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Um Deus em três pessoas?

É possível compreender o mistério da Santíssima Trindade?

Redação (09/10/2020 17:54, Gaudium Press) Ao contemplar as maravilhas da criação, sejam elas imensas como os oceanos, delicadas como as penas de um colibri, quentes como a lava de um vulcão, ou aterradoras como a força de uma tempestade, o homem percebe, a um só tempo, a nobreza e a fragilidade de sua natureza. Assim, em sua mente surgem interrogações como: qual é a origem do Universo? Quem foi o autor de tal maravilha? Como se estabeleceu tanta ordem?

Uma inteligência reta e, sobretudo, inocente, chega à conclusão de que, para haver tais grandezas, é necessário que haja um Artífice maior do que tudo quanto existe de criado e mais perfeito do que a ordem impressa no Universo. A tal conclusão, chegaram os filósofos antigos que procuravam a causa de todas as coisas. Donde as expressões: “Motor imóvel”, “Causa das causas”, etc.

Na doutrina católica, sabe-se, por revelação, que esse Ser – anterior e mais perfeito de toda a Criação – é Deus, o Ser por excelência que espelha as suas perfeições na imensidade dos seres contingentes criados, obras de suas mãos.

Apenas vislumbrada pela razão humana, essa grandeza é mais conhecida pela fé, que afirma ser Deus Uno e Trino: uno em natureza, portanto, um só Deus; e trino em pessoas, que são numericamente distintas entre si, porém perfeitamente iguais. Esse é o mistério mais profundo e insondável da Fé.

O grande Santo Agostinho, por exemplo, ao tentar compreender pela razão essa verdade, foi visitado por um Anjo do Céu que demonstrou a incapacidade da inteligência humana abarcar a grandeza desse mistério e fê-lo desistir de seu intento. Entretanto, no decorrer da história da Igreja, essa verdade foi sendo cada vez mais esclarecida devido às refutações desenvolvidas pela Santa Igreja às objeções.  Sem desvendar o mistério, evidentemente, elas robustecem a virtude da fé e capacitam os homens para demonstrar a coerência da Doutrina Católica.

Objeções da razão perante o mistério[1]

Dois são os princípios que aparentemente contundem o mistério da Santíssima Trindade: o princípio de contradição e o princípio de identidade.

O racionalismo alega o princípio de contradição, afirmando que um não pode ser três, e que três não podem ser um; o que nunca foi sustentado pela Doutrina Católica. Aceitar esse raciocínio seria atentar contra a própria razão. Os mistérios da fé não contrariam a razão, mas a excedem.

A Doutrina Católica diz: Um Deus em três pessoas; três pessoas, ou seja, três individualidades realmente subsistentes, inteligentes e distintas em uma só essência ou natureza divina. O erro estaria em considerar que o termo essência e pessoa exprimem o mesmo conceito; o que não é verdade. Se assim fosse, haveria uma contradição. E, tal como no homem pode haver duas substâncias – o corpo e a alma – em uma só pessoa, nada impede que haja três pessoas em uma só natureza.

O outro princípio que, aparentemente, se opõe à doutrina da Trindade é o princípio de identidade: “várias coisas idênticas a outra, são idênticas entre si”. Ora se o Pai é Deus, se o Filho é Deus, se o Espírito Santo é Deus, em uma palavra, se estas três pessoas são idênticas à divindade, são também idênticas entre si, e então não há mais Trindade.

Mas, esse raciocínio é errado, pois várias coisas idênticas a outra são idênticas entre si, desde que a sua identidade seja absoluta, e no mesmo ponto de vista, caso contrário, não são idênticas entre si. Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são idênticos à divindade no que diz respeito à natureza divina, mas não a respeito da personalidade, pois cada um tem algo que o distingue: o Pai gera e não é gerado; o Filho é gerado do Pai; o Espírito Santo não é gerado, mas procede simultaneamente do Pai e do Filho e não gera ninguém. Há, portanto, entre as três pessoas divinas caracteres diferentes de personalidade, e não identidade absoluta.

Logo, não há princípio algum evidente para apresentar o mistério da Santíssima Trindade como contraditório ou impossível. A razão não o compreende por ser ele insondável.

É possível compreender o mistério?

Uma vez que o homem foi criado para a Eternidade feliz no Céu, ele só alcançará a plenitude de sua natureza na visão beatífica, ou seja, contemplando tudo através do olhar de Deus. E, no período de sua passagem pela terra, como se trata de um período de prova, é necessário que muitas coisas sejam compreendidas de maneira incompleta, às apalpadelas, do contrário o homem se sentiria realizado aqui, onde não é sua pátria.

Entretanto, os mistérios da fé, nem no Céu serão esclarecidos por inteiro, sobretudo o mistério da Santíssima Trindade. Nunca será possível compreender totalmente Deus, Ser infinito. E nisso consistirá a alegria eterna, isto é, sempre encontrar um novo aspecto de Deus para contemplar e amar.

Porém, como o homem é composto de corpo e alma, e facilmente mais influenciável pelo lado material – visível e palpável – acaba se esquecendo das realidades celestes e sobrenaturais que são muito mais elevadas. Então, é preciso admirar os reflexos de Deus nas coisas criadas, procurando antegozar a vida do Céu, sempre elevando o espírito às realidades sobrenaturais.

Por Odair Ferreira


[1] Cf. CAULY, Eugène Ernest. Curso de instrução religiosa. São Paulo: Livraria Francisco Alvez e Cia, 1914, v. 4. p. 30-32.

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