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Santo Antônio de Sant’Ana Galvão: o santo brasileiro

Nascido na Terra de Santa Cruz, Frei Antônio de Sant’Ana Galvão,  alma puríssima como um cristal, não fez senão irradiar ao longo de toda a sua vida o suave “odor de Cristo” num período conturbado para a Igreja no Brasil, mas no qual uma população ávida de santidade soube ver nele o bom pastor que o Céu lhe enviara.

Redação (25/10/2020 09:56, Gaudium Press) Nascido no seio de uma família numerosa e exemplarmente católica, ele destacava-se como o filho predileto. Sua nobreza de origem deu-lhe um coração generoso, e se comprazia em distribuir esmolas aos que batiam à porta de casa.

Conta-se do período de sua infância que um dia, estando sozinho em casa, veio uma pobre senhora pedir ajuda. Sem ter nada que lhe dar, não pensou duas vezes: dispôs de uma riquíssima toalha de crivo posta sobre a mesa e a entregou à mulher.

Os tempos eram outros e a senhora percebeu que aquela peça valiosa não fora parar em suas mãos com o consentimento da mãe do menino. Voltou à casa e quis devolvê-la, mas Dona Isabel — a mãe do pequeno Antônio — apenas a confortou: “Meu filho lha deu, está bem dada”. Esta dadivosidade ímpar, Frei Galvão a conservou durante toda a sua longa existência.

Sacerdote voltado para as almas

Ao partir para a Bahia, a fim de iniciar sua formação acadêmica no Colégio Jesuíta, o jovem Antônio não imaginava que a vocação sacerdotal lá se manifestaria.

No entanto, os ventos não eram favoráveis para os jesuítas e o jovem Antônio poderia fazer muito mais pela glória de Deus gozando a liberdade de atuação dos franciscanos. Foi ordenado sacerdote em 1762, quando contava 24 anos.

Com seu retorno a São Paulo, ingressou no histórico Convento de São Francisco, que naqueles anos gozava de seu máximo esplendor. É lá que hoje funciona a igualmente histórica Faculdade de Direito da USP, que desde 1827 vem engendrando grandes personalidades para o Brasil.

Foi a partir de sua atuação como sacerdote e do contato direto com as almas, que todos começaram a dar-se do tesouro que possuíam: o humilde frade curava enfermos, penetrava o íntimo das consciências, bilocava-se, operava conversões, etc.

Aconteceu, certa vez, que Frei Galvão partiu muito cedo para a casa de uma família abastada. Enquanto batia à porta, um transeunte o avistou e pensou no seu íntimo: “Tão cedo e já Frei Galvão a adular os ricos…” Ao aproximar-se, o santo chamou-o e disse-lhe: “Meu irmão, não faça juízo temerário do próximo! Eu não vim aqui adular o dono desta casa, mas sim pedir uma esmola para o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição”. Atônito, o homem não pôde mais duvidar de que aquele era, de fato, um varão de Deus!

Fama de santidade

Cita uma ata contemporânea do Santo, da Câmara de São Paulo, na qual se diz: “Este homem é preciosíssimo a toda esta cidade e vila da Capitania de São Paulo. É um homem religiosíssimo e de prudente conselho. Todos acodem a fazer-lhe pedidos. É um homem de paz e caridade”.

Que toda a cidade pensasse assim, ficou provado com o seguinte caso: por Frei Galvão opor-se, juntamente com um monge beneditino, à morte tola de um soldado, o governador resolveu exilá-los para o Rio de Janeiro. O monge beneditino afirmou que não ia, mas Frei Galvão apenas disse: “Eu sou franciscano, sou filho da obediência…” Tomou umas poucas roupas e foi-se.

Quando o povo soube, armou-se de paus, varapaus, enxadas e outros utensílios de lavoura e cercou a casa do governador. Assustado, este mandou logo mensageiros ao encalço do frade, que já se encontrava longe. E ele voltou, para gáudio de todos!

O Mosteiro de Nossa Senhora da Luz

Mas, se quisermos citar a maior obra de sua vida, que marcaria para sempre a grande cidade de São Paulo, devemos falar do Mosteiro de Nossa Senhora da Luz. De tal maneira Frei Galvão ligou sua existência ao novo mosteiro, que não podemos mencionar essa instituição sem que o seu nome nos venha logo à memória; bem como não podemos nos referir ao santo religioso sem nos lembrarmos desse convento.

Frei Galvão recebeu, no início de suas incumbências sacerdotais, três encargos: o de pregador da ordem franciscana, o de porteiro — que o tornou muito conhecido — e o de confessor do Recolhimento de Santa Teresa, onde viviam algumas monjas. Era o único estabelecimento de religiosas então existente em São Paulo. Chamava-se “recolhimento” porque naqueles tempos de perseguição religiosa o termo “mosteiro” era imprudente perante o governador.

Nessa singela comunidade que Frei Galvão passou a dirigir, vivia uma alma eleita: Irmã Helena Maria do Sacramento. A essa devota freira foi revelado ser desejo de Deus que Frei Antônio de Sant’Ana Galvão fundasse um novo convento na cidade de São Paulo. Caso perigoso e delicado!

