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Santa Maria Madalena: aquela que muito amou

A alma apaixonada desconhece o medo, não mede riscos. No Horto das Oliveiras, os Apóstolos fugiram apavorados. Madalena, bem ao contrário, foi à procura de seu Amado, e Ele veio ao seu encontro.

Redação (22/07/2021 09:08, Gaudium Press) Pecadora! Por este e outros epítetos nada elogiosos se apontava em Jerusalém e adjacências Maria Madalena, mulher rica, de nobre estirpe, notável beleza e vida dissoluta. Muito jovem ainda, deixara-se arrastar pela vaidade, primeiro passo na escorregadia rampa que conduz aos pântanos da impureza.

Nessa deplorável situação, entrou nos Evangelhos com a alcunha de pecadora pública (cf. Lc 7, 37).

Em determinado momento, contudo, seus caminhos se cruzaram com os de Jesus. Os Evangelistas não informam onde, quando nem como se deu esse primeiro encontro, mas algum tempo depois ela protagonizou um dos mais conhecidos episódios do Novo Testamento:

[…] trazendo na mão um vaso de alabastro cheio de valioso perfume, irrompeu na sala de refeições do fariseu Simão, dirigiu-se em linha reta ao local onde estava o Mestre, banhou seus pés com abundantes lágrimas, enxugou-os com seus cabelos, cobriu-os de beijos e, por fim, os ungiu com o requintado perfume (cf. Lc 7, 36-50).

Lavou com lágrimas a imundice do seu pecado

Cena empolgante, sem dúvida! Não, porém, para Simão e os demais convivas. Estes a viram com estupor, mas sem coragem de manifestar a censura que fervia em seus corações. “Se este Homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que O toca, pois é pecadora” (Lc 7, 39) – sentenciou em seu íntimo o fariseu.

Cego pela má-fé e pela inveja, ele não percebeu a inegável realidade: quem ali estava não era a Pecadora, mas a Santa! Sim, pois uma tal demonstração de arrependimento e de amor só poderia partir de uma alma posta já decididamente nas trilhas da santidade.

“Ela lavou com suas lágrimas a imundice de seus pecados” e, “pelo fogo do amor divino, queimou em seu coração o amor carnal”, comenta o Papa São Gregório Magno.

Dali saiu Madalena com uma nova alcunha que ressoa há dois mil anos na História: pecadora arrependida. E é venerada no mundo inteiro como modelo e padroeira de todos quantos desejam se libertar da mais terrível das escravidões, a do pecado.

Contudo, o próprio Jesus lhe deu nesse dia um título mais glorioso: aquela que muito amou (cf. Lc 7, 47). E ela refulge no Céu e na terra como a Santa do amor apaixonado e da confiança cheia de audácia.

A alma apaixonada não mede riscos

Amor apaixonado?! Mas… a paixão não é sempre um mal?

Não. A paixão será boa ou má, nobre ou vil, de acordo com o objeto do amor. Segundo São Pedro Julião Eymard, só o amor apaixonado é verdadeiro amor: “A Eucaristia é a mais nobre aspiração do nosso coração: amemo-la, pois, apaixonadamente. […] Só ama quem sente em si a paixão do amor”.

O Evangelista põe em relevo um importante detalhe: “Depois disso”, ou seja, após o comovente episódio acima narrado, “Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa-nova do Reino de Deus. Os Doze estavam com Ele, como também algumas mulheres”, entre as quais “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8, 1-2).

Eis, assim, a ex-endemoniada entre as Santas Mulheres, como discípula de Jesus! Sem dúvida alguma, a ela não precisou o Mestre dizer “segue-Me”, pois seu coração nada mais almejava senão acompanhá-Lo por toda parte, ouvir suas palavras, vê-Lo e ser vista por Ele, manifestar-Lhe em prolongadas ou fugazes trocas de olhares seu ilimitado amor.

A alma apaixonada desconhece o medo, não mede riscos. No Horto das Oliveiras, os Apóstolos fugiram apavorados. Madalena, bem ao contrário, foi à procura de seu Amado e O acompanhou na subida ao Calvário. Permaneceu aos pés da Cruz até o momento do consummatum est.

Participou também do cortejo fúnebre e não quis afastar-se nem sequer quando os discípulos se retiraram depois de rolar a grande pedra da entrada do sepulcro: “Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas defronte do túmulo” (Mt 27, 61).

Exclama a este propósito Santa Catarina de Sena: “Oh! Madalena, estavas louca de amor! Já não tinhas teu coração, porque ele estava sepultado com teu doce Mestre!”

E Jesus veio ao seu encontro

Afinal, por mais que lhe pesasse, forçoso era retirar-se também ela. Quais eram suas disposições de alma naquela noite e no dia seguinte, bem se pode imaginar pelos relatos evangélicos.

Comprou aromas para ungir mais uma vez aquele Corpo adorado e, antes mesmo de despontar o sol, partiu para o sepulcro com duas outras das Santas Mulheres.

Para quem ama, nada há de impossível: ei-las a caminho sem saber sequer como conseguiriam rolar a pesada pedra de entrada. Encontraram-no aberto e vazio!

Madalena foi correndo dar notícia aos Apóstolos. Para lá correram Pedro e João, constataram o fato e… “voltaram para as suas casas” (Jo 20, 10).

Ela, entretanto, permaneceu junto ao sepulcro, em prantos. Note-se a força da paixão: Jesus tinha morrido, ela ainda não acreditava na Ressurreição; estava, portanto, à procura de um cadáver.

Chorando, volveu de novo os olhos para dentro do sepulcro. Por que olhar novamente, se já sabia que estava vazio? Porque quem ama de verdade não se cansa de procurar.

 “Chorando, procurava Aquele que não havia encontrado; inflamada pelo fogo de seu amor, ardia de desejos de encontrar Aquele que ela julgava ter sido raptado”.

Encontrou-O, afinal? Muito melhor do que isto, veio Ele ao seu encontro:

— Mulher, por que choras? Quem procuras? – perguntou-lhe o Mestre de modo a ela não reconhecer sua voz.

Julgando tratar-se do jardineiro, implorou aflita:

— Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu irei buscá-lo.

Ele lhe respondeu com uma só palavra, numa entonação que revelava seu infinito amor: “Maria!” Bastou-lhe também uma palavra para replicar: “Raboni!”

Ali estava, vivo, Aquele que ela procurava morto! Ela O via de novo, seu coração encontrou, afinal, repouso.

 Luz da divina graça

O que viu ela nessa troca de olhares, sabem-no apenas os Anjos e Santos no Céu. Pode-se, entretanto, imaginar ter ela contemplado nos olhos de Jesus, muito mais esplendorosa desta vez, a mesma luz que brilhara por ocasião do seu primeiro encontro com Ele: lux Christi, luz da divina graça, a cujo poder de atração ela não resistiu.

Esta é a luz que ateia na alma de todo autêntico santo o incêndio do amor apaixonado a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Texto extraído, com pequenas adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n.199, julho 2018.

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