Religiosas idosas do polêmico Mosteiro de Goldenstein viajam a Roma sem autorização
Este episódio pode complicar as negociações sobre o futuro das irmãs no convento Kloster Goldenstein e prejudicou a confiança entre as partes.

Foto: realnonnengoldenstein/ Instagram
Redação (03/05/2026 08:02, Gaudium Press) Três religiosas agostinianas austríacas octogenárias, que chamaram a atenção da imprensa internacional no ano passado ao deixarem uma casa de repouso e regressarem ao antigo convento onde viviam, deixaram novamente o mosteiro sob circunstâncias controversas. Desta vez, viajaram para Roma sem permissão oficial e teriam se encontrado com o Papa Leão.
As irmãs Rita, Bernadette e Regina integraram a multidão de fiéis que lotou a Praça de São Pedro na manhã de quarta-feira para participar da audiência geral com o Papa Leão XIV.
Christina Wirtenberger, assistente das religiosas e que as conhece desde a infância, quando era aluna da escola anexa ao convento, revelou à NPR que as irmãs viajaram para Roma “em segredo”. A viagem gerou preocupação entre as autoridades eclesiásticas e levantou questionamentos sobre influência externa, comunicação e obediência às regras da Igreja.
Harald Schiffl, porta-voz do reitor da Abadia de Reichersberg, Markus Grasl – que passou a ser o superior das religiosas – concedeu entrevista sobre o caso. Ele manifestou alívio pelo fato de as irmãs aparentemente terem vivido a experiência em Roma, mas demonstrou profunda preocupação com as condições da viagem. “Todas as três são idosas e necessitam de cuidados médicos”, ressaltou, destacando o risco que a saída não autorizada representou. Ele também demonstrou perplexidade diante do fato de elas terem ocultado a intenção de embarcar para a capital italiana.
A viagem foi facilitada pelo jornalista vaticanista Andreas Englisch e membros de um grupo de apoio. Imagens das religiosas na capital italiana, incluindo relatos de um encontro emocionante com o Papa, circularam publicamente. No entanto, Schiffl questionou os reais motivos por trás da iniciativa. Segundo ele, as religiosas podem ter sido “usadas… para o interesse próprio de várias pessoas”, sugerindo que agendas externas estariam prevalecendo sobre o bem-estar das monjas.
O ponto central da controvérsia é a ausência de aprovação oficial. De acordo com as constituições dos agostinianos, uma viagem como essa exige autorização expressa do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, no Vaticano. Schiffl afirmou categoricamente que nenhuma permissão foi concedida — informação confirmada pelo próprio dicastério.
Retorno ao convento Kloster Goldenstein
As três religiosas já estão de volta ao convento Kloster Goldenstein. A informação sobre o retorno foi divulgada na noite desta última sexta-feira pelas próprias ajudantes das irmãs, que aproveitaram o comunicado para lançar duras críticas contra Harald Schiffl, porta-voz do Comissário Apostólico.
Para as três religiosas, a viagem a Roma foi a realização de um sonho de vida. “Infelizmente, a alegria das irmãs foi bastante estragada por declarações midiáticas de Harald Schiffl, consultor de comunicação vienense e porta-voz do Comissário Apostólico, que, sem qualquer conversa prévia com as irmãs, espalhou inverdades sobre elas”, afirma a nota das ajudantes.
Elas rebatem especificamente quatro afirmações de Schiffl:
– Não houve proibição para a viagem a Roma;
– Não era necessária uma permissão explícita do Dicastério dos Institutos de Vida Consagrada;
– As conversas sobre o futuro das religiosas em Goldenstein ainda nem haviam começado, contrariando a versão de que estavam “próximas de uma conclusão”;
– O Dicastério determinou que o advogado das irmãs e duas representantes das ajudantes participassem das discussões — exigência que até o momento não foi cumprida, pois o Comissário Apostólico ou seu representante não os contataram.
As ajudantes também negam que as religiosas estivessem “desaparecidas” ou incomunicáveis. Segundo elas, as irmãs estavam em Roma com o grupo de apoio e podiam ser contatadas a qualquer momento por esse intermédio. As teorias de que teriam sido levadas contra a vontade ou “sequestradas” foram classificadas como “teorias da conspiração” que causaram apenas espanto e riso.
O papel do jornalista Andreas Englisch
Enquanto isso, o vaticanista Andreas Englisch revelou em entrevista à revista Die Zeit seu envolvimento direto na organização da viagem. Ele contou que, durante uma visita a Goldenstein, prometeu às religiosas que as levaria a Roma caso elas desejassem. Ouvintes de seu podcast arrecadaram 7.500 euros em março, quantia usada para comprar passagens aéreas e alugar acomodação.
Contexto do caso
O caso das três religiosas ganhou repercussão na mídia desde o ano passado. Em setembro, elas deixaram uma casa de repouso da Caritas e, com a ajuda de um chaveiro, recuperaram o acesso ao antigo mosteiro que consideram seu lar. O Mosteiro Goldenstein foi transferido, em 2022, para a Arquidiocese de Salzburgo e para a Abadia dos Cônegos Regulares de Reichersberg, na Áustria. Desde então, as três religiosas construíram uma ampla rede de apoio que as auxilia enquanto permanecem no local que ocuparam.
O episódio expõe profundas divisões: de um lado, as autoridades eclesiásticas que enfatizam a necessidade de obediência; de outro, as religiosas e seu círculo de apoiadores, que defendem o direito de realizar um sonho.
Com o retorno das irmãs, o foco agora volta para as negociações sobre seu futuro em Kloster Goldenstein. A participação exigida pelo Dicastério do Vaticano de representantes das religiosas e de seu advogado pode ser decisiva para que um acordo seja alcançado. O caso continua sendo acompanhado com atenção pela imprensa católica e pela opinião pública.
Com informações katholisch.de





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