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São Policarpo, o campeão da ortodoxia

A Igreja, personificada em seus fiéis pastores, possui a promessa da imortalidade e, não obstante os erros do paganismo hodierno – infelizmente bem firmados nas tendências, fortemente guarnecidos pelas ideias e mais que patentes nos fatos – anseiem por destruí-la ou ao menos ocultá-la e deformá-la, jamais conseguirão.

Redação (23/02/2021 16:30, Gaudium Press) Tendo nascido do sagrado flanco do Salvador, a Igreja passou, sine mora, a deitar raízes por toda a face da terra, impulsionada pelo Espírito Santo e por aquela voz que ainda ecoava em seu interior: “Ide por todo mundo e a todos pregai o evangelho.” (Mc 16, 15-16).

Proclamava, assim, aos gentios uma nova forma de vida pela qual seriam mais plenamente resgatados das trevas do paganismo. Era um modus vivendi todo santo e irrepreensível, que brotava da alma transformada, pela graça, em imagem e templo de Cristo.

Eis o que é belamente descrito na Carta a Diogneto sobre a vida dos cristãos do século segundo: “Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio”.

E mais adiante: “São de carne, porém, não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas sua cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão a vida. São pobres, mas enriquecem a muitos; tudo lhes falta e vivem na abundância. São desprezados, mas no meio de opróbrios enchem-se de glória; são caluniados, mas transparece o testemunho da justiça. Amaldiçoam-nos e eles abençoam. Sofrem afrontas e pagam com honras. Praticam o bem e são castigados com malfeitores; ao serem punidos, alegram-se como se lhes dessem a vida…”.

Um dos maiores expoentes do Cristianismo nestes primeiros tempos, foi, sem dúvida, o santo prelado hoje comemorado pela Santa Igreja.

Discípulo de São João, elo entre duas eras

No ano de 67 foram martirizados São Pedro e São Paulo; São João Evangelista ainda viveria até o reinado de Trajano (98-117). No ano de 69 nascia São Policarpo — portanto, no ambiente de efervescência evangelizadora das primeiras décadas da Igreja Católica. Diversos documentos dessa época — incluindo uma carta por ele enviada aos cristãos de Filipos — constituem preciosa fonte de informação sobre sua vida, bem ilustrativa do Cristianismo de então.

Teve a ventura de ser discípulo de São João Evangelista e de conhecer muitos outros “que viram o Senhor”, e é considerado uma das principais figuras entre aqueles varões eminentes que constituíram um elo entre o tempo dos Apóstolos, no primeiro século, e o dos Padres da Igreja, no século seguinte.

Fundado em Deus como numa rocha inamovível

O próprio São João Evangelista o nomeou Bispo de Esmirna, cidade grega situada no litoral da Ásia Menor (hoje Izmir, na Turquia). Era amigo pessoal do grande Santo Inácio de Antioquia, o qual, por sua vez, fora discípulo de São Paulo Apóstolo. Um sinal inequívoco do virtuoso relacionamento entre esses dois santos são suas cartas. O tempo poupou sete das muitas epístolas escritas por Santo Inácio; numa delas, faz a São Policarpo esta admirativa referência: “Sua consciência está fundada em Deus como em uma rocha inamovível!” De quantos homens poder-se-ia escrever o mesmo?

Quando Santo Inácio foi capturado pela polícia imperial, Policarpo encontrou-o no caminho do martírio, para beijar-lhe pela última vez as mãos e as cadeias. Nessa ocasião, o venerável Bispo de Antioquia rogou-lhe que ajudasse a proteger os fiéis das jovens igrejas, escrevendo cartas de exortação àquelas às quais ele não pôde fazê-lo antes de ser preso.

Uma dessas cartas, escrita na primeira década do séc. II, sobreviveu ao curso dos tempos e é um dos mais valiosos documentos da Igreja antiga. São Jerônimo a considerava uma obra-prima de zelo apostólico, dizendo que dois séculos depois ela ainda continuava a ser lida publicamente nas igrejas. Quando das discussões a respeito da canonicidade ou não de certas epístolas de São Paulo, um argumento de peso a seu favor foi a mencionada carta do santo Bispo de Esmirna, que já citava as epístolas paulinas postas em questão.

Paladino da fé

Policarpo esteve no centro das pelejas teológicas dos séculos I e II. Qual joio em meio ao trigo, as mais virulentas heresias começaram a difundir-se por essa época, ameaçando a unidade do rebanho de Cristo. O vigor do santo em defender a verdade valeu-lhe o título de “campeão da ortodoxia”.

