Última etapa da viagem à África: Papa Leão XIV chega à Guiné Equatorial
Em seu primeiro discurso na Guiné Equatorial, Leão XIV comentou sobre o poder e o desenvolvimento. “A exclusão é a nova face da injustiça social”, alertou o Papa, denunciando uma “economia da exclusão” e apontando os excessos de um sistema global onde coexistem a pobreza extrema e o acesso generalizado às ferramentas digitais.
Redação (21/04/2026 08:52, Gaudium Press) O Papa Leão XIV inicia nesta terça-feira, 21 de abril, a última etapa de sua viagem apostólica de 11 dias pelo continente africano. Às 11h31 do horário local, ele chegou no Aeroporto Internacional de Malabo, antiga capital de Guiné Equatorial, situada na costa norte da ilha de Bioko. A Guiné Equatorial é uma nação pequena, mas profundamente católica, onde a vitalidade da Igreja contrasta com profundas desigualdades sociais e um contexto político sob forte vigilância.
Esta visita encerra a jornada que o levou à Argélia, aos Camarões e a Angola. Ao longo da viagem apostólica, o Pontífice tem repetido apelos por justiça social, combate à corrupção e uma gestão mais equitativa dos recursos naturais — temas que encontram forte eco na Guiné Equatorial, país rico em petróleo, mas marcado por grandes disparidades.
Com uma população estimada em cerca de 1,6 milhão de habitantes (dados recentes indicam em torno de 1,67 milhão), dos quais mais de 40% têm menos de 15 anos, o país apresenta um dos maiores rendimentos per capita da África graças ao petróleo. No entanto, essa riqueza não se reflete na qualidade de vida da maioria da população: a expectativa de vida mal ultrapassa os 60 anos, revelando as fragilidades do sistema social e de saúde.
Desde 1979, a Guiné Equatorial é governada pelo presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, um dos mandatos mais longos do mundo. Seu regime enfrenta críticas recorrentes de organizações internacionais por questões relacionadas a liberdades públicas, corrupção e repressão à oposição, que frequentemente vive no exílio.
Uma Igreja viva em meio aos desafios
Nesse contexto, a Igreja Católica ocupa um lugar central na sociedade. O cristianismo representa mais de 95% da população, sendo cerca de 75% a 84% católicos. A Igreja estrutura grande parte da vida cultural e social do país, especialmente por meio de suas obras de educação, formação e assistência às populações mais vulneráveis.
Organizada em várias dioceses, a Igreja local conta com um bom número de sacerdotes diocesanos e religiosos, além de religiosas engajadas na educação e no cuidado pastoral. Apesar dos recursos limitados, ela atua como um importante pilar de apoio, sobretudo para os jovens, que formam a maior parte da população.
O Arquidiocese de Malabo, erigida como diocese em 1966 e elevada a arquidiocese em 1982, é o centro da vida eclesial do país. É frequentemente vista como um ponto de referência e esperança em um ambiente marcado por desigualdades e incertezas políticas.
Liberdade religiosa com limites e uma “Igreja a caminho”
Essa presença da Igreja se insere, contudo, em um quadro particular. Embora a Constituição garanta a liberdade religiosa, os responsáveis religiosos são convidados a não intervir nas questões políticas. Em alguns casos, as tomadas de posição públicas, inclusive as homilias, podem ser objeto de vigilância especial.
Apesar dessas limitações, a Igreja na Guiné Equatorial se apresenta como uma “Igreja a caminho”, impulsionada por um crescimento real e por uma juventude em busca de referências. A visita do Papa Leão XIV é percebida como um momento de graça, capaz de fortalecer a fé e dar um novo impulso a uma comunidade dinâmica.
Além da dimensão espiritual, a visita tem também um significado de unidade nacional. O país se divide entre uma região continental e várias ilhas, uma configuração que pode alimentar divisões. A presença do Papa surge, portanto, como um sinal de unidade e coesão.
