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São João Bosco e nossos dias

Em um contexto em que a Igreja é cada vez mais solapada, as revelações do santo salesiano não podem ser mais aplicáveis, sublinhadas pelo minucioso cumprimento de tudo quanto ele previra.

Redação (23/06/2020 09:00, Gaudium Press) Em dezembro de 1854, enquanto se discutia no Parlamento Sardo-Piemontês a lei para a supressão das Ordens religiosas e expropriação de seus bens e patrimônios, São João Bosco teve um sonho que determinou um verdadeiro abalo na família real savoiana. Visão tão importante que fê-lo comunicar imediatamente ao Rei Vitor Emanuel II, através de uma missiva. Dom Bosco havia sonhado com um menino que lhe confiava uma mensagem, nos seguintes dizeres: “Uma grande notícia! Anúncio: grande funeral na corte”.

Alguns dias depois, visto o l’atteggiamento[1] de descrédito do Rei, Dom Bosco enviou-lhe uma nova carta. Num outro sonho, o menino novamente lhe dizia: “Anúncio: não somente grande funeral na corte, mas grandes funerais na corte”. E Dom Bosco instou expressa e insistentemente ao Rei sobre os castigos de Deus à família real, possíveis desde que aprovadas as leis anticlericais.

Sua Alteza, ouvindo maus conselhos, não deu atenção às cartas. Contudo, em 5 de janeiro de 1855, enquanto os esboços da lei eram apresentados ao Parlamento, difundiu-se a notícia de uma inesperada doença com que foi vitimada Maria Teresa, a mãe do Rei Vitor Emanuel II. Setes dias mais tarde, com apenas 54 anos de idade, ainda jovial, a Rainha-Mãe morreu. Os funerais foram previstos para o 16 de janeiro. No entanto, enquanto retornava dos funerais, a esposa de Vitor Emanuel II, Maria Adelaide, que dera à luz um filho oito dias antes, foi repentinamente acometida por um gravíssimo ataque de metro-gastroenteria.

“Aquele que me escuta habitará com segurança” (Prov. 1, 33)

Ora, naquele mesmo dia o Rei recebeu uma outra missiva de Dom Bosco, em termos claríssimos: “Certa pessoa favorecida desde o alto disse: ‘Abra os olhos: já foi morto um. Se a lei [Rattazzi] for aprovada, despencarão graves desgraças em vossa família. Isto não se cifra num mal agouro. ‘Erunt mala super mala in domo tua’ — será o mal sobre o mal de vossa casa. Se vós não recuardes [em vossos intentos], abrireis um abismo insondável’”.

Quatro dias após esta última carta, a jovem esposa do Rei, sua Alteza Maria Adelaide, contando somente 33 anos, morre. Era o dia 20 de janeiro de 1855. Mas os fatos não pararam nisso. O irmão do Rei, Ferdinando, duque de Gênova, no mesmo dia 20 de janeiro recebe a unção dos enfermos e morre em 11 de fevereiro, também aos 33 anos.

Não obstante estas advertências, e todas as anteriores previsões de São João Bosco, o Rei não se moveu. Com efeito, a lei veio a ser aprovada em 2 de março de 1855, com 117 votos a favor e 36 contra. Em maio a lei passou pelo Senado, para ser ratificada. Mas no dia 17, a um passo da definitiva aprovação,[2] verificou-se uma nova e desconcertante morte na família real: faleceu o pequeno Vitor Emanuel Leopoldo, filho mais novo do Rei.

Ainda em 1855, São João Bosco promoveu a publicação de um opúsculo contendo as tramas de sua difícil luta contra a perseguição feita a Igreja, editando não apenas o carteio enviado ao Rei Vitor Emanuel II, mas também outras admoestações suas contra a família savoiana, onde lê-se o seguinte trecho: “Aqueles [da família de Savóia] que não fazem caso de Deus serão atribulados e não chegarão à quarta geração”.[3]

Acontecimentos graves e inquietantes, mas uma profecia inegável que hoje é facilmente comprovável: Vitor Emanuel morreu aos 58 anos, provavelmente de malária. Seu primo e sucessor, Humberto I, morreu aos 56 anos em Monza, por meio de um projétil de pistola do anarquista Bresci. O segundo sucessor, Vitor Emanuel III, fugiu de noite do Quirinal, secretamente, em 8 de setembro de 1943, e três anos mais tarde foi forçado a abdicar. O terceiro sucessor, Humberto II, foi um Rei “provisório”, de menos de um mês, que em virtude do “referendum populare”, precisou aceitar ser exilado, sem mais retornar ao Piemonte.

