Recuperadas anotações em antigo manuscrito cristão
O texto recuperado não revela passagens bíblicas desconhecidas, mas oferece uma visão sobre a vida dos primeiros cristãos que redigiram e estudaram esses textos.

foto: Wikipedia
Redação (30/04/2026 08:53, Gaudium Press) Um grupo de pesquisadores recuperou 42 páginas perdidas do Codex H, um importante manuscrito grego do século VI que contém as Cartas de São Paulo. A descoberta foi possível graças ao uso de imagem multiespectral e datação por radiocarbono, e oferece novas perspectivas sobre como os primeiros cristãos liam, compreendiam e interagiam com as Escrituras.
A pesquisa foi liderada pelo professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, na Escócia, especialista em divindade e crítica bíblica. O projeto, que durou três anos, não revelou passagens bíblicas desconhecidas até hoje, mas traz um rico material sobre a vida e a espiritualidade das comunidades cristãs antigas.
O Codex H foi produzido no século VI e, séculos depois, no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos (Grécia), os monges o desmontaram. Devido ao desgaste natural que tornava o texto difícil de ler e ao alto custo do pergaminho, as folhas foram reescritas com tinta nova e reutilizadas como material de encadernação e folhas de guarda de outros livros. Com o tempo, os fragmentos se espalharam por bibliotecas na Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França.
Quando o manuscrito foi re-escrito, a tinta fresca causou um efeito chamado “offset”: ela transferiu traços para as páginas opostas, criando imagens espelhadas fracas — os chamados “textos fantasmas”. Usando imagem multiespectral (técnica que captura fotos em diferentes comprimentos de onda de luz), os pesquisadores conseguiram revelar esses traços quase invisíveis a olho nu. Assim, de uma única folha sobrevivente, foi possível recuperar conteúdo de várias páginas que já não existem fisicamente.
Especialistas em Paris confirmaram, por meio de datação por radiocarbono, que o pergaminho realmente pertence ao século VI.
Anotações, poemas e orações revelam a vida dos monges
Uma das partes mais interessantes da descoberta são as anotações feitas pelos monges no Mosteiro da Grande Lavra. Eles registraram poemas, orações e reflexões nas margens das Cartas de São Paulo.
Entre os achados está um pequeno poema bizantino que compara São Basílio, o Grande, aos grandes filósofos da Antiguidade. “É ao mesmo tempo sério e bobo”, comentou o professor Allen. O texto sugere algo como “que Platão e Plutarco se calem diante de Basílio, o Grande, que reflete sobre as grandes leis morais do mundo”. Para Allen, isso mostra que, para aquelas comunidades, a literatura cristã estava acima dos clássicos gregos.
“Essas são pequenas janelas para a vida de pessoas das quais não temos outro registro”, explicou o pesquisador. “Elas revelam o desejo de se aproximar de Deus, de fazer parte de algo maior e de pertencer a uma tradição que continua viva até hoje.”
O Codex H também é um dos exemplos mais antigos do chamado Aparato Eutaliano (Euthalian Apparatus), um sistema antigo de listas de capítulos e títulos usados para organizar as cartas paulinas — bem diferente da divisão em capítulos e versículos que usamos atualmente nas Bíblias.
Uma conexão entre cristãos antigos e modernos
O professor Garrick Allen destaca que as anotações recuperadas — cerca de 100 correções e marcas de leitores posteriores — mostram como as pessoas comparavam diferentes cópias das cartas de Paulo e buscavam chegar ao texto mais correto possível.
“Marcamos nossas próprias Bíblias, fazemos anotações ou refletimos sobre a complexidade desses textos. Isso faz parte de uma tradição muito mais longa de pessoas que vêm fazendo exatamente a mesma coisa há 2.000 anos”, disse Allen.
Ele ressalta que o Novo Testamento (e a Bíblia como um todo) está sempre em movimento: “É algo que as comunidades religiosas continuam recriando a cada geração, à medida que usam esses textos de formas importantes”.
O Mosteiro da Grande Lavra, onde o manuscrito foi usado, mudou pouco em mil anos. “Quando você vai até lá, consegue imaginar o manuscrito sendo usado pela comunidade ainda hoje”, observou o professor.
A pesquisa foi financiada pelo Arts and Humanities Research Council do Reino Unido e faz parte de um projeto maior de estudo de manuscritos antigos do Novo Testamento. Os resultados enriquecem nosso entendimento não apenas sobre o texto bíblico, mas especialmente sobre as pessoas que o copiaram, leram e o transmitiram ao longo dos séculos.





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