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São Ladislau, Generalíssimo da I Cruzada

Algum tempo antes da I Cruzada, muitos católicos faziam peregrinações a Jerusalém a fim de venerar os lugares santificados pela presença de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bom número deles as realizavam em reparação dos seus pecados.

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Redação (21/01/2023 09:40, Gaudium Press) O Duque da Normandia Roberto I – pai de Guilherme, o Conquistador –, acusado de ter cometido um grave crime, em 1035, viajou a Jerusalém acompanhado de muitos cavaleiros, barões e outros nobres. Era muito rico e, segundo as crônicas do tempo, caminhava descalço, usando traje de peregrino.

Após ter rezado em diversos locais da Cidade Santa, partiu de regresso à França, mas ficou gravemente doente nas proximidades de Niceia, Turquia. Recusou os serviços de seus vassalos e quis ser carregado numa liteira por muçulmanos, aos quais forneceu dinheiro. Tendo um peregrino normando lhe perguntado que mensagem ele queria transmitir a seu país, o Duque respondeu: “Vá dizer ao meu povo que se viu um príncipe cristão levado ao Paraíso por demônios.”[1]

Logo depois, o Duque Roberto faleceu. Tinha 25 anos de idade.

Igrejas em ruínas, assaltantes circulavam livremente

Em 1064, partiram da Alemanha rumo a Jerusalém 7.000 mil peregrinos, sob a direção do Arcebispo de Mogúncia e outros três prelados. Foram bem recebidos em Constantinopla pelo Imperador Constantino X.

Nas proximidades da Cidade Santa, 12.000 árabes os atacaram para exterminá-los. Embora os católicos se defendessem com heroísmo, 5.000 morreram. Os outros conseguiram escapar e, mediante pagamento de alto preço, entraram em Jerusalém. Visitaram a Basílica do Santo Sepulcro e outros locais sagrados; observaram que várias igrejas estavam em ruínas e, nas ruas, assaltantes circulavam livremente.

Tendo regressado à Alemanha, contaram que os árabes atacavam os católicos instigados pelos judeus. Isso gerou na população um movimento de indignação contra estes últimos. E o Papa Alexandre II, para evitar morticínios, colocou os israelitas sob salvaguarda da Santa Sé.

O islamismo dominava, então, a Palestina, o Egito e alguns países da África; fizera da Sicília e das regiões meridionais da Espanha seus postos avançados, ameaçando toda a Europa.

Nos lugares onde residiam judeus, estes apoiavam os islamitas como haviam feito com relação aos bárbaros, pois se uniam a tudo aquilo que combatia a Igreja Católica.[2]

Quatro grandes exércitos

Nessa época, populações provindas da Tartária – entre a China e a Rússia – conquistaram a Pérsia, a Síria, a Turquia, tornando-se maometanos e passaram a ser denominados turcos. Fundaram um império, cuja capital era Nicéia, e dominaram Jerusalém em 1076. Os árabes atormentavam muito os católicos na Cidade Santa, mas com os turcos essa perseguição se tornou crudelíssima.

Após o Concílio de Clermont, em novembro de 1095, torrentes de graças fluíram sobre o Ocidente. Toda a população se preparava para a Cruzada; nas igrejas, abençoavam-se armas e estandartes.  Não se ouvia mais falar de roubos e assaltos. Mulheres vendiam suas joias a fim de financiar as despesas de guerra, e as mais aguerridas se preparavam para os combates.

Sob a direção espiritual do Bispo Ademar de Monteil, constituíram-se quatro grandes exércitos, que deveriam se encontrar em Constantinopla:

– Franceses do Norte, belgas e alemães, capitaneados por Godofredo de Bouillon, Duque de Lorena;

– Franceses do Centro e da Normandia, comandados pelo Conde Hugo de Vermandois, irmão do Rei da França Felipe I;

–  Franceses do Sul, sob as ordens de Raimundo de Saint-Gilles, Conde de Toulouse;

– Normandos do Sul da Itália, dirigidos por Bohemond, Duque de Tarento.

Era necessário que um monarca fosse o comandante supremo. O imperador Henrique IV e o Rei Felipe I estavam excomungados; o Rei da Inglaterra Guilherme, o Ruivo, perseguia a Igreja.

Então, foi escolhido São Ladislau, Rei da Hungria. Legados papais se dirigiram a essa nação, e ele aceitou com suma alegria essa altíssima missão.

Fez vigorar as leis ditadas por Santo Estêvão

São Ladislau havia sido eleito rei por unanimidade em 1077, e declarara que só assumiria o poder se Salomão, que era seu primo e usurpara o trono, renunciasse formalmente.

Este de fato abdicou, mas pouco tempo depois quis retomar o reino. Fez guerras contra São Ladislau, nas quais sempre foi vencido. Por fim, abandonado pelos seus seguidores, arrependeu-se, entrou num mosteiro onde, após 20 anos de vida penitencial, faleceu.

A Croácia estava sendo atingida por graves convulsões internas, em 1091. Então, o mais destacado de seus príncipes rogou a intervenção de Santo Ladislau, que para lá se dirigiu, puniu os revoltosos, pacificou o país e o anexou à Hungria.

Alegando que a Croácia pertencia ao governo de Bizâncio, o Imperador Alexis Comneno mandou tropas para invadirem a Hungria, e Santo Ladislau com seus valores soldados as derrotou. Para completar sua vitória conquistou algumas cidades da Sérvia, que estavam sob o domínio do império bizantino.

Atacou os tártaros que invadiam continuamente diversas regiões matando seus habitantes, e os fez recuar para seus desertos. E tornou tributários da Hungria os turcomanos, os búlgaros e os sérvios. Em harmonia com sua grande combatividade, era dotado de suma bondade. Distribuía com frequência esmolas aos pobres e fundou diversos mosteiros.

São Gregório VII escreveu-lhe uma carta felicitando-o pela sua piedade, seu zelo e devotamento, recomendando-lhe alguns fieis injustamente exilados de Roma, os quais São Ladislau havia acolhido generosamente.

Diz o Martirológio que São Ladislau estabeleceu em seu reino as leis cristãs ditadas por Santo Estevão, Rei da Hungria, corrigiu os costumes, dando ele mesmo exemplo de virtude, e propagou a Fé católica na Croácia, que havia sido incorporada ao reino húngaro, estabelecendo a Sé episcopal de Zagreb, capital dessa nação.

Esse grande batalhador, que visava a glorificação da Igreja, morreu em 27 de junho de 1095, na cidade de Nitra, junto aos Cárpatos – grande cadeia de montanhas da Europa oriental –, quando iniciava uma guerra contra os malfeitores que infestavam a Boêmia.

Assim, a I Cruzada, cujos exércitos já se movimentavam rumo a Jerusalém, ficou sem um rei para generalíssimo nesta Terra, mas obteve um grande protetor no Céu.[3]

Peçamos a São Ladislau, cuja memória é celebrada em 30 de junho, que nos obtenha de Nossa Senhora a combatividade contra nossos defeitos e os inimigos velados ou declarados da Igreja, tendo sempre em vista a implantação do Reino de Maria.

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] MICHAUD, Joseph-François. História das Cruzadas. São Paulo: Editora das Américas. 1956, v. I, p. 57.

[2] Cf. DARRAS, Joseph Epiphane. Histoire Génerale de l’Église. Paris: Louis Vivès. 1875, v. 21, p. 430-432.

[3] Cf. DARRAS, op. cit. 1875, v. 23, p. 192-185; AIMOND, Charles. Le Moyen Âge. Paris: J. de Gigord. 1939, p. 136.

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