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São Pedro, o príncipe dos Apóstolos convertido por Maria

Muitas vezes no deparamos com a pungente narrativa da conversão de São Pedro. Quais são, entretanto, as entrelinhas de tão grandioso fato?

Redação (29/06/2022 09:30, Gaudium Press) As trevas cobriam o firmamento, era noite em toda humanidade. A natureza gemia em luto pelo mais horrendo dos crimes, o deicídio. Na cidade santa, o silêncio parecia falar. Há pouco, muitos dos mortos haviam aparecido para increpar os habitantes de Jerusalém por tamanha infâmia cometida.

Naquela mesma noite de sexta-feira, uma nobre Dama rezava e meditava em tudo o que havia acontecido e um virginal jovem dormia um sono, pesado pela lembrança dos fatos mas ao mesmo tempo leve e tranquilo por sentir-se junto d’Aquela que agora era, mais do nunca, sua Mãe. Eram Nossa Senhora e São João Evangelista. Nas primeiras vigílias da noite haviam passado todas as horas em meio às considerações de todo o augusto e pungente fato que se passara. Jesus havia de fato morrido, mas com sua morte havia destruído o poder das trevas e aberto, para nós, homens, as portas do Paraíso fechadas por nossos primeiros pais. A história de nossa Redenção estava para atingir seu apogeu dentro em breve. Tão somente três dias e nosso Salvador ressuscitaria!

É neste contexto que se dá a conversão do Príncipe dos Apóstolos, São Pedro. Assim se expressa Mons. João Scognamiglio Clá Dias em sua obra Maria Santíssima! O Paraíso de Deus revelado aos homens:

Zelosa Mãe de Misericórdia

Na última vigília da noite, algo como um sussurro acordou São João e o impeliu a dirigir-se cuidadosamente à porta de entrada da casa. As trevas densas da madrugada ainda cobriam aquela Jerusalém criminosa, da qual o Divino Mestre dissera: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os enviados de Deus, quantas vezes quis ajuntar os teus filhos, como a galinha abriga a sua ninhada debaixo das asas, mas não o quiseste!” (Lc 13,34). À cidade deicida era concedido como prêmio o Sangue de seu Senhor, e sua infidelidade levava o Apóstolo a desejar sair pelas praças bradando como um profeta: “Tu receberás a paga do teu pecado!”

Retornando ao cômodo onde repousara, viu, porém, uma Estrela que fendia a escuridão. A Luz de Jerusalém – não a desta terra, mas a descida do Céu – brilhava como um sol radiante, um cristal puríssimo, um adorno de ouro moldado por Deus, aguardando o despontar do dia glorioso da Ressurreição. Era Maria, sua Mãe, que rezava. Nossa Senhora ansiava por encontrar-Se com cada um dos Apóstolos e discípulos de Jesus para inundá-los com seu perdão, mas nenhum deles tinha coragem de desafiar as trevas das ruas de Jerusalém, impregnadas do pecado de deicídio, e tampouco de enfrentar a própria vergonha por haver abandonado o Divino Mestre.

Ávida por reconquistar os que, a justo título, considerava como filhos tanto quanto São João, Ela tomou a iniciativa de visitá-los misticamente a fim de confortar seus corações vencidos pelo medo. Naquela noite todos sentiram sua presença santíssima a infundir-lhes um profundo arrependimento. Este lhes deu ânimo para não desesperarem na dramática situação em que estavam e os preparou para buscarem seu perdão. Amante exímia da hierarquia, a Mãe de Misericórdia procurava, com seu zelo materno, sobretudo aquele que Jesus havia instituído como seu Vigário e Chefe da Igreja nascente: Simão Pedro, o qual chorava amargamente por, dominado pelo respeito humano, ter negado três vezes seu Mestre.

Contemplando aquela Luz que brilhava ante seus olhos, São João discernia a imagem perfeita do Filho de Deus gravada no Coração de sua Senhora. Ali estava o único Templo vivo e verdadeiro, e ao seu lado perseverava apenas o filho a quem Ela mais amava e cuja firme disposição consistia em velar junto à Cruz que ainda se achava de pé na alma de Maria. Notando sua presença, a Santíssima Virgem chamou São João novamente para junto de Si pois, para mitigar as saudades que Lhe apertavam o Coração materno, desejava contar-lhe diversos episódios da infância do Menino Jesus que simbolizavam ou se relacionavam com os acontecimentos testemunhados durante a Paixão.

Logo as trevas da Jerusalém criminosa começariam a se dissipar, afugentadas pelos albores do sábado que não tardaria em raiar.

Um olhar “sacramental”

Durante a conversa soaram batidas à entrada da casa, quebrando o silêncio daquele fim de noite. Era Simão Pedro, que desejava encontrar-se com Nossa Senhora. Assim que a porta lhe foi aberta, o galo cantou anunciando sua chegada e ele aumentou a intensidade de seu amargo pranto… Com franqueza apostólica e grande afeto fraterno, lembrou-lhe São João:

— “Senhor, darei minha vida por Ti!”… Chora agora, Pedro, pois Aquele que te salvou das águas não está mais aqui para te resgatar. Chora agora por Aquele que lavou teus pés, limpando teus pecados.

