Rodrigo Díaz de Vivar: o Cid Campeador
Qual foi a maior vitória de Rodrigo Díaz de Vivar, o Cid Campeador? É de se crer que seu maior triunfo foi, por corresponder à graça, ter se tornado um varão símbolo, cuja memória jamais se apagará.

Foto: Wikipedia
Redação (23/06/2026 16:20, Gaudium Press) Trágicas eram as condições em que se encontrava a Espanha depois da invasão muçulmana. Tendo sido conquistada pelos árabes, inimigos irredutíveis da Religião Católica, a Espanha viu-se submetida a uma fúria destruidora: igrejas fechadas, o culto sagrado suprimido e os ministros do Senhor assassinados!
Entretanto, pairavam sobre essa nação desígnios grandiosos da Providência. Deus suscitou heróis valorosos para enfrentar com denodo e intrepidez os inimigos do reino e da fé. Entre eles, destacou-se Rodrigo Díaz de Vivar, valoroso guerreiro dos reinos de León e Castela (províncias da Espanha), varão audaz e corajoso cuja força de alma o levou a praticar a religião com galhardia.
A vassalagem e o desterro injusto
“Nascido no povoado de Vivar, ao norte de Burgos, no ano de 1043, filho de Diego Laínez – um guerreiro famoso de Castela a seu tempo –, Rodrigo foi criado e educado na corte real ao lado do infante Dom Sancho, filho de Fernando I de Castela, o Magno”[1].
Quando contava somente dezenove anos, recebeu de Dom Sancho as armas de cavaleiro. Após a morte de Fernando I, foi nomeado príncipe de toda a hoste real e porta-estandarte ou alferes.
“Homem de estatura regular, de costas largas, de olhos vivos e longa barba negra”,[2] Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido também como o Campeador, com apenas 23 anos, ascendeu ao maior cargo do reino.
“Nos combates, revestia-se de uma incomparável cota de malha, sobre a qual cingia a espada adamascada em ouro. Empunhava a lança na mão direita; sobre a cabeça, o elmo resplandecente chapado em prata e adornado ao redor com um diadema vermelho de eletro; no braço esquerdo, segurava o escudo, todo trabalhado em ouro, com um dragão em atitude feroz pintado ao centro. E, por fim, montava um cavalo de origem africana”.[3]
Em 1066, foi o capitão supremo das forças do reino de Castela, responsável por fazer valer a justiça em todo território real. O alferes real era respeitado por todos seus súditos com inteira submissão e temido pelos inimigos.
Contudo, com a morte de Sancho II, rei de Leão e Castela, a situação de Rodrigo no reino tornou-se delicada. O novo senhor soberano, Afonso VI, recebeu os votos de vassalagem do Campeador, conforme o costume da época. Nas relações inicialmente cordiais e harmônicas com o monarca, ele foi incumbido de recolher os impostos reais que Sevilha devia ao reino.
Porém, após cumprir a missão que recebera, espalhou-se na corte real a calúnia de que Rodrigo Díaz havia roubado parte do tributo sevilhano. É a fiel vassalagem que obtendo a vitória, granjeia juntamente a inveja, a traição e o desterro!
Entregue à proteção divina, o Campeador deixou o reino de Castela, mas antes de transpor o limite das terras castelhanas, dirigiu-se à Igreja da Virgem Santa Maria, pôs-se de joelhos, ciente de que sua melhor arma se encontrava na oração e no recurso ao sobrenatural, dado que: “A vitória no combate não depende do número, mas da força que desce do céu” (1Mc 3,19). Assim, para começar seus maiores feitos, recomendou-se Àquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha”, prometendo mandar rezar missas em sua honra como agradecimento pela sua proteção e amparo. Apenas um pequeno número de guerreiros seguiu o Campeador, dispostos a cumprir o nobre ideal do cavaleiro: implantar em todas as terras de Espanha a gloriosa cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!
Da resistência ao combate
Após ter sido injustamente expulso de Castela, Rodrigo Díaz e seus guerreiros viram-se cercados numa fortaleza. Os mouros, muito superiores em número, tentavam vencê-los pela fome. O Campeador, após reunir seus cavaleiros em conselho, decidiu combater os inimigos ao despontar da aurora.
No dia seguinte, o Campeador disse aos seus:
— Vós, Pedro Bermúdez, tomai meu estandarte. Bravo sois e o defendereis lealmente, mas não ataqueis enquanto não vo-lo ordene.
Osculou ele a mão do Cid e recebeu o estandarte.
Abriram-se as portas e saíram todos.
