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Santa Maravilhas de Jesus: deixe-se levar pela vontade divina!

“Como é preciso procurar ser santas neste Cerro bendito, onde com tanto amor Ele quis ter suas carmelitas, para nelas encontrar consolo, e para que, com amorosa fidelidade, O fizessem esquecer as ofensas de suas criaturas!”

Redação (11/12/2020 16:02, Gaudium Press) Em fins de 1919, uma jovem madrilena de vinte e oito anos ingressava no silencioso claustro das carmelitas descalças de São Lourenço do Escorial.

Seu nome, Maravilhas de Jesus, costuma despertar curiosidade em quem o escuta pela primeira vez. Mas assim dispuseram as superioras que se chamasse ao recebê-la no noviciado, embora ela tivesse manifestado o desejo de trocar o nome de Batismo por outro mais singelo, condizente com seus propósitos ao abraçar o estado religioso: “Tudo o que se procura no Carmelo é desaparecer para que o Senhor reine”.

Quarta filha dos Marqueses de Pidal, com inteiro desapego de sua ilustre origem e notável fortuna, aspirava ela, desde pequena, a uma entrega completa de si mesma na via contemplativa. O pai procurou persuadi-la de que no mundo também poderia trabalhar pela Igreja. A mãe, por sua vez, não abriu mão de tê-la junto a si por longo tempo, sobretudo no período de sua viuvez. Até que, finalmente, a nobre dama acabou por reconhecer que a filha nunca se adaptaria à vida fruitiva da alta sociedade espanhola, como de fato esta confessou após vários anos de clausura: “Quanto a mim, estou cada dia mais feliz no convento e agradecendo a Deus que me deu a vocação de carmelita, a melhor coisa que existe neste mundo”.

Vocação para reparar a glória de Deus ultrajada

Obtida a permissão materna, ela escolheu o Carmelo do Escorial para o ingresso.

A prolongada permanência de Maria das Maravilhas Pidal no mundo serviria para solidificar sua vocação, dando-lhe oportunidade de acompanhar de perto a decadência moral dos anos anteriores à Segunda Grande Guerra. Sua inteligência lúcida, assistida pela graça, a levava a discernir uma onda de iniquidade erguendo-se da terra, diante da qual eram poucos os que assumiam o mais importante dos encargos: reparar a glória de Deus ultrajada pelos gravíssimos pecados que se cometiam.

Com firme decisão dedicou-se ela, desde o início e sem reservas, à grande meta de sua vida: dar a Nosso Senhor Jesus Cristo, no Carmelo, o preito de adoração que em toda parte Lhe era negado.

Lamparina de louvor junto ao Sagrado Coração de Jesus

Pelas virtudes que já possuía em alto grau, a nova carmelita não demorou a se tornar uma alegria para o convento. Ao ver fecharem-se atrás de si as grades da clausura, ela acreditava estar fazendo seu rompimento definitivo com o bulício exterior. Contudo, em pouco tempo os acontecimentos tomariam outros rumos: antes mesmo de professar os votos solenes, iniciou-se uma série de sinais inequívocos indicando ser ela chamada pela Providência a fundar um novo convento, embora contasse apenas quatro anos de vida religiosa.

Este passo ousado deveu-se à situação de abandono a que ficara reduzido o monumento ao Sagrado Coração de Jesus erigido pelo Rei Afonso XIII na pequena colina que marca o centro geográfico da Península Ibérica, o Cerro de los Ángeles, para cuja execução haviam concorrido os esforços de grande número de espanhóis. Entretanto, uma vez inaugurada a obra e feita a consagração do país a seu Rei e Senhor, em 1919, o local retornou à sua antiga solidão, sem que o valor simbólico do ato levantasse qualquer movimento de especial devoção.

Todavia, inspirações de várias pessoas, e sobretudo da própria Ir. Maravilhas, convergiam no sentido de ser fundado ali um convento contemplativo, tendo como principal missão fazer companhia ao Sagrado Coração de Jesus “dia e noite, no lugar escolhido por Ele para reinar, apesar de seus inimigos, em nossa pobre Espanha”.

Estava lançada a ideia que, ao cabo de três anos, alcançou como resultado o magnífico carmelo ao lado do monumento, do qual Santa Maravilhas seria priora.

Milagrosa proteção durante a Guerra Civil

Vencidas inúmeras dificuldades, iniciou-se a vida comunitária no Cerro de los Ángeles, em 31 de outubro de 1926, Solenidade de Cristo Rei. A afluência de novas vocações logo preencheu as vagas do noviciado, graças, sem dúvida, ao intenso espírito carmelitano que se cultivava no convento recém-fundado. Uma íntima consolação confortou a priora, porque afinal estavam atendidos os desejos do Coração de Jesus: “Como é preciso procurar ser santas neste Cerro bendito, onde com tanto amor Ele quis ter suas carmelitas, para nelas encontrar consolo, e para que, com amorosa fidelidade, O fizessem esquecer as ofensas de suas criaturas!”

Não obstante as esperanças destes primeiros anos, o horizonte político nacional fez-se obscuro em 1931, para tornar-se tempestuoso em 1936. A perseguição religiosa sangrenta estava iminente, com grande risco de um sacrílego ataque ao Cerro de los Ángeles.

Santa Maravilhas não perdera tempo. Já em 1931 havia escrito ao Prepósito Geral dos carmelitas descalços, manifestando um desejo de toda a comunidade, para cuja realização pedia licença a ele e ao Santo Padre: oferecer a vida em defesa do Sagrado Coração de Jesus, caso o monumento fosse atacado.

Deus, porém, não as chamava ao martírio: queria delas a disposição de sofrer sem perder a vida, e as salvou do risco por vias humanamente desconcertantes.

