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Santa Juliana Falconiere

No dia 19 de junho, a Igreja também lembra a memória de Santa Juliana Falconiere, fundadora do ramo feminino da Ordem dos Servitas, a das Mantellatas.

Redação (19/06/2022 08:34, Gaudium Press) No século XIII, Florença tornara-se uma das maiores maravilhas da Itália, pela beleza de sua arquitetura, o rico comércio nela desenvolvido e o valor dos tecidos, pinturas e demais obras de arte ali produzidas.

Tais maravilhas, porém, não conseguiam satisfazer os anseios de sete prósperos comerciantes da cidade, que buscavam um tesouro muito mais precioso. Para obtê-lo, decidiram dedicar-se ao serviço da mais alta das soberanas: Maria Santíssima. E tanto os uniu e elevou este sublime exercício que, deixando na penumbra seus respectivos nomes de família, passaram eles para a História como os Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servos de Maria, os servitas.

Caríssimo Falconieri, pai de Juliana, conhecia-os de perto, pois um deles era seu irmão Aleixo. Abastado e bem-sucedido, aquele não era indiferente à exemplar piedade deste. Passou Caríssimo por um estado de conversão e teve escrúpulos de haver sido desonesto em algum de seus negócios, pelo que, como eventual reparação, deu muitas esmolas.

A atitude modelar do aristocrata florentino marcou de forma decisiva outro membro desta abençoada família: a própria filha, que lhe fora concedida pela Providência em 1270, quando ele e sua esposa estavam já em idade avançada.

Alma cheia de grandes e pressurosos desejos

Havendo perdido o piedoso pai quando muito pequena, Juliana sujeitou-se com agrado à influência de seu tio religioso, cuja longa vida de humildade, dedicação e entrega a tocavam mais a fundo do que a caritativa generosidade do progenitor. Aleixo, por sua parte, reconhecendo a bênção incomum que pairava sobre sua sobrinha, fazia notar à cunhada que não havia dado à luz uma menina, mas um “anjo”…

Com a alma sempre voltada para as realidades superiores, a pequena progredia com rapidez nas vias da virtude. Desprezava os prazeres fúteis, os adornos extravagantes, os trajes da moda e os vistosos penteados. Não perdia um instante sequer de seu tempo contemplando-se no espelho; empregava-o em práticas mais valiosas, como orações, leituras espirituais e cânticos de salmos em louvor a Deus e sua Mãe Santíssima.

Consagrada a Deus com apenas 14 anos

Em 1284, resistindo aos insistentes pedidos maternos para que se casasse, fez o voto de virgindade. Dócil aos conselhos do tio e admirada por sua conduta, pedia ela para também fazer parte dos servitas.

À época, já era São Filipe Benício o superior geral da ordem. Sob sua direção, havia-se criado um grupo de damas que daria origem às religiosas terciárias da Ordem dos Servitas. Entre elas contava-se uma prima de Juliana, chamada Joana, e uma irmã do próprio São Filipe. Elas se tornaram conhecidas pelo nome de mantellate, devido ao amplo véu negro — em italiano, mantello — que lhes cobria o hábito e descia quase até os joelhos.

Não tardou o superior em discernir nas súplicas daquela adolescente um especial desígnio da Providência. A pressa de entregar-se a Deus com tão pouca idade era sinal de grande vocação e São Filipe acedeu a seu pedido, concedendo-lhe o mantello.

Estar revestida de um tecido de lã rústica, símbolo dos tormentos padecidos por Cristo e sua Mãe Santíssima, constituiu um imenso gáudio para Juliana. Não obstante, maior foi sua compenetração da necessidade de levar uma vida quase monástica, apesar de ainda seguir morando em sua residência.

Penitências e jejuns passaram a ser um meio de sofrer por Cristo e com Cristo: às quartas e sextas-feiras não se alimentava a não ser da Sagrada Eucaristia; aos sábados, apesar de consentir em tomar um pouco de pão e água, castigava seu corpo com cilícios, cadeias de ferros e outros instrumentos usados para este fim, os quais só foram encontrados após sua morte.

Aumentando cada vez mais suas orações, permanecia pouco tempo em casa e muito na igreja, absorta em contemplação, junto à imagem da Virgem com seu Filho crucificado.

Configurar-se com o espírito de São Filipe Benício

Depois de admitir Juliana na ordem, São Filipe Benício permaneceu mais um tempo em Florença. Pôde o Santo comprovar pessoalmente, então, as maravilhas de virtude que o Altíssimo colocava naquela alma privilegiada, e Juliana via nele o caminho que a conduzia a Deus, constituindo-o seu modelo e seu guia. Entre a discípula e o mestre criou-se um relacionamento repleto de admiração, numa inteira confiança recíproca.

Após a partida de São Filipe para o Céu, ela se propôs a imitá-lo com todas as forças de sua alma, seguindo com empenho os conselhos que dele recebera, guardados como um tesouro em seu coração. O mesmo fervor que a levara a pedir o hábito, a impulsionava agora a configurar-se com o espírito e a mentalidade do Santo. Na alma deste varão, ela via representado todo o ideal da instituição dos servitas.

