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Santo Ambrósio, Bispo e Doutor da Igreja

O grande Santo Ambrósio de Milão, Doutor da Igreja, insigne pregador e piedoso Prelado, foi aclamado pelo povo, admirado por Santo Agostinho e não receou enfrentar o Imperador.

Redação (07/12/2021 10:24, Gaudium Press) Situa-se o nascimento de Ambrósio em torno do ano de 340, em Tréveris, onde seu pai exercia o cargo de prefeito do Império Romano. Pertencente a ilustre família senatorial, entre cujos antepassados contavam-se cônsules romanos.

O pequeno Ambrósio

Com os irmãos Marcelina e Sátiro, a infância e juventude de Ambrósio transcorreram em Roma, onde a mãe se estabelecera após a morte prematura do marido, ocorrida nas Gálias.

Marcelina, ainda muito jovem, se consagrará como virgem de Cristo, nas mãos do Papa Libério. Ela será na vida de Ambrósio um apoio, um consolo e uma bênção. Sendo alguns anos mais velha, estará vigilante junto ao berço do irmãozinho e rezará de joelhos no túmulo do santo Bispo.

Sátiro, de prodigiosa semelhança física com Ambrósio, acompanhará os dois irmãos na carreira da perfeição e os precederá nos umbrais da eternidade.

Durante uma visita do Bispo de Roma à casa dos Ambrósios, observara ele que todos tinham beijado a mão do venerável Pontífice. Tendo este partido, o menino decidiu oferecer sua mão direita às criadas e à própria irmã, para receber o ósculo de respeito. Marcelina recusou-se a prestar-lhe tal homenagem… Anos mais tarde, cheia de veneração e ternura, ao beijar a mão de seu irmão, já Bispo, ambos lembraram-se do inocente episódio.

Com pouco mais de trinta anos, transferiu-se para Milão – a segunda capital do Império e sé dos imperadores cristãos, bem como capital das províncias de Ligúria e Emília -, ao ser nomeado governador destas províncias, pelo Imperador Valentiniano I.

Apesar do fervor cristão de Ambrósio e da sua rejeição pelo ambiente licencioso da Roma de então, como também das ideias arianas que corriam livremente em Milão, ainda não tinha ele recebido o Batismo ao completar os 33 anos.

Devia-se isto a um censurável costume da época, combatido pelos Padres da Igreja: retardar a recepção desse Sacramento pelo vão temor de ser ele profanado por um pecado posterior.

Enquanto isso, o catecúmeno alimentava a ilusória esperança de alcançar sem risco a salvação eterna, sendo batizado só no momento da morte.

No sólio episcopal

Estava Ambrósio há dois anos à frente do governo de Milão, quando faleceu o Bispo Auxêncio, em 374. Os Bispos vizinhos, reunidos em uma das basílicas da cidade para eleger o substituto, não chegavam a um acordo. O povo, nas naves da basílica, se impacientava, esperando a decisão.

“Ambrósio Bispo! Ambrósio Bispo! Ambrósio Bispo!”. Este brado, vindo de uma voz clara e infantil, irrompeu no meio do tumulto das pessoas ali presentes. Como se tivesse ouvido uma ordem do Céu, a multidão repetiu: “Ambrósio Bispo! Que Ambrósio seja nosso Bispo!”.

A História não deixa claro se, ao dar tal exclamação, a criança foi inspirada diretamente pelo Espírito Santo ou se foi impelida por alguma alma conhecedora da virtude do santo, receosa de ser escolhido um Bispo ariano.

O certo é que, aos 34 anos, Ambrósio, ainda catecúmeno, não se resignava a aceitar o cargo que o povo, o clero e até a aprovação obtida do Imperador queriam impor-lhe a todo custo. Entretanto, de nada valeram seus argumentos, nem mesmo uma frustrada fuga.

Por fim, a inspiração do Céu se fez sentir e o coração generoso do jovem patrício cedeu diante da vontade divina, que o compelia a subir os degraus do altar e do sólio episcopal.

A 7 de dezembro daquele mesmo ano, Ambrósio recebeu a dignidade sacerdotal, logo seguida da episcopal. Tinha sido batizado oito dias antes.

Presbyterium: um norte para a vida clerical

A Igreja de Milão não demorou muito a experimentar quanto de fato a voz do povo tinha sido a voz de Deus. Tornando-se Bispo, Ambrósio sublimará ainda mais os predicados que faziam dele um homem íntegro, reto e dedicado. O Sacramento da Ordem transformará e elevará mais ainda seu espírito forte e seu caráter superior.

Uma de suas primeiras preocupações foi proporcionar ao clero de sua diocese os melhores meios de formação e progresso nas vias da santidade. Para tal, nada mais excelente do que propor-lhes uma vida na qual o ministério pastoral está intimamente enraizado na oração.

Ambrósio organizou sua vida segundo este ideal. Reuniu em torno de si, numa mesma casa, todos os clérigos, constituindo o que ficou chamado de Presbyterium.

Nessa comunidade, cada um tinha seu lugar e sua função. Os sacerdotes, diáconos e aspirantes às ordens sagradas rezavam, liam, escreviam e trabalhavam juntos, sendo uns para os outros um fraternal apoio e estímulo na conquista da santidade. O santo Bispo considerava tal modo de viver como a salvaguarda, o poder, a alegria e a liberdade do sacerdócio.

