais peculiar, restaurando um senso de comunidade em nossas instituições”.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas