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Rachou, mas tem conserto!

Nos relacionamentos que esfriam ou nos projetos que se rompem sob o peso das dificuldades, nossa tendência moderna é o descarte. É mais fácil trocar de amizade, de emprego ou de ideal do que se debruçar sobre os cuidados necessários para reforçar as bases do que está quebrado.

Foto de <a href="https://unsplash.com/pt-br/@aallaguiayoub?utm_source=unsplash&utm_medium=referral&utm_content=creditCopyText">AYOUB AALLAGUI</a> na <a href="https://unsplash.com/pt-br/fotografias/mapa-7dhK2f9SUDY?utm_source=unsplash&utm_medium=referral&utm_content=creditCopyText">Unsplash</a>

Foto: AYOUB AALLAGUI na Unsplash

Redação (16/05/2026 07:22, Gaudium Press) Recentemente, as paredes da casa onde resido — um refúgio de paz e integração na zona rural — testemunharam um pequeno drama doméstico que, a princípio, parecia apenas um transtorno material. Com a ampliação da cozinha, compramos uma pia nova, mas, por morarmos longe, a loja de materiais não fazia a entrega e tivemos de transportá-la numa Saveiro. No trajeto, por essas negligências típicas com a pavimentação dos bairros mais afastados — onde acaba o asfalto e começam os buracos —, e com os inevitáveis solavancos do veículo, o objeto chegou ao destino partido. Uma rachadura profunda, que sentenciava o fim de sua utilidade antes mesmo do primeiro uso, pois chegou dividida em duas metades.

A tirania do descarte

A lógica do mercado, essa engrenagem voraz que gira apenas para moer o novo e triturar o que apresenta falhas, foi implacável. Ao buscarmos socorro em marmorarias e especialistas, a resposta vinha em coro, quase como um veredito judicial: “Não tem conserto”, diziam com um desdém institucionalizado. Um único técnico aceitou avaliar o dano, mas o preço cobrado pelo reparo era um verdadeiro insulto à inteligência, superando com folga o valor de uma peça nova.

A mensagem subliminar era clara e cruel: jogue fora, descarte, alimente o lixo, compre outra. Vivemos em uma era onde consertar se tornou um ato de rebeldia, pois o sistema é desenhado para que a substituição seja sempre o caminho de menor resistência, ainda que seja o de maior desperdício.

O encontro com a honestidade

Fomos, então, a uma loja de materiais de construção, dessas que exalam o cheiro de cimento e a promessa da obra concluída, em busca de uma pia nova. O objetivo era a rendição ao consumo. Ao questionar o preço, o atendente, um homem com uma serenidade rara de se encontrar atrás de um balcão de vendas, parou o que estava fazendo para entender o cenário. “É com gabinete ou sem?”, perguntou ele, não para calcular a comissão, mas para visualizar a necessidade.

Ao ouvir a história da peça quebrada e da cozinha sem pia, ele fez algo que desafia todas as regras do capitalismo de conveniência: recusou-se a vender.

Em vez de empurrar o produto mais caro para bater sua meta diária, ele ofereceu o caminho estreito e digno da restauração. Apresentou uma cola específica e, mais do que isso, doou a “receita” do milagre doméstico. Com a paciência de um mestre, explicou como deveríamos proceder: acabar de descolar a cuba, fazer cortes precisos com a Makita na parte inferior para criar aderência, acomodar pequenos ferros para dar estrutura à peça e, por fim, aplicar o adesivo que selaria a ferida da cerâmica.

A meta da humanidade

Aquele homem não estava apenas vendendo um tubo de cola; ele estava doando seu tempo e conhecimento para salvar o patrimônio de um estranho. Seguindo suas instruções detalhadas, um profissional de confiança executou o trabalho. E a pia, que antes era uma candidata ao entulho, hoje serve à casa com a dignidade de quem venceu o abismo. Ela carrega uma cicatriz, é verdade, mas é uma cicatriz que conta uma história de resistência.

Essa experiência me deixou inquieto sobre o modo como conduzimos nossas relações. O mundo atual parece saturado de pessoas que querem nos vender algo a todo custo: um objeto, um utensílio, uma ideia, um estilo de vida, uma solução mágica que ignora as ferramentas que você já possui. Aquele vendedor, que certamente tinha contas a pagar e metas a bater, escolheu a meta da humanidade. Ele enxergou o problema do cliente antes de enxergar o bolso do comprador.

O ensino das rachaduras

Será que ainda somos capazes de oferecer a cola em vez de exigir a troca total? Na lida da vida, nos relacionamentos que esfriam ou nos projetos que racham sob o peso das dificuldades, nossa tendência moderna é o descarte. É mais fácil trocar de amizade, de emprego ou de ideal do que se debruçar sobre os cuidados necessários para reforçar as bases do que está quebrado.

A verdadeira sabedoria reside no olhar daquele homem: o olhar que não vê um “alvo de consumo”, mas uma pessoa em busca de solução. Que possamos ser menos vendedores de ilusões plásticas e mais instrutores de remendos possíveis. Afinal, todos nós temos nossas próprias rachaduras internas. O que nos mantém inteiros e funcionais não é uma perfeição ilusória e intocada, mas a mão estendida de quem nos ensina que, com a estrutura certa e a cola da empatia, os pedaços podem, sim, voltar a ser um todo cheio de propósito.

Por Afonso Pessoa

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