Gaudium news > São Pedro e São Paulo: amor e arrojo unidos no mesmo Senhor

São Pedro e São Paulo: amor e arrojo unidos no mesmo Senhor

A Solenidade dos Príncipes da Igreja, já celebrada pelos cristãos desde os primeiros séculos, percorre a História e se destaca na Liturgia de hoje. Por que a Igreja uniu estes dois santos numa só festa?

Redação (28/06/2020 08:51, Gaudium Press) Cornélio e Cipriano; Cosme e Damião; Perpétua e Felicidade… todos unidos na História e na Liturgia – também certamente no Céu – pela incomparável coroa do Martírio. E assim os exemplos se multiplicam numa feeria de luzes que cintilam entre o “luminoso exército dos santos mártires”.

Mas não é só o derramamento de sangue por Cristo que une os bem-aventurados. A santa e vigorosa e amizade entre São Basílio e São Gregório Nazianzeno do mesmo modo lhes valeu a comemoração numa mesma liturgia; e a fidelidade ao Papa em tempos calamitosos uniu os irmãos Cirilo e Metódio por vínculos bem mais elevados que os consanguíneos.

E qual é a razão de, numa só solenidade, celebrarmos o Príncipe da Igreja e o Apóstolo das Gentes? Ora, se fosse pelo martírio, pela amizade ou fidelidade, a maioria dos apóstolos teria suas festas certamente reduzidas a um só dia.

Conhecer alguns traços de suas biografias é indispensável para podermos entender as razões que levaram a Igreja, desde o tempo das catacumbas, a unir numa memória estes gigantes da Fé.

Pedro: de pescador a Príncipe da Igreja

A vida seguia seu curso habitual para o pescador de Cafarnaum. Seguindo a profissão herdada de seu pai, Simão – homem maduro – não podia imaginar que rumos sua tão normal existência tomaria depois daquele memorável encontro.

– Tu és Simão, filho de Jonas. Serás chamado “Kepha” (que significa “rocha”, em latim, “Petrus”, em português, “Pedro”).

Como terão repercutido tais palavras no interior deste rude pescador? Talvez a ele a mudança de nome tenha sido menos impactante que a transformação interior ali iniciada, diante daquele formidável homem de trinta anos que moveu sua vontade e seu afeto mais que qualquer outra pessoa até então.

Mas foi algum tempo depois, enquanto Simão e seu irmão André lançavam as redes ao mar, que se deu o chamado definitivo: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Imediatamente, abandonando as redes, eles o seguiram.” (Mt 4, 19-20)

Pedro descobriu, pois, que sua vida começou de fato a partir deste momento.

O milagre das Bodas de Caná, as curas e inclusive ressurreições operadas pelo Mestre não faziam senão fortalecer na alma deste apóstolo a certeza de estar no caminho certo. Com o passar do tempo, uma verdadeira rocha de enlevo e fidelidade a Jesus, se fixa no coração de Pedro.

É a ele, Pedro, que o Mestre, caminhando sobre as águas, salva do iminente perigo e repreende: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” É, pois, a Pedro que o Divino Mestre declara em Cesareia de Filipe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na Terra, será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra, será desligado nos Céus” (Mt 16,18-19) Jesus o coloca, assim, como vigário da Igreja e supremo pastor de seu rebanho na Terra.

Muitos são os fatos narrados sobre o Príncipe dos Apóstolos no Evangelho, e em todos se distingue sua inconfundível personalidade, forte e até mesmo explosiva.

Entretanto, São Pedro tem suas fraquezas, é verdade.

Diversas vezes é repreendido pelo Mestre, e no momento em que sua fidelidade seria provada como nunca, na Paixão de seu Senhor, ele capitula. Capitula, sim, mas não se desespera; sobretudo, não desconfia do amor daquele a quem devotara sua existência. É o mesmo Pedro que encontraremos mais tarde declarando sua Fé em Jesus e increpando corajosamente o Sinédrio depois de Pentecostes.

O Apóstolo Pedro foi crucificado por volta do ano 67, em Roma.

Paulo: de perseguidor a Apóstolo das Gentes

Com o sacrifício do primeiro mártir, Santo Estevão, teve início violenta perseguição contra a Igreja de Jerusalém, obrigando os fiéis a se dispersarem pelo interior da Judéia, pela Samaria, Síria e ilha de Chipre. Somente os Apóstolos permaneceram mais algum tempo na Cidade Santa. Um fariseu se destacava por seu ódio contra os seguidores de Jesus: Saulo.

Porém, não tendo idade legal para apedrejar Estevão, Saulo limitou-se a tomar conta dos mantos dos algozes. O seu ódio aos cristãos o levou a pedir ao príncipe dos sacerdotes cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém os cristãos que lá encontrasse.