O Discípulo Amado percebia que o fato de o Príncipe dos Apóstolos se apresentar para confessar sua traição significava que, por fim, soubera reconhecer sua fraqueza e buscar na escuridão a única Luz que permanecia acesa.

Como conseguira ânimo para procurar Nossa Senhora naquela mesma noite? Forças para seguir os passos do Divino Mestre ele não tivera; coragem, muito menos. Entretanto, enquanto o Filho de Deus sofria as cruéis dores da Paixão, Pedro acompanhava de longe seus tormentos, pois o olhar recebido de Jesus se havia gravado indelevelmente em sua alma. Na ocasião ele ouviu uma voz interior a lhe dizer: “Para onde Me levam agora, também levarão a minha Igreja, da qual Eu te constituí Chefe”. Sem alento para responder ao convite de se unir ao holocausto redentor, encontrou refúgio nas lágrimas, a ponto de compreender que só a Santíssima Virgem seria capaz de contê-las. O único meio de fortalecer a Igreja nascente, que assistira à Morte de seu Deus, era seguir Maria, não à distância como fizera com o Cordeiro Imolado, mas bem próximo de seu Coração Misericordioso. A consciência, porém, pesava ao primeiro Papa além de toda medida devido à sua falta… Somente as orações da Advogada dos pecadores lograram atraí-lo.

Bastou, portanto, conduzi-lo até a Mãe de Jesus… Ela se levantou muito consolada, olhou para Pedro cheia de maternal afeto e logo arrombou as portas de seu duro coração. Enquanto as lágrimas lhe purificavam a alma, algo semelhante a uma luz saía de Nossa Senhora e encontrava no interior dele um lugar para o perdão. O Apóstolo caiu com o rosto em terra e, no mesmo instante, o galo cantou outra vez, levando-o a gemer com mais veemência. Sem dizer uma palavra, o olhar da Celeste Senhora fez o Verbo de Deus voltar a reinar sobre aquela rocha.

O olhar de Maria apresenta, portanto, uma nota sacramental e divina, que nos impele a cogitar sobre uma série de maravilhas de sua alma. Nosso Senhor havia perdoado São Pedro quando ambos se cruzaram no Pretório; todavia, algo daquele indulto como que precisava ser completado por sua Mãe. Quando o Apóstolo A procurou, Ela nada lhe disse, apenas o olhou. Isso foi suficiente para reavivar em sua alma pecadora a graça do Papado e convertê-lo, com uma força que santifica, perdoa, restaura, corrige, eleva… Afinal, quem poderia descrever todos os efeitos de um olhar da Mãe de Deus? A Luz que aterroriza os infernos, fortifica os sábios e confirma os justos fez resplandecer na alma de Pedro o sinal da vitória prometida por Jesus: “Eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 32).

Nossa Senhora então lembrou-lhe:

— Meu filho, recordas quando estiveste no Templo na tua juventude, indeciso quanto ao teu futuro e temeroso por tua salvação? Eu rezei por ti já naquele momento, sem sequer conhecer-te. Pensas que agora vou te abandonar?

Essas palavras, transbordantes de afeto e saídas de um Coração transpassado pela espada da dor, infundiram indizível paz na alma de Pedro. Ao contrário do infame Judas Iscariotes, que se enforcou chafurdado na lama da traição e de seu obstinado orgulho, ele experimentou o insondável abismo de amor que abrasava o Coração de Maria. E compreendeu que em qualquer situação da vida, fosse bom ou ruim o estado de sua alma, sempre encontraria ali um oceano de misericórdia, bondade e carinho, desde que a Ela recorresse com espírito contrito e humilhado. Um vínculo inquebrantável se formou entre a Mãe da Igreja e sua Pedra fundamental, pelo qual se consolidava a promessa do Divino Redentor: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).

Aos poucos as lágrimas de Simão cessaram, a luz voltou a brilhar em sua alma, e o perdão firmou no pescador de homens um trono de esperança, enchendo-o de coragem para aguardar o retorno do Mestre. Num curto espaço de tempo, a Imortal Senhora trancou para sempre seu Jesus no coração de Pedro. Por sua vez, o arrependimento sincero do primeiro Papa significou um lenitivo para as dores de Maria.

Foi por esta ação maternal da Medianeira de todas as Graças que hoje podemos celebrar no mundo inteiro a solenidade de tão grande santo! O que seria da frágil embarcação de Pedro se o “capitão” não tivesse esta esplêndida Estrela para o guiar em meio as borrascas e tempestades de sua própria vida espiritual? Rezemos por aqueles que hoje governam a Nau de Pedro! Oxalá saibam também olhar para Maria e cumprir sua vontade.

Por Jean Pedro Antunes 

Trecho extraído, com adaptações, da obra: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Maria Santíssima! O paraíso de Deus revelado aos homens: Os Mistérios da vida de Maria: uma esteira de luz, dor e glória. São Paulo: Arautos do Evangelho, 2020, v.2, p. 500-505.

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