Como seu mestre João Evangelista, sabia ser truculento contra os que ameaçavam a fé do povo simples. Em certa ocasião, cruzou seu caminho Marcião, chefe de uma corrente herética que causava grandes malefícios à Igreja. O Bispo de Esmirna preferiu não lhe dirigir a palavra; o orgulhoso homem, porém, não admitia que alguém o ignorasse, e o interpelou:

Como então, não me conheces?

Não sabes quem sou?

Sim, sei. És o filho primogênito de Satanás! — retrucou o santo.

Entretanto, no trato com os verdadeiros filhos de Cristo ele se mostrava suave e diplomático.

Como até então as Igrejas da Ásia diferiam das outras quanto à data de celebração da Páscoa, São Policarpo viajou a Roma, no intuito de dirimir essa dúvida com o Papa Santo Aniceto. Hoje nos parecem pouco importantes problemas como esse, mas naquele período não era difícil algum deles servir de estopim para a explosão de movimentos heréticos.

Nos debates a respeito da questão, nem o Papa conseguiu convencer o Bispo de Esmirna, nem este àquele. No entanto, a virtude que unia os dois homens de Deus transpôs as barreiras teológicas. Concordaram em que cada Igreja conservaria seus próprios costumes no tocante à data da festa, e continuariam unidas na caridade. Para demonstrar seu apreço por São Policarpo, Santo Aniceto lhe pediu que celebrassem juntos a Eucaristia em Roma.

À figura do grande bispo iria se acrescentar, em breve, a última e talvez mais bela faceta: a do martírio.

A perseguição

Próximo ao ano 154, desatou-se uma feroz perseguição contra o Cristianismo na Ásia Menor. Não satisfeitos em tirar a vida aos cristãos de Esmirna, os verdugos empenhavam-se de modo especial nos esforços para prender o seu bispo. Em vão, pois este havia sido persuadido a deixar a cidade durante algum tempo. Conseguiram, porém, capturar dois meninos que conheciam o lugar onde ele se encontrava e os torturaram com tanta crueldade que um deles o revelou.

Como manso cordeiro, se entrega aos perseguidores

Era a tarde de sexta-feira antes da Páscoa, quando uma patrulha a cavalo chegou à casa de campo onde o venerável ancião estava abrigado. Vendo-a, os cristãos que ali se encontravam instaram-no com veemência a escapar. Ele poderia tê-lo feito com facilidade, mas se recusou, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus”.

Sua surpreendente atitude tinha uma razão sobrenatural: três dias antes, enquanto rezava, Policarpo tivera uma visão na qual lhe aparecia, ardendo em chamas, a almofada sobre a qual costumava repousar a cabeça. Compreendeu que se tratava de uma visão profética e disse àqueles que o acompanhavam: “Isso deve significar que vou ser queimado vivo…”

Assim, quando seus captores penetraram na propriedade, ele lhes foi ao encontro com uma serenidade que os perturbou, pois esperavam uma fuga ou uma reação violenta. Cercado por homens armados, Policarpo permaneceu calmo e impassível. A força de sua santidade impunha respeito a todos e o fazia senhor da situação. Convidou os policiais a participar da refeição que era servida àquela hora. Estes se entreolharam, atônitos e inseguros, mas acabaram aceitando o convite. No final, o impávido bispo declarou-lhes que, antes de partir, ficaria um certo tempo rezando, durante o qual pedia para não ser interrompido. Impressionados por sua sobrenatural segurança, eles não ousaram se opor a esse desejo.

Policarpo afastou-se um tanto e por duas horas permaneceu em oração. Quem o imagina curvado e em cabisbaixo silêncio, se engana. Esse homem, cujo ânimo não foi esmorecido pelos anos, dirigia-se aos Céus falando em voz alta, com graça e eloquência. Recomendava seu rebanho a Deus e pedia pela Igreja Católica no mundo inteiro. Todos à sua volta o contemplavam no mais completo silêncio, tanto os batizados quanto os perplexos pagãos.

Finda sua prece, o venerável ancião mansamente se entregou a seus captores. Não sem remorsos, e bastante embaraçados, eles o conduziram num burrico ao estádio da cidade, onde seria julgado.

