São Mateus: flexibilidade ao apelo divino
Qual a razão que levou o filho de Alfeu a responder tão prontamente ao chamado de Jesus?”
Redação (06/06/2026 19:54, Gaudium Press) De fâmulo de César a Apóstolo de Jesus Cristo, São Mateus tornou-se um paradigma de docilidade à voz de Deus quando, sem delongas, levantou-se e seguiu o Senhor.
A detestada classe dos publicanos
Quando Jerusalém foi tomada por Pompeu no ano 63 a.C., toda a Palestina passou para o domínio romano e foi obrigada a pagar tributos ao imperador. A fim de cobrar tais impostos, os dominadores contratavam funcionários entre os próprios israelitas, a quem chamavam de publicanos.[1]
Ser cobrador de impostos não era uma tarefa fácil, sobretudo em Cafarnaum, onde trabalhava Mateus. A cidade, além de ser uma referência portuária às margens do mar da Galileia, era um entroncamento de vias que interligavam a Síria ao Egito e o Mediterrâneo com o Oriente. Cabia ao filho de Alfeu recolher as taxas aduaneiras dos numerosos comerciantes que por ali passavam, transportando artigos variados: tecidos, pérolas e escravos.
É evidente que tal função proporcionava uma oportunidade para a prática da extorsão, o que gerava profunda indignação em Israel. A tal ponto o problema era corrente que, quando um grupo de cobradores de impostos pediram a São João Batista uma orientação espiritual, este lhes respondeu que não exigissem nada além daquilo que foi determinado (cf. Lc 3,12-13).
Detestada pela população, a classe dos publicanos não o era apenas pelas deslealdades financeiras, mas também por ser vista como cúmplice da opressão romana, sendo considerada traidora da nação.[2]
Apesar de tudo, parece que a antipatia geral não pesava tanto na balança quanto as vantagens do ofício…
O chamado de Mateus
Sentado em seu telônio, entre um mercador e outro, Mateus pensava. Quais seriam suas perspectivas de futuro? Calculava ele que, com os recursos adquiridos das caravanas que em breve chegariam, conseguiria investir na compra de um campo, na plantação de uma vinha ou na construção de um moinho? Não sabemos. O que é certo, é que, sendo verdadeiramente homem, era verdadeiramente pecador,[3] e a consideração das próprias culpas atormentava sua consciência e turvava os possíveis sonhos de um delicioso porvir.
Mas, em dado momento, chegaram aos seus ouvidos rumores de um certo nazareno que andava por toda parte, pregando sobre o Reino de Deus e operando prodígios. Diziam que ele caminhara sobre as águas, expulsara demônios e curara vários doentes. Ainda há pouco, havia se espalhado a notícia de que Ele chegara a Cafarnaum e, durante uma pregação numa casa, desceram do teto um paralítico de nascença a quem Ele não apenas curou de sua enfermidade física, mas inclusive perdoou seus pecados (cf. Mc 2,31).
Como bom judeu que era, ecoaram em sua mente as palavras de Isaías sobre os coxos, cegos e surdos que seriam sanados nos tempos do Messias. Não seria esse o Ungido do Senhor? Não estaria n’Ele o alívio para suas preocupações de consciência e a paz para a sua alma?
Enquanto tais pensamentos giravam em seu espírito, Mateus percebeu um burburinho que se avultava. Estava ainda absorto em contar denários, quando, erguendo os olhos, deparou-se com um olhar que penetrou até o fundo de seu ser. Num instante, o filho de Alfeu sentiu-se plenamente compreendido. Aquele olhar, cheio de bondade e misericórdia, inspirou-lhe confiança e serenidade, fazendo-o experimentar uma alegria interior que o levou a se encantar com aquele varão.
Era Jesus, que vendo Mateus, sentado na coletoria de impostos, disse-lhe: “Segue-me!” Sem hesitar, ele se levantou e seguiu a Jesus (cf. Mt 9,9).
Pouco depois, aquele pobre publicano deixaria de lado as moedas e passaria a ser testemunha do Salvador, registrando com seu cálamo as palavras e os gestos do seu Salvador.
Flexibilidade à voz de Deus
Qual a razão de São Mateus ter respondido tão prontamente ao chamado divino? Porque ele era flexível à voz da graça.
A flexibilidade é a disposição daquele que não põe obstáculos para abandonar um hábito e adotar outro.
Claro está que, em virtude do caráter processivo da psicologia humana, Deus já vinha preparando a alma do Evangelista para o momento do encontro com Jesus. Mas já nesses prelúdios misteriosos, onde apenas Deus e a pessoa sabem o que se passa no interior do espírito, ele correspondia às moções divinas.
Em meio às seduções do mundo, ele se levantou e seguiu a Nosso Senhor. Ele deixou tudo o que não estava de acordo com o olhar puríssimo d’Aquele que o chamou, abandonando maus costumes, maus desejos e más companhias.
No entanto, não foi apenas o filho de Alfeu quem foi chamado. Toda a humanidade recebe o mesmo convite de seguir Jesus. Cabe-nos, então, perguntar: como devemos praticar a flexibilidade à voz de Deus? Quais hábitos devemos abandonar? Serão amizades que conduzem ao pecado? Ou quiçá ambientes que não promovem a prática do amor a Deus?
Uma coisa é certa: só serão flexíveis e dóceis ao apelo divino aqueles que, como São Mateus, souberem confiar no amor e na bondade misericordiosa d’Aquele que nos diz constantemente: “Segue-me!”
Por Rodrigo Siqueira
[1] Cf. FLÁVIO JOSEFO. Antiguidades judaicas. L.XIV, c.8, n.577.
[2] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano-São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2013, v.2, p.136.
[3] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. In Matthæum, c.IX, lect.2, n.756.






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