Programa da visita
O acolhimento foi preparado com grande cuidado. Em Malabo, as ruas foram decoradas e um dispositivo organizacional preciso foi montado para acompanhar o cortejo pontifício, mobilizando diferentes setores da sociedade.
Após as reuniões oficiais desta terça-feira com as autoridades, o corpo diplomático e a sociedade civil, o Papa se deslocará na quarta-feira para Mongomo, reduto do presidente, e depois para Bata, a capital econômica, onde prestará homenagem às vítimas da explosão de 2021.
O ponto alto da visita será na quinta-feira, 23 de abril, às 10h45, com uma grande missa celebrada pelo Papa Leão XIV no estádio de Malabo. A celebração será transmitida ao vivo e deverá reunir uma multidão expressiva de fiéis, constituindo um momento forte para a Igreja local.
Quarenta e quatro anos depois da visita de São João Paulo II em 1982, esta nova vinda de um Papa ocorre em um contexto contrastado. Entre vitalidade religiosa e desafios sociais persistentes, a Guiné Equatorial se apresenta como um terreno onde a mensagem do Papa Leão XIV é particularmente aguardada.
Mensagem de esperança e justiça
Em seu primeiro discurso, Leão XIV destacou que a sua presença no país tinha como objetivo “confirmar-vos na fé e consolar o povo deste país que atravessa rápidas transformações”.
Em um país onde a fé católica é tão enraizada, a presença do Pontífice representa um forte estímulo para a Igreja local e um chamado à construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Com efeito, refletindo sobre Santo Agostinho de Hipona, particularmente sobre a distinção entre a “cidade de Deus” e a “cidade terrena”, o Papa descreveu a primeira como “caracterizada pelo amor incondicional de Deus” e a segunda como marcada pelo “amor orgulhoso a si mesmo… e pela sede de poder e glória mundana que leva à destruição”. Ele convidou os presentes a refletirem pessoal e politicamente sobre essa diferença, perguntando: “a qual cidade desejam servir?”.
Referindo-se, em seguida, ao projeto da Guiné Equatorial de construir uma nova capital, a Cidade da Paz, ele sugeriu que o próprio nome deveria suscitar uma reflexão ética. A vida política, enfatizou, não deve ser movida pela “busca de riquezas injustas e pela ilusão de domínio”, mas deve, ao contrário, estar orientada para o que é duradouro.
O Papa também destacou o papel da doutrina social da Igreja, que, segundo ele, oferece “critérios morais e princípios éticos autênticos”, respeitando “a autonomia das nações e de seus governos”. Ele enfatizou que cada geração enfrenta novos desafios, exigindo um discernimento renovado.
Passando então a questões globais mais contemporâneas, o Papa advertiu que “a exclusão é a nova face da injustiça social”. Ele destacou o abismo cada vez maior entre uma pequena minoria e a maioria e observou o paradoxo pelo qual “a falta de terra, alimento, moradia e trabalho digno coexiste com o acesso às novas tecnologias”, incluindo telefones celulares e inteligência artificial.
O Papa Leão exortou então os líderes políticos a “eliminar os obstáculos ao desenvolvimento humano integral”, com base na solidariedade e no destino universal dos bens. Ele manifestou especial preocupação com o impacto dos avanços tecnológicos e econômicos sobre os recursos naturais e alertou que a especulação corre o risco de ofuscar “a salvaguarda da criação, os direitos das comunidades locais, a dignidade do trabalho e a proteção da saúde pública”.
Ao encerrar seu discurso, o Papa Leão dirigiu-se à juventude e ao futuro do país, descrevendo a Guiné Equatorial como “um país jovem”, capaz de formar “consciências livres e responsáveis”. Ele encorajou os líderes a apoiarem uma “política contracorrente”, centrada no bem comum, e, por fim, apelou à “coragem de novas visões e a um pacto educacional que dê aos jovens espaço e confiança”.
Esta visita histórica coloca a Guiné Equatorial no centro das atenções mundiais e reforça o papel crescente da África no futuro da Igreja Católica, um continente jovem, dinâmico e de fé vibrante.





Deixe seu comentário