Por um lado, havia proibição formal da parte do Marquês de Pombal de receber noviços em qualquer instituição, sob pena de morte; e por outro, a natureza daquela revelação seria posta à prova por muitos. O próprio Santo refletiu longamente, consultou os canonistas e, sobretudo, analisou aquela alma. Sua conclusão foi: “é de fato um desejo inspirado, fundemos o novo convento”.

Escolheu-se o Campo da Luz, onde havia já uma antiga capelinha dedicada a Nossa Senhora da Luz, numa região totalmente despovoada e não distante do rio Anhembi. Começou, a partir daí, um calvário de dissabores e provações que, para o Santo, se traduziam em provas visíveis de ser este o desígnio de Deus. A pequena comunidade que ali passou a viver em instalações provisórias sofreu de tudo: o mandado de que fosse extinto o Recolhimento, a fome e a miséria que quase as levaram à morte, a privação da assistência de Frei Galvão até passar a tormenta…

Mas o Senhor queria “construir a casa sobre a rocha” e, na raiz dessa heroica fundação, era necessário o sofrimento de todos.

Por fim, depois de obtidas as devidas licenças, Frei Galvão iniciou a construção do belo mosteiro que se mantém em suas linhas gerais tal qual o vemos hoje.

O filho do Capitão-Mor de Guaratinguetá tornou-se mendigo pela obra de Deus. Angariou fundos e operários para a construção, fez longas e penosas viagens — sempre a pé —, divulgando e mobilizando a população a contribuir para causa tão nobre. As doações chegavam, mas não bastavam… Em uma palavra, ele próprio foi a pedra angular dessa casa de Maria Santíssima e de seu Divino Filho, chegando a trabalhar pessoalmente naquele rude ofício.

Mas… que consolação! De seu sofrimento brotaram inúmeras vocações, que não tardaram em apresentar-se, e o Mosteiro de Nossa Senhora da Luz logo ficou conhecido como “um viveiro de santas”, formadas nas luminosas vias indicadas por seu fundador. Quantas graças para a salvação das almas não terão sido obtidas através dos sacrifícios oferecidos por essas virgens consagradas?

As “pílulas” de Frei Galvão

Entre as numerosas graças recebidas pela intercessão de Frei Galvão destacam-se, pela simplicidade e pela maravilhosa confiança na Mãe de Deus que encerram, as pílulas miraculosas.

Esse costume tão característico de nosso Santo — ininterruptamente seguido por milhares de fiéis desde quando ele era vivo até os dias de hoje — comprova, pelas graças e feitos portentosos que opera, não ser uma mera crença popular.

Diz a história que certo dia apresentaram a Frei Galvão um moço com muitas dores, sem poder expelir uns cálculos renais. O santo religioso, movido de compaixão, depois de rezar teve uma súbita inspiração. Escreveu em três papelinhos a seguinte frase do ofício da Santíssima Virgem Maria: “Post partum Virgo inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis”, ou seja: “Depois do parto, ó Virgem, permanecestes intacta; Mãe de Deus, intercedei por nós”.

Enrolou os papeizinhos em forma de pílula e deu ao jovem para que os tomasse como remédio. Logo depois, o moço expeliu um grande cálculo e ficou curado.

Mais tarde, um homem aflito procurou Frei Galvão, dizendo que sua esposa, que ia dar à luz, estava muito mal. Novamente ele se lembrou do versículo do ofício de Nossa Senhora; escreveu, enrolou e mandou as pílulas para a mulher. Depois de tomá-las, ela deu à luz sem nenhum problema.

Estes e outros fatos se propagaram rapidamente e os pedidos dos célebres papelinhos, ou pílulas, ficaram muito frequentes. Frei Galvão ensinou às irmãs do Recolhimento a fazerem pílulas, de modo que, mesmo em sua ausência, as pudessem dar às pessoas que viessem pedir na portaria do Convento.

No início as pílulas eram procuradas sobretudo pelas parturientes. Com o tempo, porém, começaram a ser usadas por quem sofria de enfermidades diversas, de modo especial problemas renais, cálculos ou pedras nos rins. E até para a conversão de pecadores.

Hoje em dia são solicitadas por homens, mulheres e jovens que nas doenças — principalmente câncer — ou em dificuldades de toda espécie, invocam a intercessão do servo de Deus e as tomam com fé.

Sempre teve a sua alma nas mãos

A morte colheu Frei Galvão na mesma serenidade que conservou durante a vida, e seus últimos dias foram uma expressão fiel do altíssimo grau de santidade que ele havia atingido. Entregou sua alma a Deus no dia 23 de dezembro de 1822, quando contava 84 anos, numa pobre cela atrás da capela do mosteiro por ele construído.

Se quisermos definir a vida deste perfeito filho de São Francisco, não encontraremos melhores palavras que aquelas figuradas em seu epitáfio no Mosteiro de Nossa Senhora da Luz: “Animam suam in manibus suis semper tenens”. Sempre teve a sua alma nas mãos.

É precisamente na docilidade à vontade da Providência em detrimento da sua própria que brilhou a santidade de Frei Galvão: flexível ao sopro do Espírito Santo, esqueceu-se por completo de si mesmo e sepultou as suas deliberações no Coração do Divino Mestre.

Texto extraído, com alterações, da Revista Arautos do Evangelho n. 65 maio 2007.  Ir Carmela Werner Ferreira, EP.

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