Sua solicitude na procura da perfeição alcançava os mínimos detalhes: “Nada de vulgar seja encontrado nos sacerdotes, nada popular, nada à maneira, uso ou costumes das multidões desordeiras”.

Essa escola clerical de santidade fundada por Ambrósio foi fecunda em homens apostólicos, que mais tarde haveriam de ocupar vários sólios episcopais da Itália, pois sua ação pastoral não se restringiu apenas à Diocese de Milão. Fundou nove outras dioceses, para as quais escolheu e consagrou Bispos dignos e preparados.

Frutos de seu zelo pastoral

Ambrósio se dedicou particularmente ao estudo das Sagradas Escrituras. Ontem catecúmeno, hoje Bispo, ele precisava haurir com rapidez a ciência sagrada e nela tornar-se o primeiro entre seus clérigos. “Fui tirado dos tribunais e da administração e elevado ao sacerdócio, e comecei a vos ensinar o que eu próprio não aprendi. Por isso, aconteceu que comecei a ensinar antes de aprender. Assim, pois, para eu aprender é simultâneo ao ensinar, porque antes não tive tempo de aprender”.

Foi um ardoroso cantor da castidade perfeita, pois “sabia bem que as brutalidades do paganismo podiam ser lavadas pela luz da virgindade cristã”.

Sua primeira obra a esse respeito – Sobre as virgens -, a fez para a própria irmã, Marcelina, recompilando suas homilias sobre o tema, às quais ela não pudera estar presente. Era uma perspectiva nova e fulgurante da virgindade. Enalteceu ele de tal modo a pureza que, de todas as partes, jovens desejosas de se consagrar a Deus o buscavam para fazê-lo sob sua orientação.

A eloquência de seu espírito contemplativo e piedoso desbordava por igual em seus discursos públicos e na composição, tanto da melodia quanto da letra, dos famosos hinos chamados mais tarde “ambrosianos”.

Uma grande glória: a conversão de Agostinho

Nesta breve resenha, não podemos deixar de lembrar uma das principais glórias de Santo Ambrósio: a de ter lavado nas águas batismais o jovem maniqueu de Tagaste, na vigília pascal de 387.

As palavras proferidas por Ambrósio aos domingos, no púlpito da Basílica de Milão, muito contribuíram para a conquista do grande Agostinho. Por outro lado, a irradiação da virtude desse homem, no qual transparecia tão alto grau de união com Deus, foi aos poucos tornando a alma do futuro Bispo de Hipona ávida de abraçar as verdades eternas.

Já convertido Agostinho, Ambrósio continuou sendo seu modelo e a luz de seus passos, a ponto de ele exclamar, com entusiasmo de discípulo e amor de filho: “administrador insigne de Deus, a quem venero como um pai: pois em Cristo Jesus, pelo Evangelho, ele próprio me gerou, e dele, como ministro de Cristo, recebi o banho da regeneração”.

As lutas extremas desta vida

Alguns meses após ter ordenado o Massacre de Tessalônica, na festa do Natal de 390, Teodósio I prosterna-se no átrio da Basílica de Milão, em presença de todo o povo, desprovido de suas insígnias imperiais.

Entre lágrimas repete as palavras do Rei-Profeta: “Prostrada no pó está minha alma, restituí-me a vida conforme vossa promessa” (Sl 119, 25).

A crueldade com que abafara a rebelião de alguns habitantes dessa cidade fora mais própria aos tempos de Nero do que à justiça de um soberano cristão. Milhares de vítimas inocentes, entre as quais mulheres e crianças, foram massacradas.

Logo que soube do acontecido, Ambrósio recriminou destemidamente o Imperador com a força irresistível da verdade apresentada por inteiro e sem contemporizações.

A ingente luta travada contra o arianismo, as perseguições da Imperatriz Justina, as intervenções junto aos imperadores para fazer prevalecer sempre a ortodoxia e a paz cristã, os múltiplos trabalhos à frente da Igreja milanesa e o desvelo pastoral pelo rebanho minaram sua saúde.

Contava 57 anos, dos quais 23 de plenitude do sacerdócio, quando sentiu chegar a hora do encontro com o Supremo Juiz. Pouco tempo antes de adoecer, na Quaresma de 397, predisse que não viveria até a Páscoa.

Entretanto, o infatigável zelo de Ambrósio não conhecia limites. No início desse ano, havia-se dirigido a Vercelli, para apaziguar a diocese e consagrar Honorato como Bispo.

Depois viajara a Pávia para presidir uma nova ordenação episcopal. Seu derradeiro escrito – o comentário ao Salmo XLIII – não pôde ser concluído.

 “Não temo a morte porque temos um bom Senhor”. Na manhã do Sábado Santo, 4 de abril de 397, após ter recebido o Viático das mãos de Santo Honorato de Vercelli, abandonou suavemente esta Terra para celebrar a Páscoa na felicidade perpétua, onde não se conhecem lágrimas, nem luto, nem dor, e aí receber a herança do vencedor (cf. Ap 21, 4-7).

 

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n. 120, dezembro 2011.

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