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Solenidade de São Pedro e São Paulo: as chaves e a espada

Poderia haver objetos mais opostos entre si? Contudo, quando estes objetos se unem ao primeiro Vigário de Cristo e ao Apóstolo por excelência são impregnados por uma grandeza harmônica e um mistério sagrado que apenas o símbolo é capaz de transmitir.

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Redação (27/06/2026 15:29, Gaudium Press) Talvez uma alma sem pressupostos poderia se assustar ao ver nas fachadas das Igrejas, nos vitrais e nas imagens, representações de homens empunhando instrumentos como espadas, machados, serras, martelos, etc.; sobretudo em um local destinado ao culto a Deus. Que relação há entre estes objetos e as pessoas que os portam? E que relação há entre estas pessoas com o culto a Deus? A solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo oferece-nos uma ocasião propícia para responder a esta pergunta.

 

O que matou a minha morte

É antigo o costume, inclusive no âmbito doméstico, de guardar um objeto que marcou profundamente a vida de alguém. Este se reveste de um valor simbólico muito superior ao objeto em si, sendo, em muitas ocasiões, impossível explicitar totalmente o seu significado pelas palavras.

As Sagradas Escrituras nos dão um exemplo eloquente: quando Davi, fugindo de Saul que o queria matar, entrou na casa do Sacerdote Abimelec e tomou a espada com a qual tinha matado Golias, guardada atrás do efod (Cf. 1Sm 21,8-9). A espada não estava guardada pelo seu valor material, mas por ter sido com ela que o Senhor começara a manifestar a sua benção sobre o futuro Rei Davi.

Algo semelhante ocorre com a iconografia católica. Após séculos de tradição, os santos são representados da mesma forma: aqueles que derramaram seu sangue defendendo o nome de Nosso Senhor portam gloriosamente as palmas do martírio; os que morreram em ilibada virgindade sustentam em suas mãos os fulgurantes lírios da pureza. Ambos objetos simbolizam a vitória sobre o mundo e a carne, e o penhor de contemplar a Deus face a face.

Não é por um motivo diferente que os Apóstolos são representados com espadas, machados, serras, porretes ou cruzes. São os instrumentos pelos quais alcançaram o Reino dos Céus.

Na terra, tais objetos carregam o peso do crime, da ignomínia e do pecado de ter matado um príncipe da Igreja, porém, no Céu, estes se revestem de luz, de glória e são dignos de se apresentar no mais alto das catedrais. Portados por quem? Por aqueles a quem, na terra, causaram tanta dor, e no Céu tanta alegria. Com eles triunfaram sobre o demônio, feriram o poder deste mundo e mataram a morte.

A espada de Paulo e as chaves de Pedro

No dia de hoje, particularmente, a Santa Igreja celebra a solenidade de dois apóstolos: São Pedro e São Paulo, um portanto as chaves e outro a espada.

Que objetos paradoxais! Quanta diferença entre uma chave e uma espada! Porém, quanta harmonia quando estes objetos se unem ao Vigário de Cristo e ao Apóstolo por excelência.

Carregada de símbolos, a espada de São Paulo brande as glórias deste soldado de Cristo que, sem temer o derramamento de seu próprio sangue, combatia o bom combate da vida, pregando até aos principados e potestades uma doutrina nova, dotada de potência. O Apóstolo também teve a glória de morrer pela mais excelente das armas, e com isso, a honra de portá-la por toda a eternidade, indicando ser próprio a um soldado fiel à sua vocação.

Contudo, enquanto os demais apóstolos são apresentados com o instrumento pelo qual consumaram o seu holocausto, por que São Pedro é figurado com as chaves? Não seria mais apropriado mostrá-lo com uma cruz ao inverso?

O primeiro motivo pelo qual São Pedro é assim disposto decorre da máxima missão que o Senhor lhe confiou: ser o Pontífice Supremo de sua Igreja. “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Porém, será que as chaves que Nosso Senhor lhe destinou não poderiam ser entendidas também como o instrumento de seu martírio?

Muito provavelmente, sim, pois quão exigente é a missão de ser a Pedra que alicerça a Igreja de Nosso Senhor! Quanta abnegação, quanta renúncia de si próprio, quanta fidelidade ao chamado! Quanto teve ele de enfrentar a estrutura farisaica armada contra os que seguem o Cordeiro! Provavelmente, para o príncipe dos apóstolos, aquelas chaves significavam um martírio diário, uma paixão incruenta, uma cruz que se deve oscular e estar disposto a levá-la até o mais alto do Gólgota, se necessário.

E assim o fez.

Quando as duas chaves se uniram às duas hastes da cruz, o Céu estava pronto para acolher aquele que sempre correu atrás da ovelha tresmalhada e enfrentou os lobos vorazes que ameaçavam o rebanho de Cristo.

Por Lucas Cremasco

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