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Santa Teresa Margarida Redi: a santa escondida com Cristo em Deus

Há certo tipo de almas sobre as quais muito e quase nada haveria para se dizer, pois sua virtude heroica mereceu-lhes a honra dos altares, mas a beleza de suas vidas resplandeceu apenas diante de Deus.

Redação (06/03/2021 15:09, Gaudium Press) A pequena e bela cidade de Arezzo viu a segunda dos treze filhos de Inácio Redi e Camila Balatti vir ao mundo no dia 15 de julho de 1747. Nas águas batismais recebeu ela o nome de Ana Maria.

Devido ao prestígio da família Balatti, que pertencia à nobreza da cidade de Siena, e ao cargo que Inácio Redi possuía como grão-mestre da Ordem Militar de Santo Estevão, a menina teve uma infância tranquila, orgânica e regrada pelos atos de piedade que a tradição ditava. Desde a mais tenra idade, foi ela receptáculo de graças que a preparavam com muita antecedência para a realização da missão que Deus lhe reservara.

Piedosa formação

O primeiro instrumento da Providência para delinear a via espiritual de Ana Maria foi o seu próprio pai. Varão contemplativo e piedoso costumava levar sua filha para passeios e pelo caminho ensinava-lhe a rezar a Salve Regina e as ladainhas, bem como a procurar o Criador no belíssimo panorama toscano: nas flores, nas aves, no céu… em tudo! Desse modo, Inácio Redi incentivava sua pequena a “surpreender” a Deus em cada uma de suas criaturas.

Contribuiu também para sua formação cristã a influência de seu tio Diego, sacerdote da Companhia de Jesus. Seria ele que, anos mais tarde, introduziria Ana Maria na devoção que conquistou seu entusiasmo e à qual devotou sua vida: o Sagrado Coração de Jesus.

O costume da época aconselhava que as meninas fossem educadas em um convento, tendo por tutora alguma das monjas. Ali recebiam a formação necessária para se tornarem boas damas cristãs ou, quiçá, manifestando vocação para tal, religiosas naquele mesmo mosteiro. Assim sendo, quando Ana Maria completou nove anos de idade seus pais enviaram-na ao Mosteiro beneditino de Santa Apolônia, na cidade de Florença.

Durante sete anos aprouve a Deus manter escondida naquele claustro a pequena pedra preciosa que Ele lapidava para Si. Causa admiração que um dos poucos testemunhos sobre ela que se conservam da época refira: “Era uma menina boa e normal; nada de extraordinário se notava em seu comportamento”.

Deus a destinava, desde a mais tenra juventude, a passar desapercebida diante dos homens a fim de brilhar unicamente para Ele.

Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Com a explosão da heresia jansenista, feita de moralismo hirto, formal e sombrio, grande parte da sociedade da época foi corroída por seu veneno e, em consequência, dominada pela consideração quase exclusiva da justiça de Deus, em detrimento de outra de suas perfeições, a bondade.

Foi neste momento da vida de Ana Maria que a Divina Providência reavivou em sua alma a devoção ao Sagrado Coração de Jesus que surgia timidamente na França. Mesmo cercada por um ambiente em que se concebia a Deus como Juiz implacável, o amor terníssimo que brotava do Divino Coração a atraía e a fortalecia num propósito feito na infância: agradar em tudo a Deus.

Esta devoção foi a porta pela qual o Altíssimo quis abrir sua intimidade para Ana Maria, e o sólido fundamento que lhe permitiu manter intacta sua fé em meio aos desvios rigoristas do jansenismo.

Ana Maria configurou sua vida espiritual na contemplação do mistério do Sagrado Coração de Jesus, especialmente debaixo das Espécies Eucarísticas, e fez do altar suas delícias. Chegava a permanecer longas horas quase imóvel num diálogo místico com Aquele que “tanto amou os homens”.

Curioso chamado à vocação

Em setembro de 1763, uma ex-aluna do colégio de Santa Apôlonia apresentou-se nas portas do estabelecimento a fim de despedir-se de suas antigas mestras. Conterrânea de Ana Maria e pertencente a uma das famílias da alta sociedade de Arezzo, Cecília Albergotti decidira partir para o Carmelo a fim de ali buscar a própria santificação e melhor servir à Igreja.

A palavra “Carmelo” ressoou na alma de Ana Maria com um timbre de mistério e atração irresistível. Talvez lhe tenha lembrado as proezas de Santo Elias, a promessa da vinda da Santíssima Virgem ao mundo e o convite ao íntimo convívio com o Céu através da radicalidade, sobriedade e contemplação.

Enquanto conversava com Cecília, Ana Maria ouviu misticamente, com os sentidos interiores, uma voz nítida e clara que lhe disse: “Eu sou Teresa de Jesus e te quero entre as minhas filhas!” Assustada, ela correu ao altar para refugiar-se no Sagrado Coração de Jesus, mas, para sua surpresa, ali chegando a voz se pronunciou novamente e, desta vez, sem margem a dúvidas: “Sou Teresa de Jesus e te quero entre as minhas filhas; em breve estarás no meu mosteiro”.

Vocação posta à prova

A decisão da jovem Ana Maria de tornar-se carmelita surpreendeu não só suas mestras, mas também sua família. Inácio Redi, homem prudente e devoto, quis experimentar sua filha nas virtudes que lhe seriam exigidas pela rígida Ordem Carmelitana.