O prefeito da cidade de Getafe, onde se encontra o Cerro, era à época um temido anarquista apelidado de Russo. Embora embrutecido pela sanha republicana, Russo sentiu-se atraído a frequentar o Carmelo e conhecer de perto Santa Maravilhas. Aparecia com frequência no locutório e entabulava animadas conversas com ela, sem dissimular uma sincera admiração. Falavam a respeito de sua família, da educação das crianças, dos rumos da sociedade e – por que não? – também da vida carmelitana. Na verdade, ele se rendia ante a delicadeza de trato da madre, que possuía uma bondade como jamais experimentara no convívio com seus companheiros de milícia.

Iniciada a guerra, Russo tomou em segredo a resolução de salvar a vida daquelas carmelitas e, no auge da perseguição, enviou ao Cerro de los Ángeles um caminhão de carga com ordem sumária de retirá-las do lugar. Santa Maravilhas e sua comunidade obedeceram e, não sem correr graves riscos no percurso, chegaram sãs e salvas às portas de um convento de freiras estrangeiras, onde não podiam entrar os agentes espanhóis. Estavam, deste modo, livres do furor dos milicianos graças a uma ordem de seu terrível chefe!

No entanto este foi apenas um episódio entre inúmeros outros, os quais acabaram por convencer Santa Maravilhas de que uma proteção invencível as assistia, pois quanto maiores eram os perigos, mais marcante se tornava a intervenção da Providência.

Terminada a guerra elas voltaram para reconstruir o monumento e o Carmelo arruinados, retomando com fervor a missão a elas confiada: “Já que o Senhor não quis que fôssemos mártires, como desejávamos, e nos trouxe de volta para junto de Si, trabalhemos como verdadeiras filhas da Santa Madre [Teresa] para fazê-Lo reinar na Espanha e no mundo inteiro”.

Vida interior marcada por sofrimentos e lutas

Levantar os véus da alma de Santa Maravilhas desperta veneração pela grandeza de espírito e pela enorme capacidade de enfrentar a dor, impossíveis de serem compreendidas sem a heroicidade da virtude da fé. Quem analisa a expressão de seu semblante percebe não terem sido apenas suas inegáveis qualidades humanas a causa do êxito de suas obras, mas sim as tremendas lutas interiores que acompanharam tais conquistas. “Sua vida, como todas as verdadeiras vidas, se forjou na prova da escuridão”.

Quem hoje se detém na consideração da ingente obra levada a cabo por Santa Maravilhas compreende que os sofrimentos físicos e morais aceitos com abnegada resignação foram o preço do maior ciclo de fundações carmelitanas depois do empreendido pela própria Santa Teresa.

Fundação de onze novos carmelos

Atraídas pela extraordinária vida sobrenatural que se desenvolvia em torno de Santa Maravilhas, numerosas jovens batiam às portas do convento pedindo admissão: “Parece mentira que, estando o mundo como está, haja tantas vocações para esta vida, porque realmente há muitíssimas, e é preciso fazer tudo quanto se possa para ajudá-las”.

Decerto os fautores da Guerra Civil viram-se frustrados em seus intentos ante o poder de atração desta religiosa, que não só reconstruiu e repovoou o convento destruído, como também erigiu dez novos, além de empreender a reforma daquele no qual ela mesma ingressara.

Coroando todos os seus trabalhos pela causa carmelitana, pôde ainda realizar um opus magnus: a reforma espiritual e material do Convento da Encarnação de Ávila, onde viveu Santa Teresa por vinte e sete anos. Esses novos carmelos nasceram no melhor estilo teresiano, fazendo reviver em pleno século XX as páginas das Fundações nas belas terras castelhanas.

O inimigo da salvação não podia suportar tamanho golpe e aplicou-se a atrapalhar a vida regular nos conventos. Por isso coube a Santa Maravilhas enfrentar a fúria do demônio com vigorosas intervenções exorcísticas, conforme se registra em seu processo de canonização: “Ela não teve carismas especiais e destacados, mas precisou enfrentar terríveis manifestações do demônio, inclusive externas”.

Deixar-se levar pela vontade divina

O trato assíduo com as almas no desempenho do cargo de priora, ocupado desde a juventude até a morte, aos oitenta e quatro anos, proporcionou a Santa Maravilhas um conhecimento profundo da natureza humana e, hélas, dos muitos obstáculos colocados por nós às moções interiores da graça:

“Creio que nosso nada e nossa miséria não importam em absoluto ao Senhor; de ajeitar, limpar e mudar, Ele Se encarrega; a questão é que O amemos e façamos tão nossa a sua vontade divina […], que só ela governe nossa vida, nas coisas grandes e pequenas, externas e internas, e não nos ocupemos senão em cumpri-la e, sobretudo, em deixar que ela se cumpra em nós”.

Resumindo esta orientação invariável dada às suas religiosas, repetia-lhes com verve espanhola e muita graça, ao perceber em alguma delas uma oposição voluntária aos desígnios de Deus: “Si tú le dejas… – Se tu O deixas agir…”

No Carmelo de La Aldehuela, próximo ao Cerro de los Ángeles e um dos últimos por ela fundados, veio a falecer em 11 de dezembro de 1974.

Sua morte foi serena e deixou às suas filhas e à posteridade esta mensagem:

“A verdade é que somos felizes! Se o Senhor nos perguntasse disso e daquilo, do momento da morte, da enfermidade da qual quereríamos morrer, de como gostaríamos de estar, etc., só poderíamos dizer-Lhe: ‘Senhor, quando Vós queirais, como Vós queirais, o que Vós queirais…’ Só isto queremos e desejamos. Assim se realizarão plenamente os nossos desejos, que não são outros além da sua vontade”.

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n. 192. Dezembro 2017. Por Ir. Carmela Werner Ferreira, EP.

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