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Revolução inglesa

A Revolução inglesa foi uma etapa do processo revolucionário iniciado pelo protestantismo e que hoje atingiu seu paroxismo. 

Foto: Wikipedia

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Redação (14/04/2026 08:55, Gaudium Press) No século XVII, o protestantismo e as seitas dele oriundas convulsionaram diversos países da Europa, exceto a Espanha devido ao Rei católico Felipe II.  Na Inglaterra, além das atrocidades praticadas pela tirana Elisabeth I, essas heresias promoveram revoltas, perseguições e guerras designadas “Revolução inglesa”.

“Qual nova Ester junto a um novo Assuero”

Tal Revolução, impulsionada pelo igualitarismo, entre outros crimes hediondos, fez decapitar o Rei Carlos I e aboliu a monarquia.

Filho do Rei da Escócia Jaime VI e neto de Maria Stuart – rainha católica morta por ordem da protestante Elisabeth I –, Carlos I nasceu nesse país, em 1600.        Tendo seu pai herdado a coroa inglesa em 1603, tornando-se Jaime I, sua família mudou-se para a Inglaterra. Em 1625, morreu seu progenitor e Carlos I tornou-se Rei da Inglaterra, Irlanda e Escócia.

Logo depois, planejou-se seu casamento com Henriqueta Maria, irmã de Luís XIII e tia de Luís XIV, reis da França, a qual contava apenas 15 anos de idade. O Papa Urbano VIII apoiou o enlace e escreveu a Luís XIII dizendo que Henriqueta deveria proteger os católicos oprimidos e interceder por eles qual nova Ester junto a um novo Assuero. Referia-se o pontífice à admirável heroína israelita cuja história é narrada pela Sagrada Escritura – Livro de Ester.

Embora ele fosse anglicano, ambos receberam o Sacramento do Matrimônio e tiveram nove filhos que foram educados conforme a doutrina católica.

Herói para arrastar cavaleiros com fervor guerreiro

960px Sir Anthony Van Dyck Charles I 1600 49 Google Art ProjectAnalisando um quadro de Carlos I, pintado pelo belga Van Dyck, escreveu Dr. Plinio Corrêa de Oliveira que seu nariz em ponta indica, por sua conformação especial, espírito de aventura e de mando. O olhar é profundo como um lago que reflete todo um firmamento de tradições, cultura e princípios. Mas um lago cheio de surpresas, cuja superfície apresenta por vezes tonalidades de ironia e de crueldade.

Um herói feito para despertar, por sua superioridade inata, dedicações sem limites e arrastar ao ataque e à morte brigadas inteiras de cavaleiros ébrios de fervor guerreiro. Feito para pôr em delírios de entusiasmo as multidões.

Entretanto, falta a nota sobrenatural nesta figura. A heresia passou por aí, e deixou sua marca. Há uma hipertrofia do indivíduo nesse homem, uma adoração de si mesmo, uma falta de devotamento a algo do superior a ele – ao Vigário de Cristo, a Deus – que não leva ao Céu, antes prende à Terra.

Um perfeito príncipe católico teria todas essas qualidades e outras ainda, mas não esses defeitos.[1]

Logo no início de seu reinado, houve no Parlamento da Inglaterra uma conspiração cujo objetivo era derrubar a monarquia. O principal líder revolucionário que propulsionou revoltas contra o rei e perseguições aos católicos foi Oliver Cromwell. E Carlos I diversas vezes foi mole diante dele, cedendo a suas ameaças.

Cromwell, traidor e trocista ruidoso

Dr. Plinio descreve a figura de Cromwell, representada pelo miniaturista inglês Samuel Cooper.

Oliver Cromwell by Samuel Cooper“Há, difuso na fisionomia, um lampejo de velhacaria, na carnadura uma intensidade de vida vegetativa que impressiona, talvez não à primeira vista, mas em uma segunda análise. Há qualquer coisa do traidor e do trocista ruidoso e pesado de botequim, no que chamaríamos a segunda camada psicológica desta face em que se espelha, sob todos os aspectos, uma personalidade hercúlea.

“Um Hércules, por certo. Nunca, porém, um Hércules à maneira da Renascença, burilado, lavado, estilizado e penteado com arte discretíssima.

