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São José de Anchieta e o Poema à Virgem

Cercado de mil perigos, o jovem missionário, José de Anchieta, afervorou sua devoção a Nossa Senhora, prometendo escrever em versos a vida da Mãe de Deus, se Ela o conservasse em sua pureza.

 Foto: Timothy Ring

Foto: Timothy Ring

Redação (09/06/2022 09:48, Gaudium Press) A origem do Poema à Virgem está ligada a um dos heroicos episódios da História da nação brasileira, no qual transparecem reunidos o espírito de fé, a confiança na Providência, a fortaleza de alma e o fino tato diplomático de São José de Anchieta, admirável homem de Deus.

Arriscada embaixada junto aos tamoios

Desde os primeiros anos da fundação de Piratininga na capitania de São Vicente, vinham os índios tamoios hostilizando as povoações portuguesas, confederadas com os tupis do sertão. O ataque se tornou quase incessante em 1559, quando os tamoios se aliaram aos franceses estabelecidos no Rio de Janeiro. Vencidos por Mem de Sá em 1560, estes instigaram os aborígenes a uma insurreição geral, que ameaçava arrasar completamente a colonização portuguesa na região e, com ela, a Fé Católica.

O Pe. Manoel da Nóbrega e o Ir. José de Anchieta, partindo como embaixadores de paz em maio de 1563, chegaram às praias de Iperoig, atual Ubatuba. Ali passaram meses de contínua incerteza entre a vida e a morte, no meio dos tamoios, sem conseguir promover nenhum acordo. Nesse ínterim, o Pe. Nóbrega foi chamado a São Vicente, onde sua presença se fazia muito necessária.

Por mais que lhe custasse ver o venerável superior partir em tal conjuntura, Anchieta preferiu o bem comum ao seu privado, oferecendo-se de bom grado a ficar entre os inimigos, até que aprouvesse a Deus abrandar-lhes o coração e fazer com que chegassem a uma conciliação.

Uma promessa à Virgem Santíssima

Sozinho em meio a uma gente perversa, o Ir. José viveu todo esse tempo como um lírio entre os espinhos. A convivência com os nativos – que para qualquer outro teria sido funesta – lhe serviu para robustecer e dar novo brilho à sua virtude.

Para um jovem na flor da idade, bem espinhoso era estar cercado de mil ocasiões de pecado, incontáveis perigos e escândalos de toda sorte; e, de mais a mais, privado dos Sacramentos, sem um bom livro para ler nem um diretor espiritual que o sustentasse. Redobrou, pois, a vigilância sobre si mesmo, sufocando prontamente o menor movimento da natureza que pudesse debilitar a virtude.

Afervorou a devoção para com Nossa Senhora, confiando-Lhe de modo especial a guarda de seu coração e sua pureza. E prometeu escrever a vida da Mãe de Deus em versos, se Ela o ajudasse a sair da situação em que se achava, sem mancha alguma que obscurecesse o alvo lírio da castidade.

Impresso na areia e na memória

Quando se sentia esgotado pelo cansaço, o jovem jesuíta repousava passeando pela praia, e ali punha-se a cumprir sua promessa, compondo na areia, em versos latinos, a vida da Santíssima Virgem.

Quem lê as tocantes alegorias, símbolos e figuras extraídas das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres, de que está recheado o poema, não sabe o que mais admirar: se a piedosa unção do autor, se o seu gênio, erudição e doutrina, que assim deixou consignados para louvor da Rainha do Universo e edificação na fé das gerações futuras.

O quanto tal composição foi agradável aos Céus, bem se deduz das narrações de testemunhas oculares que afirmam ter visto muitas vezes um formoso passarinho, de linda e variada cor, a esvoaçar em torno de Anchieta enquanto ele fazia seu poema, e pousar-lhe ora nos ombros, ora na cabeça, ora nas mãos.

De sua parte, a Virgem foi fiel ao compromisso, guardando-lhe intacta a pureza de alma e a própria vida, mesmo quando na praia ensolarada os terríveis canibais faziam soar aos ouvidos do missionário a frase ameaçadora: “Farta-te de ver o sol, porque em breve te havemos de matar e comer”. Ao que ele respondia com brandura: “Não me haveis de matar; ainda não chegou a minha hora”.

Conversão conquistada pela doçura

Tal foi o comportamento do Santo durante os três meses em que permaneceu só entre os selvagens – a suavidade do trato e a retidão de seus costumes ilibados – que acabou por conquistar-lhes o coração e, afinal, pôde-se concluir a paz, tão satisfatória para ambas as partes.