Não tardaram a juntar-se a ela várias outras mantellate que, progredindo muito na vida espiritual, desejavam abraçar uma via de maior perfeição. Algumas delas — Beata Joana Soderini, Beata Subilia Palmieri, Beata Francisca Cammilli, Beatas Agnesa e Angela Uguccioni, Beata Rosa de Siena — seriam elevadas à honra dos altares. Até a própria mãe de Juliana se sentiu entusiasmada a seguir seus passos.

Estruturação de um ramo feminino servita

Em nada Juliana decepcionava suas discípulas. A pressa em praticar atos de amor crescia dia a dia em sua alma, dando azo a novas mortificações: flagelava-se com frequência, concedia ao descanso brevíssimo tempo e dormia sobre o chão duro.

Quando sua mãe entregou a alma a Deus, nossa Santa resolveu — com o consentimento do segundo sucessor de São Filipe Benício, André del Borgo do Santo Sepulcro — passar a viver em regime conventual, com suas seguidoras. Começava a se constituir por suas mãos um novo gênero de vida religiosa, que teria sua aprovação definitiva, enquanto congregação, no século seguinte, com uma bula do Papa Martinho V. E em 1718 a Sagrada Congregação dos Ritos, no decreto de autorização do Ofício de Santa Juliana, a declara fundadora deste ramo feminino.

Suas irmãs de vocação a tinham, de fato, como superiora, tanto por ter sido uma das primeiras a receber o hábito como por suas virtudes. Considerava-se, todavia, a última entre todas.

Apesar de não faltar ardor e zelo na comunidade nascente, era necessário preparar uma regra que ajudasse as religiosas a estruturar suas vidas em função do ideal da fundação. Julgando ter chegado o momento oportuno para redigir o regulamento das novas irmãs, Juliana pôs mãos à obra, aconselhando-se com seu santo tio, Aleixo Falconieri, que ainda vivia.

Amor primaveril intensificado pela observância da regra

Uma vez tendo entrado em vigor a regra, ela mesma pôs-se a observá-la com a maior exatidão, governando a comunidade com singular prudência. Sabia que a dupla condição de fundadora e superiora em nada a isentava desta observância. Pelo contrário, dela exigia um exemplo de maior fidelidade. Movida por tão poderoso estímulo, toda a comunidade tornou-se um modelo de retidão de costumes para toda a cidade de Florença.

O amor primaveril de Juliana em nada diminuíra com a regra, inclusive se intensificara com o cumprimento dela. Tornou-se frequente que de seus lábios saísse esta exclamação: “ninguém tira de meu coração o meu amor Crucificado!”. Fruto deste amor era um vivíssimo ódio ao pecado. Só com ouvir pronunciar esta palavra sentia um enorme horror; certa vez chegou a cair sem sentidos ao ser-lhe narrado o relato de uma ofensa feita a Deus.

E não faltaram em sua vida as obras de caridade: empregava muito tempo em cuidar dos doentes nos hospitais e distribuiu entre os pobres, com alegria, as muitas riquezas de sua família.

Amor em resposta ao amor

Uma existência inteira consumida na pressa de sofrer para dar provas de amor não podia ficar sem resposta da parte de Deus, e Ele reservou para o fim de seu percurso terreno a maior demonstração do divino amor.

No ano de 1341, encontrava-se Juliana em grave estado de saúde. Seu estômago, debilitado por tantas penitências, já não retinha os alimentos. Os médicos declararam-se impotentes ante o avanço da enfermidade e anunciaram estar próxima sua partida deste mundo. Sem interromper o colóquio com o Anjo da Guarda e a meditação acerca das dores da Virgem Santíssima, em cuja honra tomara o hábito, Juliana permanecia com os olhos fixos no Crucificado. As horas que ainda lhe restavam pareciam longas, por sua enorme ânsia de estar definitivamente com Ele.

Tomando um pouco de fôlego, conseguiu ela dizer:

“Ó meu doce Jesus”, e expirou!

Algo, entretanto, a fazia sofrer sobremaneira: já não podia receber o Pão Sagrado, o qual fora o principal sustento de sua vida e havia sido praticamente seu único alimento naqueles últimos dias. Desconsolada, durante a Unção dos Enfermos, Juliana pedia ao sacerdote que pelo menos lhe permitisse oscular a Sagrada Hóstia. Não sendo atendida, rogou com lágrimas que, então, ele consentisse em aproximá-la ao máximo e a depositasse em seu peito.

Vendo a caridade ardente com que aquela súplica era feita, o ministro de Deus decidiu conceder-lhe esta derradeira graça. Estendeu-lhe no peito virginal um véu e sobre ele o corporal, e neste depositou a Forma Consagrada. Tomando um pouco de fôlego, conseguiu ela dizer: “Ó meu doce Jesus”. E expirou! Para a admiração de todos que a rodeavam, a Sagrada Hóstia desaparecera.

As religiosas, porém, logo viram esclarecido o maravilhoso fenômeno. Ao prepararem para o sepultamento o castíssimo corpo de sua fundadora, constataram, cheias de enlevo, a marca da Sagrada Hóstia impressa em seu peito: penetrando os tecidos e até as carnes de Juliana, Jesus entrara em seu coração para atender as últimas aspirações de quem tanto O amara. Deixava patente, assim, o quanto a plenitude do amor divino ultrapassava a pressa de amá-Lo que abrasara o coração da Santa durante toda a sua vida.

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho, n. 174, junho 2016. Por Ir. Maria Teresa Ribeiro Matos, EP.

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