Quem era esse Saulo? Pelo ano 3 de nossa era, nasceu ele em Tarso, na Cilícia, cidade então célebre como centro comercial e intelectual. Sua família pertencia à tribo de Benjamin e gozava do direito de cidadania romana. Jovem ainda, estudou em Jerusalém, na escola do conhecido Gamaliel (cf. At 22, 3). Mas tudo leva a crer que permaneceu poucos anos nessa cidade, e não chegou a conhecer pessoalmente Jesus, segundo alguns autores. Quando o reencontramos em Jerusalém, ei-lo na primeira fileira dos perseguidores dos cristãos. Sua maravilhosa conversão no caminho de Damasco, talvez a mais retumbante da História, deu-se por volta do ano 35. Tinha ele cerca de 32 anos.

Em Damasco, Ananias o batizou. Em seguida, o neo-convertido passou três anos no deserto da Arábia sendo instruído pelo próprio Jesus. Voltando à capital da Síria, pregou a fé cristã com tanto zelo e sucesso, que os judeus, furiosos, tentaram matá-lo. Mas os discípulos fizeram-no descer à noite pela muralha, dentro de um cesto. Fugindo para Jerusalém, tentou juntar-se lá aos cristãos, mas todos o temiam, não crendo em sua conversão. Então Barnabé apresentou-o aos Apóstolos, narrando como em Damasco Paulo pregara com desassombro o nome de Jesus. Permaneceu pouco tempo na Cidade Santa, pois aí também alguns judeus quiseram matá-lo. O próprio Jesus lhe apareceu, alertando- o: “Apressa-te e sai logo de Jerusalém porque não receberão o teu testemunho a meu respeito. Vai, porque Eu te enviarei para longe, às nações…” (At 22,18-21).

Com esse mandato do Divino Mestre, o Apóstolo iniciou sua portentosa epopeia de evangelização entre os gentios. Partiu para Tarso, e de lá seguiu com Barnabé para Antioquia, onde formaram uma grande comunidade de fiéis. Nesta cidade, os discípulos de Jesus foram chamados pela primeira vez de cristãos, para os distinguir dos judeus e dos gentios. Assim, por sucessivas cidades, após a pregação destemida do Evangelho – acompanhada por vezes de milagres admiráveis – numerosas conversões se davam, e isto ocasionava a perseguição por parte dos dirigentes das sinagogas locais.

Inúmeras foram as aventuras pelas quais São Paulo passou em seus anos de apostolado: “Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei” (II Cor 11, 24-25).

Preso em Roma, o incansável Apóstolo não deixou de pregar, e obteve a conversão de incontáveis almas. Sendo posto em liberdade no início do ano 64, dirigiu-se à Espanha e à Ásia e depois retornou a Roma, onde foi novamente preso, desta vez com São Pedro. Ficaram eles na prisão mais antiga de Roma, o Cárcere Mamertino.

No final de sua heroica vida, pôde o Apóstolo das Gentes cantar: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição” (II Tim. 4, 7-8). Grandiosa foi sua vida, tal sua morte. Sendo cidadão romano, São Paulo não podia ser crucificado. Foi, pois, decapitado pela espada no ano de 67. Conta-nos a tradição que sua cabeça, rolando ao solo, saltou três vezes e fez brotar três fontes que podem ser vistas ainda hoje na Igreja de San Paolo alle Tre Fontane, na via d’Ostia, em Roma.

Duas colunas sobre o mesmo alicerce

A história destes dois apóstolos não nos narra vias de inocência ou impecabilidade, mas de debilidades e misérias que souberam ser vencidas com heroísmo e altaneria. Quanta humildade, verdadeiramente heroica, não foi necessária a São Paulo para assumir, diante dos outros apóstolos, o encargo de evangelizar em nome do que antes perseguia. Quanta coragem teve São Pedro em reconhecer, diante d’Aquele a quem prometera nunca abandonar, a sua vergonhosa capitulação e em pedir perdão.

A Liturgia Romana os considera fundadores da Igreja de Roma, e um símbolo visível da colegialidade do episcopado da Igreja. Não é sem razão que estudos arqueológicos provaram que, já no decurso do séc. III, os cristãos das catacumbas veneravam as memórias dos dois Apóstolos.

São, de fato, duas colunas inabaláveis fundadas sobre o mesmo amor de Cristo e que sustentam seu Corpo Místico. O amor do Príncipe dos Apóstolos por Nosso Senhor, tão patentemente expresso nos evangelhos, e o arrojo do apostolado de São Paulo se unem para atestar as maravilhas que Deus opera nas almas daqueles que se deixam amar e transformar por Ele.

Por Alexandre Coutinho Neto

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas