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Sapos e Morcegos, Príncipes e Donzelas

Por que os casais se separam? O divórcio, condenado por Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf Lc 16,18), vem crescendo em proporções assustadoras desde o início da pandemia. Para entender o problema, é preciso conhecer suas causas mais profundas.

Redação (27/06/2020 06:00, Gaudium Press) No início da pandemia do coronavírus, houve quem quisesse incriminar os morcegos pela propagação da doença. A bem dizer, não propriamente eles, mas sim quem os comia. Circularam, na época, assustadoras fotografias de “sopas de morcegos”, que, segundo alguns, teriam sido os veículos de transmissão do vírus aos primeiros seres humanos. Tese difícil de sustentar…

Com o passar do tempo, surgiram novas teorias mais verossímeis, contudo, nenhuma irrefutável. De qualquer forma, acabou-se por relacionar (inconscientemente, talvez) os pobres morcegos com a Covid-19… Entretanto, não é dessa discussão que tratarei neste artigo.

Há alguns dias, deparei-me com tema –aliás, muito mais preocupante,– que vem se alastrando em proporções avassaladoras: o divórcio.

Com efeito, as estatísticas demonstram que, entre abril e maio deste ano, o número de pesquisas de como dar entrada em divórcios aumentou em 127%. As mesmas pesquisas, se comparadas com as estatísticas de maio e junho do ano passado, apontam um aumento de 234%. E o número de divórcios efetivos, em relação aos existentes no mesmo período do ano passado, aumentou em 75%.

Estamos diante de uma “epidemia”, é evidente. Trata-se, agora, de estudar suas causas e procurar sua cura.

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Quem não ouviu, quando criança, narrações de príncipes e princesas encantados.

Em geral, são histórias protagonizadas por dois lindos jovens, duas “almas gêmeas” que esperam um dia encontrar seu par. Vivem na torcida e no delírio de um afeto plenamente correspondido. Por fim, os dois se encontram, apaixonam-se perdidamente, e lutam contra dragões, enfrentam bruxas, beijam sapos, enfim, empreendem mil epopeias para, finalmente, se unirem. O curioso é que a história sempre para por aí, na lua de mel…

Apesar de tudo isso pertencer a um mundo de ficção, algo dessa mentalidade impregna o homem contemporâneo. O amor é procurado com o mesmo sentimentalismo adocicado, repleto de anelos vagos, incompreensões, sobressaltos, crises, ânsias de felicidade afetiva infinita e a mesma e crônica precariedade de todas estas “felicidades”;. Finalmente, os cônjuges se casam. O problema é que, na vida real, a história não termina na lua de mel…

Aí está o âmago da questão: quando o matrimônio é baseado nesse sentimentalismo romântico, a estabilidade do convívio conjugal depende do quanto os cônjuges estão dispostos a suportar mutuamente.

Visto que o romantismo é essencialmente frívolo, supõe as maiores virtudes na “heroína”; ou no “herói”. Porém, estas virtudes pesam muito pouco na balança como fator de sobrevivência do afeto recíproco. Com efeito, o sentimentalismo perdoa geralmente, sem grande dificuldade, defeitos morais reais, ingratidões, injustiças e até traições. Mas ele não perdoa trivialidades. Como por exemplo, os prosaísmos do dia a dia: um modo de ressonar à noite, de usar a pasta de dentes pode matar inapelavelmente um sentimento romântico… que resistiria às mais graves razões de queixa.

Por isto, já se tornou corriqueiro falar das desilusões que vêm depois da lua de mel. “Passado este período”, comentou, certa vez, alguém, “minha esposa não me deu nenhuma decepção, mas me encheu de desilusões”.

E como o romantismo, por essência e por definição, é todo feito de ilusões, de afetos descontrolados e hipotéticos – por pessoas que só seriam possíveis no mundo das quimeras, a consequência é que, em pouco tempo, os sentimentos, que eram a única base psicológica da estabilidade do convívio conjugal, se desfazem.

Naturalmente, uma pessoa nestas condições não chega ao cerne do problema, não percebe o que há de substancialmente irrealizável em seus anelos, e julga pura e simplesmente que se enganou. Entende ela, pois, que ainda pode encontrar em outrem a felicidade que o casamento não lhe deu. Habituada a viver única e exclusivamente para a própria felicidade e a vê-la realizada puramente na satisfação dos devaneios sentimentais, tal pessoa julgará sua vida irremediavelmente arruinada, se não empregar outro meio para atingir esse objetivo. E acreditará, igualmente, arruinada a vida dos que tiverem caído no mesmo “equívoco”. De onde o divórcio lhe parecerá absolutamente tão necessário quanto o ar, o pão ou a água.

Em última análise, o romantismo é apenas egoísmo. O romântico não procura senão sua própria felicidade, e só concebe o amor na medida em que o “outro”; seja instrumento adequado a torná-lo feliz. E sobre o egoísmo nada se constrói… muito menos a família.

É falso imaginar que os verdadeiros esposos cristãos são os heróis de romance que, por uma feliz coincidência, conseguiram fazer um casamento autêntico, como passo preliminar para a satisfação de suas paixões, mas que levam para o tálamo conjugal o mesmo estado de espírito, o mesmo egoísmo, a mesma imortificação de qualquer amor de aventura. 1

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Discorremos, no início deste artigo, a respeito do coronavírus. Pois bem, com seu advento, as famílias viram-se obrigadas a “aprisionar-se” em casa, e o convívio entre os esposos extrapolou de longe os limites que o regime de vida contemporâneo permitia. Com essa “aproximação forçada”, a realidade ficou mais evidente, as ilusões começaram a desfazer-se, e a “doença dos morcegos” acabou por transformar os “príncipes” e as “donzelas” em sapos…

Por Oto Pereira

1 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Divórcio e Romantismo. Catolicismo, n. 10, out. 1951]

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