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Quero comungar! Quero me confessar!

A Igreja pode viver sem Sacramentos?

Redação (18/06/2020 16:00, Gaudium Press) Caminhamos para três meses de quarentena. Três meses sem trabalho, três meses sem escolas, três meses sem igreja. Para tentar sanar as carências que daí decorreriam, o trabalho se tornou home office, o colégio ficou “à distância” e a igreja via streaming.

É dispensável aqui avaliar as competências do trabalho ou do estudo à distância. Sabemos que não existe comunhão online, batismo ou unção dos enfermos virtual. Inexistem aplicativos para confissão. Existem processos de divórcio ou nulidade matrimonial pela internet, é verdade, mas não o casamento.

No Brasil, muitas dioceses se mantêm ainda sem sacramentos, após três meses de quarentena.

Como a Igreja enfrentou pandemias no passado?

Apesar de tudo, a quarentena teve alguns efeitos vantajosos – afinal, o mal não é absoluto. Retirados um pouco do corre-corre da vida, impedidos de passear no shopping, livre das tarefas escolares, o tempo ficou mais largo e agora há tempo para sentar na poltrona e pensar.

Pensando, com o problema dos Sacramentos na cabeça, começa-se a recordar fatos e pessoas. Buscando soluções para os dias de hoje, passei a me indagar: como a Igreja enfrentou as pandemias no passado?

A Virgem Imaculada mandou que Santa Catarina fizesse cunhar esta imagem numa medalha, e prometeu que quem a usassem receberia dela muitas graças.

Lembrei-me que em outros tempos o ponto de honra dos religiosos era estar junto aos leitos dos doentes. Recordei-me ainda que a Medalha Milagrosa recebeu seu nome – “milagrosa” – durante uma epidemia de Cólera, em Paris. Veio-me à mente a longa lista de sacerdotes que em épocas de calamidade, como guerras e conflitos, partiam para a primeira fileira, a fim de levar conforto espiritual aos combatentes. Não enfrentavam vírus e bactérias, mas projéteis e bombas.

Lembrei-me ainda de um livro que li há pouco, sobre a vida de São Pio X.

Conforto espiritual numa pandemia

São Pio X é um exemplo para toda a Igreja, especialmente para o clero em todos os seus escalões: pároco de Salzano, cônego de Treviso, Bispo de Mântua, Cardeal Patriarca de Veneza, Papa.

Durante todo o seu percurso eclesial, o Papa Sarto seguiu a mesma linha de conduta. Preocupava-se com a catequese, com a formação do clero, com os Sacramentos. Foi ele o Papa que autorizou a comunhão às crianças, que promulgou um Catecismo e iniciou a edição do Código de Direito Canônico, que salvou a Igreja de graves desvios.

Alto prelado ou simples pároco, São Pio X foi sempre muito dedicado ao rebanho a ele confiado. Como o Bom Pastor, carregava as ovelhas nos ombros. Ou, em termos mais contemporâneos, não temia o “cheiro das ovelhas”. Mas ele dizia e fazia.

Epidemia de cólera

Em agosto de 1873, a epidemia de cólera chegou a Salzano, onde Giuseppe Sarto era pároco. Salzano fica no norte da Itália – na mesma região que o coronavírus fez tantas vítimas nos últimos meses.

Como se sabe, a cólera é causada por uma bactéria – o vibrião colérico – e pode matar em poucas horas. As más condições de saneamento básico aumentam o contágio da doença. Porém, ao contrário da Covid-19, que é motivada por um vírus e se espalhou rapidamente em todo o globo, a propagação da cólera foi lenta e teve surtos pontuais em diversos países ao longo dos anos. No século XIX, foram registradas seis pandemias de cólera.

Frente aos perigos de contágio, o pároco Sarto não recuou. De leito em leito, ia o padre exemplar. Distribuindo os Sacramentos, viático, confissão e unção, consolando e confortando os contagiados. A assistência eclesiástica era onipresente. Durante os meses de pandemia, de agosto a outubro, mais de cem salzanenses contraíram a cólera. Morreram mais de quarenta. Todos foram assistidos pelo sacerdote.

Confissão e um copo de vinho

Conta-se deste período um fato pitoresco. Os pobres camponeses temiam os médicos, pois corria na boca do povo que os oficiais de saúde envenenavam os doentes para acelerar o processo da bactéria e evitar mais contágios… Esses problemas não são de hoje. Um velho febril pediu a confissão ao Padre Sarto:

– Reverendo, atende-me em confissão, porque já estou morrendo!

São Pio X manda trazer um litro de vinho para dar ao agonizante. O velho recusa, temendo o veneno. O santo toma um gole para mostrar que não há perigo. O doente, aliviado, esvazia a garrafa e dorme profundamente. Passam-se os dias e o homem não morre. Bom remédio: confissão e um copo de vinho!

Comunhão, confissão, unção, missas. Serviços essenciais que salvaram o povoado de Salzano.

Até quando vai durar a pandemia e a quarentena?

A essa pergunta ainda devemos acrescentar: quando voltarão as missas? Não as missas pela internet, mas aquelas como Deus manda, na igreja, com os fiéis em torno do altar.

A doutrina da Igreja ensina que os Sacramentos são a vitalidade da Igreja, são os veículos da graça. Reduzi-los é como que tentar asfixiar o fluxo da graça da Esposa Mística de Cristo. Em uma palavra, sem Sacramentos, a Igreja não pode viver. Quanto aos fiéis: é quase a morte da alma.

É sem dúvida necessário obedecer às determinações do Estado e dos governantes, como ensina São Paulo (cf. Rm 13,1-2), quando de acordo com a razão e a fé. Contudo, agora que a quarentena começa ser suavizada, não é o momento de voltarmos progressivamente aos sacramentos?

Pastores, as ovelhas têm sede.

Por Paulo da Cruz

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