“Há nele um desalinho geral que só não amarrotou a couraça. Cabelos, gola, carnes, tudo está amarfanhado e convulsionado. Tudo lucraria em ser lavado: os cabelos sebosos, o linho da gola, o próprio rosto. Uma desordem que exprime o movimento impetuoso da alma. Uma desordem que é o efeito natural de uma situação interna. Uma desordem em que o personagem se deleita e encontra o complemento de si mesmo. Uma desordem rústica que ele ama também por ser rústica, e em cujo desalinho e rusticidade ele vê, não um mal, mas um bem, e até a nota que deveriam ter todas as coisas, para que o universo fosse simpático e habitável.

“Um universo tumultuoso, inestético, convulsionado, mais parecido com o inferno do que com o Céu. Um universo revolucionário. Um herói triunfante, de uma revolução em marcha, a serviço da inversão da ordem e da hierarquia dos valores”.[2]

Caminhando ao toque de tambores para ser morto

No Parlamento, a dinâmica igualitária se manifestou não só no campo sociopolítico, mas sobretudo no religioso. Os protestantes dividiram-se em três seitas: os episcopalianos só admitiam bispos, os presbiterianos apenas os padres, os niveladores queriam abolir toda hierarquia. Cromwell era nivelador.

Os hereges que se apoderaram do Parlamento efetuaram perseguições contra os católicos, tais como: todos seus filhos menores deveriam ser educados no protestantismo. Tomando conhecimento das cartas de Carlos I ao Núncio apostólico e ao Papa, o Parlamento decretou pena de morte contra quem mantivesse relações diretas ou indiretas com o rei.

Até mesmo a presença de sua esposa, que se encontrava na França, foi negada pelos tiranos.

Conduzido como prisioneiro ao Palácio Westminster, em Londres, Carlos I foi condenado I à morte pelos conspiradores, chefiados por Cromwell. No dia 30 de janeiro de 1649, obrigaram-no a caminhar a pé, ladeado por soldados e ao toque de tambores, até o pátio do Palácio Whitehall. E no cadafalso ali erigido foi decapitado.[3]

A notícia da execução de Carlos I, tio do jovem Luís XIV, provocou na França uma onda de indignação e esboçou-se um movimento para combater os protestantes. Mas o Cardeal Mazzarino o cortou rente.[4]

Precursora da Revolução Francesa

Os acontecimentos ocorridos durante a Revolução Inglesa mostram que ela foi uma precursora da Revolução Francesa.

Em ambas as Revoluções, os problemas religiosos se entrelaçavam intimamente com os políticos, e os partidários do Rei, geralmente afeitos à religião dominante (na Inglaterra o anglicanismo, arremedo natimorto do Catolicismo), se defrontavam com adversários penetrados do espírito de dúvida e de “simplificação” do dogma. Em ambas, por fim, os atores dos primeiros lances foram pseudomoderados, postergados em seguida por exaltados que chegaram até o extremo do regicídio.

Neste sentido, com as variantes que sempre existem quando a História como que se repete a si mesma, Carlos I é bem uma prefigura de Luís XVI, Cromwell um precursor de Robespierre ou Saint-Just, e a Revolução inglesa uma “avant-première” da Revolução Francesa[5].

A Revolução inglesa foi uma etapa do processo revolucionário iniciado pelo protestantismo e que hoje atingiu seu paroxismo.  Afirma Monsenhor João Clá que o caos se estabeleceu no mundo, “a civilização chegou a seu último estágio, no qual não há mais equilíbrio nem senso, não há mais educação, cultura, boas maneiras… Pouco falta para que a humanidade faça vigorar o regime do inferno sobre a terra”.[6]

Peçamos à Virgem Maria que nos conceda a graça da certeza da vitória de Deus contra o demônio e seus asseclas, pois Nosso Senhor afirmou: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Figuras que encarnam concepções de vida. In Catolicismo. Campos dos Goitacazes, n. 77 (maio de 1957).

[2] Idem, ibidem.

[3] Cf. ROHRBACHER, René-François. Histoire universelle de l’Église Catholique. Liège: J. G. Lardinois. 1848, v. 25. p. 252-296. WEISS, Johann Baptist. Historia Universal. Barcelona: La Educación.  s/d v. XI, p. 3-139.

[4] Cf. DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos clássicos (I). . São Paulo: Quadrante. 2000, v. VI, p. 182.

[5] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Op. cit.

[6] CLÁ DIAS, João Scognamiglio.  A certeza da vitória. In Arautos do Evangelho. São Paulo. Ano XXIV, n.287 (novembro 2025), p. 24.

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