Por isso, obrigou-a a aguardar longos meses, nos quais testou-lhe a docilidade, a solicitude, a obediência e, por fim, até a sua fé. A última das provas consistiu num verdadeiro interrogatório feito por três ilustres eclesiásticos que, examinando-a, concluíram ser o Carmelo o melhor lugar para ela amar, servir e glorificar a Deus.

Depois desse duro período em que o tempo e a espera agiram como inclementes carrascos para Ana Maria, finalmente ela se despediu dos seus e ingressou no “jardim de Deus”, na cidade de Florença.

No Carmelo, mais uma “Teresa”

O ingresso de Ana Maria no Carmelo pareceu-lhe a entrada no Paraíso Terrestre. Nos seus escritos, chama as companheiras de hábito de “anjos” e registra considerar-se indigna de estar junto a elas.

Ora, a comunidade em questão era composta na sua maioria por religiosas de avançada idade, que viam na jovem noviça a esperança de continuidade daquele Carmelo, mas também a oportunidade de satisfazer mesquinhos egoísmos.

A grandeza de alma de Ana Maria não se abalou diante dos maus-tratos que recebeu de algumas de suas irmãs de vocação. Pelo contrário, ela soube, com ajuda da graça, utilizar-se dessas pequenas cruzes para oferecer a Deus um sacrifício de agradável odor que a configurava cada vez mais com o Sagrado Coração de Jesus, Vítima dos pecadores.

Depois do período de noviciado, chegou a hora de professar entre as filhas de Santa Teresa. E, na hora de escolher o nome religioso, Ana Maria colocou-se sob o patrocínio de sua fundadora e da grande Santa Margarida Maria Alacoque, seu modelo na devoção ao Coração de Jesus.

Exemplo de obediência

O que se conhece da vida de por detrás dos muros claustrais é o que se poderia esperar de qualquer carmelita fervorosa. Então, o que fez Santa Teresa Margarida de extraordinário para merecer a honra dos altares?

A resposta é de uma simplicidade profundíssima: pelo cumprimento fiel em grau heroico dos três votos, obediência exímia, pureza angelical e pobreza evangélica.

Por exemplo, em um certo momento, teve ela sua obediência posta à prova quando a superiora a incumbiu de cuidar de uma irmã que sofria de demência.

Outrora religiosa exemplar, a doente tornara-se de temperamento em extremo hostil, bruto e mal-humorado. Tinha acessos de loucura nos quais “exigia comer precisamente o que os médicos proibiam” ou “rejeitava com indignação aquilo que instantes antes desejava”.

Com efeito, quando não era atendida de acordo com sua vontade, logo soltava todo o seu furor contra sua benfeitora. A jovem enfermeira era frequentemente insultada e humilhada por ela.

Havia outra religiosa a quem cabia dividir com a santa as atenções à doente. Ora, para piorar a situação, esta ajudante nutria uma falsa concepção de caridade e, a fim de evitar os maus-tratos, consentia em satisfazer a todos os caprichos da enferma.

Desse modo, a circunstância era delicada para Santa Teresa Margarida: se cuidasse da saúde da doente de acordo com as normas recebidas, atraía sobre si um vulcão de insultos, além da incompreensão da outra religiosa, que a culpava pelos ataques de cólera da paciente; se consentisse em algum dos desejos de ambas, desobedeceria à superiora.

Neste impasse, ela preferiu aceitar vexames e desaforos, e assim comprar graças de fortaleza e salvação para a doente e sua irmã enfermeira, a ceder em matéria de obediência.

Três palavras que encerram a plenitude do amor

O lema de “agradar em tudo a Deus” foi para Santa Teresa Margarida um farol que norteou sua vida dentro e fora do mosteiro.

O voto que ainda muito jovem fizera, talvez com consciência um tanto pueril da profundidade do que prometia, tornou-se a chave para abrir o Sagrado Coração de Jesus e penetrar no mais íntimo convívio com Ele. E o Divino Salvador quis, por sua vez, mostrar-lhe o agrado que sentia nesse místico relacionamento concedendo-lhe uma graça extraordinária.

Estando a comunidade reunida para o canto do Ofício, e “enquanto no coro se reza a Tércia, ao ler-se no capítulo as palavras ‘Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele’, a Ir. Teresa Margarida sentiu-se investida por uma onda de amor divino” e foi levada a experimentar a plenitude de amor encerrada nestas três palavras: “Deus caritas est”.

O que lhe terá sido mostrado nesse êxtase? Deus é amor… o Espírito Santo é o Amor de Deus. Terá Ele Se manifestado a ela? Com que graças foi cumulada, e que esperanças coroaram sua pessoa?

Lamentavelmente a História não registrou as comunicações celestes que Santa Teresa Margarida recebeu neste momento, nem sequer as impressões dela após o fato. Apenas se sabe que, depois disso, era frequente encontrá-la nos seus afazeres diários com o espírito recolhido e absorto na repetição do versículo “Deus caritas est”, parecendo estar com alma toda posta no convívio místico com o Divino Redentor.

Saibamos, com o auxílio de Santa Teresa Margarida, “agradar em tudo a Deus”, para assim sermos introduzidos na sua presença, na sua intimidade e na sua perpétua alegria.

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n. 225, setembro 2020.

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