Diante do tribunal romano

Ao se aproximarem do terrível local, de fora já se ouviam os brados e impropérios da feroz multidão de pagãos que lá se encontrava aguardando com impaciência o início de mais uma sessão de sangrentos espetáculos. Quando nosso santo ali entrava, do alto do céu uma poderosa voz se fez ouvir:

Sê forte, Policarpo, e age como um homem!

Essa misteriosa voz foi ouvida somente pelos cristãos que ali se encontravam, dissimulados, na expectativa de recolher as preciosas relíquias do bispo mártir.

Levado à presença do procônsul, este o ameaçou com o terrível suplício da morte pelo fogo e o instou a abjurar a fé em Cristo, para salvar sua vida. Ao que ele respondeu:

Tu me ameaças com o fogo que queima por um curto tempo e logo se extingue. Mas nada sabes sobre o fogo eterno e a punição sem fim que aguarda os maus…

A todas as perguntas, o santo replicava com força e coragem, não permitindo que ninguém pudesse mostrar-se indiferente em sua presença. Ao escrever tempos depois sobre esse episódio, Santo Irineu — seu discípulo — elogiou a distinção e serenidade de seu mestre diante das ameaças de morte. Era justamente isso que mais enfurecia seus inimigos.

O suplício do fogo

Entre gritos, a multidão exaltada preparou com impressionante rapidez uma fogueira. Policarpo desatou seu cinto e retirou seu manto, com a nobreza e elevação que lhe eram próprias. Alguns verdugos preparavam- se para pregá-lo numa estaca, mas ele os interrompeu:

Deixem-me como estou. O Senhor, que me deu poder para enfrentar o fogo, me ajudará a permanecer nas chamas sem mover-me, não é preciso pregar-me por
cravos.

Os cristãos de Esmirna que presenciaram seu martírio escreveram depois um detalhado relato, numa carta circular às Igrejas da região do Ponto. Trata-se de um dos mais famosos documentos autênticos daqueles tempos de perseguição. “Então — narram eles — Policarpo pôs suas mãos para trás e foi atado, como se fora um nobre cordeiro pronto para o sacrifício. Ele tornou-se uma vítima a ser queimada, uma oferta a Deus, de agradável odor”.

Voltando os olhos para o céu, o bispo mártir fez uma oração em alta voz. Logo após seu “amém”, os verdugos atearam o fogo. E os fiéis de Esmirna assim continuam o mencionado relato: “Nós, a quem foi dado o privilégio de testemunhar tudo isso, vimos um grande milagre: o fogo tomou a forma de um grande arco, inflado pelo vento como se fora uma vela de navio, denso como uma muralha, e em seguida envolveu o corpo do mártir, mas sem tocá-lo. Policarpo permaneceu dentro das chamas, não como carne queimada, mas como o pão sendo assado para uma oferta, ou como o ouro sendo refinado. E todos nós sentimos um fragrante aroma, como o do incenso ou das preciosas especiarias.

“Vendo que o corpo não era consumido pelo fogo, aqueles homens cruéis ordenaram a um carrasco transpassar Policarpo com um gládio. Quando ele o fez, saiu da chaga uma pomba e jorrou uma tal abundância de sangue que apagou o fogo.

“Esse admirabilíssimo mártir foi seguramente um dos eleitos de Deus. Policarpo, mestre apostólico e profético guia de nosso tempo, santo bispo da Igreja Católica em Esmirna.”

Formado por São João Evangelista, São Policarpo, por sua vez, deixou um discípulo de grande estatura espiritual, Santo Irineu de Lyon. Também este, fiel ao carisma e aos exemplos de virtude dados por seu mestre, empenhou-se em formar sucessores que tivessem o mesmo espírito e transmitissem essa preciosa herança de santidade, cuja raiz é o próprio Jesus Cristo Nosso Senhor.

Que a figura deste santo nos sirva de alento em meio a tantos problemas e dificuldades pelos quais passa a nossa Mãe: a Santa Igreja Católica.

Ela, personificada em seus fiéis pastores, possui a promessa da imortalidade e, não obstante os erros do paganismo hodierno – infelizmente bem firmados nas tendências, fortemente guarnecidos pelas ideias e mais que patentes nos fatos – anseiem por destruí-la ou ao menos ocultá-la e deformá-la, jamais conseguirão. A sua rocha firme é o próprio Deus que sempre prepara férteis terrenos onde a tal promessa pode seguramente repousar e frutificar, levando, assim, a diante seus eternos e altíssimos desígnios… “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas”(Ap 2, 11-12).

Por João Pedro Braunn

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