Os sentinelas mouros, ao vê-los, correram a avisar seus exércitos. Com pressa armaram-se os mouros! Tal foi o ruído dos tambores que a terra estremeceu. Armaram-se prontamente e formaram suas fileiras, trazendo eles duas bandeiras principais.
Já se adiantaram as fileiras dos mouros para enfrentar o Cid e os seus.
— Quietos, soldados, ninguém se mova daqui. Não saia um só das fileiras enquanto eu não mandar.
Mas Pedro Bermúdez não se conteve. Com o estandarte na mão esporeou seu cavalo:
— Deus vos valha, Cid Campeador leal! Vou meter vosso estandarte naquele esquadrão maior. Agora veremos como sabem protegê-lo os que a isso estão obrigados.
E esporeando o cavalo avança contra o troço de exército mais compacto, onde os mouros o esperavam para arrancar-lhe a bandeira.
E o Cid brada:
— Ajudai-o, por caridade!
Então ergueram os escudos diante do coração, abaixaram as lanças envoltas cada uma no seu pendão, inclinaram as cabeças, e correram para os ferir com energia!
— Atacai-os, cavaleiros, por amor de Deus! Eu sou Rodrigo Díaz, o Cid Campeador!
Caíram todos sobre o esquadrão onde combatia Pedro Bermúdez.
Ah! se tivésseis lá visto tantas lanças subir e descer, tantos escudos novos perfurados e quebrados, tantas cotas rasgadas e com as malhas perdidas, tantos pendões brancos erguerem-se vermelhos de sangue, e tantos cavalos sem cavaleiro…
Os mouros invocavam Maomé; os cristãos, São Tiago. Em pouco tempo, cerca de mil e trezentos mouros jaziam mortos.
Ao bom Minaya Alvar Fañez os mouros mataram o cavalo, e as tropas cristãs o auxiliaram prontamente. Também quebrou ele a lança, mas deitou mão à espada e, mesmo desmontado, continuou dando golpes violentos.
Viu-o o Cid, e aproximando-se de um general mouro que montava um excelente cavalo, deu-lhe uma espadagada que, cortando-o pela cintura, fez cair ao chão a metade do corpo. Depois chegou-se a Alvar Fañez para oferecer-lhe o cavalo. Montou Alvar Fañez sem soltar a espada e continuou lutando valentemente entre as forças inimigas, desfazendo a quantos atingia.
No entanto, o Cid, que em boa hora nasceu, desferiu três golpes contra o emir Fariz: dois falharam, mas o terceiro acertou, fazendo jorrar o sangue pela couraça abaixo. O emir virou as costas e tentou abandonar o campo. Mas, com aquele golpe, foi ganha a batalha!
Martín Antolínez lançou contra o mouro Galvez uma espadagada tão tremenda que lhe arrancou os rubis do elmo e, rachando-o, entrou-lhe na carne. Não quis o emir esperar o segundo golpe.
Derrotados foram os emires Fariz e Galvez: dia de glória para a Cristandade! De todos os lados, fogem os mouros.
Ao encalço deles correram as tropas do Cid.
Tantos mouros caíram mortos que houve poucos sobreviventes. Então, começaram a retornar os guerreiros do Cid que os perseguiam.
Vendo chegar os seus, ele exclamou: “Graças a Deus, que está no céu, a vitória é nossa!”[4]
A maior vitória
Não é fácil escolher uma entre tantas vitórias do guerreiro invicto. Teria sido esta batalha que acabamos de descrever? Por outra, não seria a vitória da lealdade e integridade do fiel cavaleiro perante as injustiças do Rei Afonso VI, que por duas vezes o desterrou?
Afinal, qual foi a maior vitória de Rodrigo Díaz de Vivar, o Cid Campeador? É de se crer que seu maior triunfo foi, por corresponder à graça, ter se tornado um varão símbolo, cuja memória jamais se apagará.
Quiçá, o amor a Deus que o levou a dobrar os inimigos da religião, ao mesmo tempo em que construía igrejas para honrar a Santíssima Virgem e os Santos, favorecendo assim o culto católico, fez dele o cavaleiro ideal.
Por Jorge Braga
[1] CEBRIÁN, Juan Antonio. La Cruzada del sur. La Reconquista: de Covadonga a la toma de Granada. Madrid: La Esfera de los Libros, 2003, p. 112.
[2] PEMAN, José María. Breve Historia de España. Cádiz: Cultura Hispánica, 1950, p. 105.
[3] MENÉNDEZ PIDAL, Ramón. La España del Cid. 7. ed. Madrid: Espasa-Calpe, v.1, 1969, p. 288
[4] Cf. POEMA del Cid. Espasa-Calpe: Madrid, 1970, p. 63-71. (Trechos selecionados)





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