Depois de publicamente render ações de graças a Deus por tão assinalado benefício, dispôs-se a partir para São Vicente, o que muito lhe custou, pois não podia esquecer-se dos favores que ali recebera da Providência. Como São João na Ilha de Patmos, ele amava aquele local que, de terra de exílio, se lhe tornara pátria querida. Via, ademais, que os povos nativos eram fáceis de civilizar, bastando para isso habilidade e verdadeiro espírito apostólico. Dilacerava o seu coração deixar uma região onde tanto bem restava por fazer.

De outro lado, os próprios índios opunham-se a que ele os deixasse, pois tendo mudado de atitude, pareciam ter-lhe agora um entranhado amor. Já não poderiam suportar a ausência do homem de Deus que tanto os tinha assistido, consolado e socorrido em suas aflições. Heroica foi a sua partida, mas a santa obediência o chamava e ele não hesitou.

Finalmente, a 21 de setembro de 1563, depois de quase cinco meses afastado, entrava Anchieta em São Vicente para abrir o tesouro precioso de sua memória e dar ao mundo as pérolas de inestimável valor do poema de quase seis mil versos que lavrara nas areias de Iperoig.

O poema

A título de amostragem, apresentamos alguns trechos do célebre Poema à Virgem. Abaixo segue o oferecimento, cuja clave sublime perpassa de início a fim toda a peça literária:

“Cantar ou calar? / Mãe Santíssima de Jesus, os teus louvores / hei de os cantar ou hei de os calar? / A mente alvoroçada / sente-se impelida pelo aguilhão do amor / a oferecer a sua Rainha uns versos…

“Mas receia com a língua impura / decantar tuas glórias: / inúmeras culpas carregam-na de manchas. / Como ousará mundana língua enaltecer / A que encerrou no seio o Onipotente?”

Séculos antes da definição dogmática da Imaculada Conceição e tendo como testemunhas apenas os Anjos e os inquietantes olhares de ferozes índios, assim se exprimia o cantor da Imaculada, nas areias da Terra de Santa Cruz:

“Concebida em seio materno, como todos nós, / só tu, ó Virgem, foste livre do labéu / que mancha os outros todos, / e esmagas ao calcanhar / a cabeça do enroscado dragão, / retendo sob as plantas sua fronte humilhada. / Toda bela de alvura e luz, / não houve sombra em Ti, doce amiga de Deus!”

E tomado de zelo pela ortodoxia, contra a insolência da heresia calvinista que atacou a virgindade perpétua da Rainha Celeste, ele proclama:

“Como não pode enxergar os raios da divina luz, / donde flui o brilho de teu corpo e de tua alma, / rouba-Te a honra da perpétua virgindade […]. / Com negro coração roído pela lepra, / Te atira setas envenenadas em fel de víbora. / Monstro, por que te inchas, / com a inveja da antiga Serpente? / Por que róis com loucos dentes / a beleza da Virgem Mãe? […] / Ousaste, venenosa cobra, / tocar, com essa tua maldita língua, / o leito alvíssimo do eterno Deus?”

Com uma breve dedicatória termina o poema num brado de amor à Virgem, no desejo ardente do martírio e em nobilíssimo sentimento de humildade:

“Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima, / Te prometi em voto, / vendo-me cercado de feros inimigos. / Enquanto, entre os tamoios conjurados, / pobre refém, tratava as suspiradas pazes, / tua graça me acolheu / em teu materno manto / e teu véu me velou intactos corpo e alma. / A inspiração do Céu, / eu muitas vezes desejei penar / e cruelmente expirar em duros ferros. / Mas sofreram merecida repulsa meus desejos: / só a heróis / compete tanta glória!”

Flor semeada por todo o Brasil

Enaltecendo as virtudes do Apóstolo do Brasil, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira afirmava solenemente na Assembleia Nacional Constituinte de 1934:

“Em Anchieta, vas electionis, brotara uma flor de virtude, e esta flor, ele a semeou por todo o Brasil: é a mansidão suave, ligada à energia serena, mas inexorável, que é o eixo de nossa alma”.

Peçamos confiantes que, a rogos deste incomparável herói da Fé, a Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, nos obtenha, na atual encruzilhada histórica por que passa a nação, graças extraordinárias para que nosso país seja, de fato, a Terra de Santa Cruz com a qual sonharam seus fundadores, cujo futuro grandioso foi profetizado por São José de Anchieta na epopeia A gesta de Mem de Sá: “Quando os povos brasis observarem a doutrina de Cristo, instaurar-se-á por séculos neste mundo austral a idade de ouro!”

 

 Texto extraído, com pequenas adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n. 234, junho 2021.

 

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