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Um julgamento, uma lição

Recentes escavações na Capela expiatória, localizada na praça Luís XVI de Paris, nos trazem à vista algumas consequências do furor revolucionário de 1789.

Originado em tempos remotos e desejoso de minar profundamente todas as bases conservadoras da sociedade, certas lideranças procuraram denegrir e empanar a figura-símbolo que teria sido capaz de impedir a marcha revolucionária: Maria Antonieta.

Redação (06/07/2020 09:52, Gaudium Press) Em 1789, o reino de França já estava a ponto de ruir. Os nobres, cada vez mais, afrouxavam seus ideais. Paralelamente, o clero deixava de ser o condutor do rebanho e passava a obedecê-lo, mesmo em suas mais laicizantes resoluções; e o povo, saturado da maneira como a monarquia conduzia os fatos, estava prestes a exterminá-la. Em suma, só faltava um estopim para que a revolução se desencadeasse.

A tal ponto a meta foi atingida que, apenas três anos depois do início da revolução, Luís XVI já estava morto. A partir de então, Maria Antonieta tornou-se a vítima mais desejada do Tribunal Revolucionário.

Ela já era uma verdadeira rainha, e, embora tenha deixado se levar por frivolidades e caprichos, agora, porém — e sem dúvida foi isso o que despertou maior ódio em sua pessoa – compenetrou-se de seu dever.[1]

A Convenção, entretanto, sabia que a antiga superficialidade não era motivo suficiente para condená-la. Então, não tendo tempo a perder em longas, e talvez em infrutuosas pesquisas, decidiu optar pela arma, já tão velha, mas que ainda gerava excelentes resultados: a calúnia.

Calúnia, inclemente guilhotina

Assim, na terça-feira, 15 de outubro de 1793, às oito horas, iniciou-se o julgamento.[2] Após a leitura da ata de acusação que, aliás, não continha nenhuma prova dos crimes atribuídos à rainha, prosseguiu-se a audiência dos denunciados.

Qual não foi a surpresa da rainha ao reencontrar figuras já há tanto tempo conhecidas, mas que, desta vez, vinham não para servi-la, mas para depor contra ela. Eram eles gente da corte e ministros, seus servidores e soldados, e até mesmo, os infames Hébert e Simon que haviam iniciado sua tortura na torre do templo. Todos, enfim, antigos amigos que, agora revelavam sua verdadeira identidade.

Sobre muitos temas versaram as acusações, desde supostas conspirações de Maria Antonieta visando associar a Lorena à Áustria, até uma criminosa insubordinação à república por portar uma estampa de um coração atravessado por uma flecha contendo as palavras: “Miserere nobis”. Para todas essas acusações sua resposta era imediata e precisa. Uma, porém, mereceu o seu silêncio.

Hébert, que já tinha sua consciência anestesiada de tantos e tantos crimes e calúnias, não ousou poupar nem mesmo aquilo que Maria Antonieta ainda tinha de mais precioso: sua honra e a de seu filho. Assim, segundo seu depoimento, a mãe do jovem Luís XVII teria tido relações incestuosas com ele e, visando dominá-lo na hora em que assumisse o poder, também o estava dopando. Embora o silêncio da rainha muito falasse, utilizaram-se dele para acusá-la ainda mais, dizendo que era uma verdadeira prova da autenticidade do relato.

Integridade! Viva, mesmo quando guilhotinada

Então, fazendo jus à realeza que possuía, Maria Antonieta proferiu sua defesa: “Se eu não respondi – dizia ela –, é porque a natureza se recusa a responder semelhante acusação feita a uma mãe; e eu recorro a todas aquelas que possam estar aqui”. O silêncio dos juízes seguiu-se da aclamação de todos os que assistiam ao iníquo processo. Por um momento, parecia que a causa da rainha estava ganha. Porém, como o tribunal pouco se importasse com as provas, o longo julgamento já tinha sua conclusão definida, antes mesmo de começar.

Quando iniciou a leitura do decreto de condenação da inocente, Herman, o presidente do juízo, afirmou que aquele julgamento passaria para a história como uma lição.[3] E, de fato, o foi, pois desta maneira, ficava consignada para sempre a velha tática dos poderes revolucionários face aos justos que lhe impedem a marcha.

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Caro leitor, não estamos, nossos dias, presenciando cenas de novos julgamentos impiedosos, promovidos por aqueles que visam minar toda e qualquer base conservadora ainda existente na sociedade? E ainda mais, separando vilmente os filhos de seus pais por meio de processos pré-arquitetados, expressão de perseguição aos bons costumes?

Por Carlos Braga


[1] Cf. ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1936, p. 343.

[2] Descrição do julgamento, In: Cf. IMBERD DE SAINT-AMAND, Arthur-léon. La dernière Année de Marie-Antoinette. Paris: Éditeur P. Lethielleux, 1918, p. 239-251.

[3] Eis suas palavras: “Um grand exemple est donné en ce jour à l’univers, et, sans doute, il ne sera pas perdu pour les peuples qui l’habitent”. Cf. IMBERD DE SAINT-AMAND, Arthur-léon. La dernière Année de Marie-Antoinette. Paris: Éditeur P. Lethielleux, 1918, p. 248. Tradução nossa.

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