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Santo Inácio e a Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum

Os dias atuais, estigmatizados pela degradação em diversos campos da atividade humana, exigem de nós católicos uma vida virtuosa sem precedentes.

 Redação (18/09/2022 15:39, Gaudium Press) “Custe o que custar, não quero ficar disforme nem enfermo. Tome as suas medidas; quanto a mim, estou pronto”.

Era uma voz firme e decidida que o dizia. Se o leitor visse, porém, o estado de quem as pronunciou, ficaria pasmo, pois não passava de um pobre doente, com uma perna esmigalhada, deitado em sua cama.

Lutava ele pelo rei Carlos V contra os exércitos de Navarra que, comandados por André de Foix, cercavam o castelo de Pamplona, quando um tiro de canhão atingiu a sua perna direita.

Tal soldado, de nobre família, está agora, recluso no castelo de seu irmão, D. Martim García, em Loyola, não muito distante de Pamplona. Tendo os médicos feito uma dolorosa operação em sua perna – lembrando que, naquele século XVI, ainda não havia as atuais formas de anestesia… –, nosso pobre fidalgo nota que já não poderia viver como antes: as partes do osso partido formaram uma saliência, tornando a perna fraturada menor do que a outra. Temeroso pela opinião da corte, não hesita em fazer-lhe cortar novamente a perna…

Enquanto se recupera, toma contato – muito a contragosto – com dois livros: a “Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo”, do Pe. Ludolfo, e a “Flor dos Santos”. Mais do que o tiro de canhão que logrou quebrar-lhe a perna, são estes livros que mudam a sua vida. Tendo-os lido, diz: “Farei o que fizeram os Santos[1].

Começava a longa e árdua caminhada de um dos maiores homens da História: Santo Inácio de Loyola.

Que relação terá este fato com a liturgia deste 25º Domingo do Tempo Comum?

Um apelo divino ao brio dos filhos da luz

O capítulo 16 do Evangelho de São Lucas, recolhe um importante ensinamento de Jesus:

Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios que os filhos da luz  (Lc 16,8).

É difícil haver algum católico que não se sinta atingindo em seu brio ao ouvir tais palavras. É vergonhoso, mas é a realidade.

Entretanto, quem são os “filhos deste mundo” e os “filhos da luz”? E que “negócios” são estes?

A divisão é clara, simples e sem margem de dúvida: os primeiros são aqueles que, consciente e deliberadamente, voltam as costas a Deus e fazem deste mundo e de si mesmos, o fim último de suas vidas. Os filhos da luz são os que dedicam sua existência para a maior glória de Deus.

Desde que Santo Agostinho disse que só há dois amores: ou amamos a Deus até o esquecimento de nós mesmos ou amamos a nós mesmos até o esquecimento de Deus[2], não há um meio-termo entre os filhos da luz e os filhos deste mundo. Aliás, o próprio Jesus no-lo afirma no Evangelho de hoje: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro” (Lc 16,13).

Os referidos “negócios” dos filhos deste mundo são, pois, todos os seus empreendimentos em prol do erro, da fruição e do pecado; e com quanta argúcia a isto se prestam. Os filhos da luz, porém, muitas vezes são lentos, ingênuos e, até lamentavelmente bobos… Sendo que não há absolutamente nenhum “negócio” mais sublime do que aquele ao qual se dedicaram: a glória de Deus.

Quanta gente, hoje em dia, não teme passar por graves riscos de saúde para ter alguns brevíssimos momentos de fruição ilícita e pecaminosa? Antes de sua conversão, o nosso Santo Inácio levou a vaidade a ponto de preferir serrar a perna sem uso de anestesias do que ser mal visto pela corte; não ficaria ele horrorizado ao ver o mundo de hoje se entregar a pecados gravíssimos com uma vontade e malícia outrora jamais vistos?

Oxalá os bons servissem a Deus e à Igreja com semelhante empenho! Não hesitamos em duvidar: em poucos meses – ou dias! – o mundo seria outro. Mas, infelizmente, não é isso o que se passa.

A triste época hodierna, de degradação sem precedentes, exige de nós uma dedicação também sem precedentes. Contudo, quantas vezes não somos apenas negligentes a serviço do bem, mas inclusive nos aplicamos com maior fervor a coisas passageiras, por vezes más e pecaminosas, nós que nos propusemos à prática do bem?

Se estivermos em tal situação, o mais importante é não nos deprimirmos: o próprio Santo Inácio e muitos outros santos passaram por isso. Entretanto, se é verdade que, antes de sua conversão, empenharam-se espantosamente nas coisas deste mundo, é muito mais real que, uma vez convertidos, se tornaram verdadeiros paladinos da causa de Deus.

Façamos o mesmo: que os filhos deste mundo não sejam mais espertos do que os filhos da luz!

Por Lucas Rezende


[1] DAURIGNAC, J.M.S. Santo Inácio de Loyola. Porto: Apostolado da Imprensa, 1958, p. 12-30.

[2] Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XIV, c .27. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v. XVI-XVII, p. 984.

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