Como claramente se vê, os Savóia foram atribulados e não chegaram à quarta geração, como profetizou São João Bosco.[4]

“Não se lhe dará outro sinal senão o do profeta…” (Lc 11, 29)

Em que contexto tais acontecimentos se desenrolaram? No de uma evidente perseguição à Igreja Católica em suas ínclitas Ordens Religiosas.

Em que contexto vivemos nos dias atuais? Não apenas no de uma eminente supressão de Ordens Religiosas, mas do abafamento da própria Igreja, em sua doutrina, em seus costumes e em suas instituições. Ela encontra-se manietada!

Enquanto muitos morrem em virtude de um vírus universal, esgotamento mais sério verifica-se no lânguido corpo da Igreja, cujo laudo médico indica uma inapetência sacramental, uma insuficiência respiratória pelos ares da fé, prenunciativo de uma certidão de óbito; dessa vez conquistado não pelas mãos de ferro das leis anticlericais, mas das mesmas mãos de ferro revestidas das luvas de seda dos cuidadosos acordos entre a Igreja e o Estado pretensamente lavrados para “preservar a vida terrena”, sob pena de fazer os que ainda são fiéis “perderem a vida eterna”.

Deus pode tolerar, e tolera, certas ofensas. Muitas vezes não castiga o pecador, mas concede-lhe graças para que retorne ao seio de sua infinita misericórdia. Mas há certas coisas que Deus não tolera. Uma delas é atentar contra a Sua Igreja, e isso a História o confirma.

O referido caso de São João Bosco é um claro exemplo desta intolerância de Nosso Senhor contra os que desejam destruir seu Corpo Místico.

Será que o Senhor poderia voltar atrás em sua decisão de punir os ímpios, passando a ignorar o sofrimento de seus filhos? E as mortes dos membros da Casa de Savóia, profetizadas por São João Bosco, por acaso não constituem grave advertência para aqueles que, em nossos dias, pretendem solapar a ação da Igreja?

Seja como for, não parece bom negócio enfrentar uma Igreja que goza das prerrogativas divinas, sobretudo quando comprovamos o triste fim daqueles que não souberam, ou não quiseram respeitar os homens de Deus, pois “não se lhe dará outro sinal senão o do profeta…” (Cf. Lc 11, 29)

Por João Paulo Bueno

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[1] Expressão italiana que significa negligente suspeita.

[2] Com a aprovação da Lei Rattazzi, 334 casas religiosas foram supressas e 5456 religiosos dilapidados. Cf. CIRELLI, Renato. La Questione Romana. Mimep-Docete: s.l., s.d., p.31. Em 29 de Maio de 1855, chegou desde Roma uma “excomunhão maior” — cuja anulação é reservada exclusivamente ao Papa — para “todos os autores, fautores e executores da lei [Rattazzi]”. Tal sanção recaiu, portanto, sobre um Rei que se afirmava católico. Pio IX, não obstante a ofensa, a humilhação e a perseguição à Igreja da qual ele era o Pastor, em 1859, revogou a pena imposta a Vitor Emanuel II.

[3] Cf. CORONA Irena. Le profeziedi Don Bosco. Edizione Segno: Tavagnasco, 2011. A frase textual em italiano, conforme na obra citada, diz “di chi rùba a Dio”, expressão atualmente pouco usada.

[4] O enredo completo da história relatada nesse artigo pode ser obtido, em italiano, em: CORONA Irena. Le profeziedi Don Bosco. Edizione Segno: Tavagnasco, 2011; [email protected]/Dueprofeziedi San Giovanni Bosco contra i Savoia.

Sobre este artigo, a parte histórica, textual, foi traduzida ao português com as devidas adaptações ao idioma, sem a revisão do(s) autor(es).

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