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Surdos para ouvir a verdade e mudos para glorificar a Deus

Nós, enquanto batizados, somos filhos de Deus e não meras criaturas, e por isso compete-nos o encargo de dar público testemunho da grandeza de nossa Religião e de Cristo Jesus.

Redação (06/09/2021 09:44, Gaudium Press) Ouvir a voz de Deus é tomar a atitude de Samuel: “Falai, Senhor; vosso servo escuta!”, ou a de São Paulo no caminho de Damasco, ou a de tantos outros.

Em sentido oposto, o pecador, devido à zoeira de suas paixões, acaba por tornar-se surdo aos apelos de Deus, chegando até mesmo a esquecer-se das mensagens sobrenaturais recebidas no passado.

O surdo de Deus

A surdez simboliza toda a insensibilidade da alma no seu relacionamento com o Criador. Inúmeros são os meios pelos quais Deus procura entrar em contato conosco.

Antes de tudo pela própria ordem da criação visível; em seguida, através dos fatos palpáveis e tangíveis produzidos pela providência natural e sobrenatural, sobre os quais o Livro da Sabedoria nos ensina maravilhosamente.

A Sabedoria, segundo declara a Escritura, “antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.”

Ou seja, Deus está continuamente nos chamando para participarmos de sua glória e felicidade eternas.

É mais sensível a Deus quem O ama intensamente, tal como encontramos ainda em São João: “Se alguém Me ama, guardará a minha palavra” (Jo 14, 23).

Infelizmente, a surdez espiritual é muito mais generalizada hoje em dia do que em outras épocas históricas. Inclusive entre os próprios batizados.

Recolhimento

Um incontável número de almas tem os ouvidos endurecidos à palavra de Deus, quer seja por falta de formação, quer pela pobreza da oração. Quantos são os ateus práticos que nunca rezam!

Entretanto, para receber alguma comunicação oriunda da eternidade, basta colocar-se em estado de contemplação.

Quem assim não procede, dificilmente discernirá, em meio à zoeira e às aflições do mundo moderno, a voz da graça. E é preciso não esquecermos o conselho da Escritura: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais vossos corações”.

O esfriamento de nossa vida de oração, o abandono da prática da religião vão dando rédeas soltas às nossas paixões desregradas, os maus hábitos invadem nossa inteligência e nossa vontade, a Lei de Deus acaba por tornar-se cada vez mais pesada, e, por fim, terminamos sendo surdos de Deus, e mudos para sua glória.

Será útil, e talvez até indispensável, nessas circunstâncias, tomar distância, recolher-se de alguma forma, para entregar-se nas mãos de Jesus e ser por Ele miraculado.

O mutismo espiritual

Santo Agostinho usa ao longo de suas obras, muitas vezes, a expressão “Surdos para ouvir a verdade e mudos para glorificar a Deus”. A metáfora é ainda mais aplicável ao nosso mundo hodierno.

Uma grande maioria das pessoas tem, na atualidade, os ouvidos abertos e sensíveis a quase tudo o que não seja de Deus: imoralidades, blasfêmias, ateísmo, escândalos, etc.; e muitas vezes fechados ou endurecidos para os avisos, exemplos e conselhos rumo à santidade.

E o que pensar do uso da língua? Não poucas vezes consiste em proferir pecados, iniquidades, blasfêmias, difamações, calúnias, mentiras, etc., quando na realidade recebemos de Deus o dom da fala para proclamar sua grandeza, honra e glória!

A humanidade se encontra mais surda e mais muda do que todos os estropiados de fala e audição existentes nos dias da vida pública de Nosso Senhor.

Quão necessária é a intercessão de Maria para obter de Jesus o retorno da audição e da expressividade dos áureos tempos da História, nos quais os homens cantavam as glórias de Deus não só pelas palavras, gestos e atitudes, mas também através de melodias e de todas as artes!

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP.

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho, setembro 2003.

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