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Santo Erlembaldo, intrépido cavaleiro de Cristo

Durante o pontificado de São Gregório VII –1073 a 1085 –, houve um varão riquíssimo da mais alta nobreza italiana que lutou heroicamente contra os inimigos da Igreja e por ela verteu seu sangue: Santo Erlembaldo, Duque de Milão.

1280px 0317 Milano San Calimero Foto Giovanni DallOrto 5 May 2007

Redação (12/12/2022 10:47, Gaudium Press) Desde muito jovem Erlembaldo ingressou na carreira das armas e, apesar de pouco robusto, era corajoso como um leão. O palácio que possuía em Milão – Norte da Itália – igualava-se em magnificência ao de um rei.

Aparecia em público sempre ricamente vestido, como convinha à sua dignidade, acompanhado de um pomposo séquito. Quando andava pelas ruas de Milão, o povo o acompanhava para lhe prestar homenagem. Mas se percebesse na multidão algum maltrapilho ou doente, ordenava que o conduzissem discretamente ao seu palácio, onde o próprio Duque cuidava dele com bondade.

Combate aos eclesiásticos depravados

Após ter feito uma peregrinação a Jerusalém, desejou entrar para a vida monástica. Entretanto, Santo Diácono Arialdo recomendou-lhe lutar pela Igreja permanecendo em seu alto cargo, uma vez que a simonia e a corrupção moral do clero eram favorecidas por muitos detentores do poder civil.

Santo Erlembaldo, então, dirigiu-se a Roma e o Papa Alexandre II ordenou-lhe que voltasse a Milão a fim de ajudar Santo Arialdo no combate aos inimigos da Igreja, e entregou-lhe um estandarte ao qual chamou São Pedro. Ele sustentou esse símbolo papal com ufania durante 18 anos.

Alexandre II havia sido formado em Cluny, juntamente com o monge Hildebrando, futuro São Gregório VII. Quando Bispo de Lucques – Centro da Itália -, Alexandre II fundou a Pataria, movimento que combatia os eclesiásticos simoníacos, casados ou concubinários. A maioria de seus membros era composta por pessoas do povo, que caminhavam pelas cidades e pelos campos, pregando contra os clérigos devassos e a favor do celibato sacerdotal.

Santo Arialdo tornou-se um dos principais chefes da Pataria no campo religioso, e Santo Erlembaldo seu comandante militar.

Morreu segurando o estandarte de São Pedro

Quando São Pedro Damião, como legado papal, chegou a Milão a fim de corrigir os graves erros que grassavam no clero, deu total apoio aos patarinos e exigiu que os clérigos fizessem juramento contra a simonia.

Todos concordaram, mas o arcebispo dessa cidade, assim que algumas sedes vagaram, continuou fazendo o nefando tráfico de cargos eclesiais.

O fidelíssimo Duque Erlembaldo foi à Roma a fim de conferenciar com o Papa, e regressou a Milão trazendo uma bula que excomungava o ímpio arcebispo. Este reuniu enorme multidão diante da catedral e, segurando o documento papal na mão, disse que jamais os milaneses se submeteriam à Igreja romana e incitou-os contra Arialdo e Erlembaldo, que se encontravam no interior do templo.

Os clérigos atacaram Arialdo que foi gravemente ferido; os leigos se lançaram contra Erlembaldo o qual se defendeu tão bem com sua espada que ninguém conseguiu tocá-lo.

Assassinato do diácono Arialdo, líder da pataria

Assassinato do diácono Arialdo, líder da pataria

Refeito de seus ferimentos, o Diácono Arialdo empreendeu uma viagem a Roma. No caminho, partidários do arcebispo simoníaco o prenderam e arrastaram para um lugar deserto, onde foi morto por dois clérigos que o mutilaram horrivelmente. Era o ano de 1066.

Contra os adversários da Igreja Santo Erlembaldo manteve diversas outras lutas, e o Papa São Gregório VII, que assumiu o pontificado em 1073, o encorajou nesse nobilíssimo ideal.

Não conseguindo derrotá-lo em batalhas, seus inimigos recorreram ao assassinato. Num dia em que Santo Erlembaldo falava ao povo, um magote de facínoras se precipitou contra ele e o mataram. O varão de Deus segurava em suas mãos o estandarte de São Pedro, quando exalou o último suspiro.

A morte do intrépido cavaleiro de Cristo, como era chamado por São Gregório VII, foi chorada por todos os verdadeiros católicos, até mesmo nos confins da Inglaterra[1].

Pouco tempo depois, o Beato Urbano II colocou Erlembaldo no número dos Santos. Sua memória é celebrada em 27 de julho.

Arcebispo de Milão atuou como um “luterozinho”

Sintetizamos a seguir alguns comentários de Dr. Plinio Corrêa de Oliveira sobre Santo Erlembaldo.

“A Itália nesse tempo estava dividida em duas correntes: uma obedecia à Igreja romana, Sede infalível de São Pedro; a outra tinha laivos de heresia, mas se caracterizava, além do defeito doutrinário, também pelo fato de seus membros terem muito maus costumes e praticarem a simonia, ato pelo qual uma pessoa vende um cargo eclesiástico. […]

“Havia, entretanto, uma consolação para a Igreja que era a Ordem de Cluny, a qual floresceu numa corrente religiosa que representava o rigorismo, tendo à testa a Santa Sé e cujo maior expoente foi São Gregório VII, precedido de uma série de Papas também santos, dignos, corajosos e que combatiam as heresias, a simonia, a corrupção com toda a sua força […]

“Enquanto a corrente de Cluny vai tentando a reforma da Igreja, vemos aparecer em Milão dois Santos de uma envergadura excepcional. Um deles é o Bem-aventurado Arialdo, clérigo profundamente adversário da simonia contra a qual luta com as armas religiosas eclesiásticas. E a figura extraordinária desse Duque, com um nome também um pouco extraordinário, pelo menos para os nossos ouvidos brasileiros: Erlembaldo. […]

“Milão foi sempre umas das principais cidades da Itália, situada no Vale do Pó, ao centro de uma porção de estradas, uma das regiões mais ricas da Europa, povo muito inteligente, culto, político, artístico. Logo, Duque de Milão significa ser um dos mais altos chefes da Itália.

“Um Duque de Milão naquele tempo tinha peso na política internacional, porque os reis da França, os imperadores do Sacro Império viviam de brigas, e o apoio que eles tinham das cidades italianas deslocava a favor de um ou de outro a balança política, de maneira que, muitas vezes, esses pequenos principados do Norte da Itália eram fiéis da balança internacional […]

O arcebispo que “pega a bula vinda de Roma, na qual o Papa o excomunga, e a leva para destruir, fazendo um verdadeiro protestantismo, é um “luterozinho” clamando pela independência da Igreja de Milão”.[2]

Peçamos a Santo Erlembaldo que nos obtenha de Deus o mais alto grau da virtude da combatividade, pois os inimigos da Igreja são atualmente piores do que os do tempo dele.

Por Paulo Francisco Martos


[1] Cf. PROFILLET, Charles Les saints militaires: Martyrologe, vies et notices. Paris: Retaux-Bray, 1890. DARRAS, Joseph Epiphane. Histoire Génerale de l’Église. Paris: Louis Vivès. 1875, v. XXI, p. 358, 433, 435 passim.

 [2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Intrépido cavaleiro de Cristo. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXII, n.256 (julho 2019), p. 28-30.

 

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