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Quem manda em casa sou eu!

A boa educação é um bem inestimável, um valor que dinheiro nenhum paga e, quem a recebe, pode se dizer bem-aventurado.

Redação (21/06/2022 09:35, Gaudium Press) Eu sou da época da “psicologia do olhar”, um recurso muito usado pelos pais e mães, creio que principalmente por estas, na educação dos filhos. Um olhar de mãe era um olhar que dizia mais que mil palavras. E não estou me referindo aos olhares maternais, cheios de carinho e ternura, que também fazem parte da memória de muitos filhos. Falo mesmo daquele olhar que nos era dirigido quando tínhamos um mau comportamento, sobretudo, na frente de estranhos. Um olhar que nos desmontava, mas nos recompunha de imediato e nos fazia conjecturar sobre o que aconteceria quando chegássemos em casa, ou depois que a visita fosse embora.

Jubileu de Platina da Rainha Elizabeth II

No começo deste mês, pudemos acompanhar pela TV e pela internet alguns trechos da comemoração do Jubileu de Platina da Rainha Elizabeth II. Um evento que reuniu autoridades do Reino Unido e de outros países, além de uma grande multidão. A rainha, elegante e fina, como sempre, agradou a todos com o seu sorriso e os modos condizentes com a sua realeza. No entanto, teve um membro da família real que, em diversos momentos, conseguiu chamar mais a atenção do que ela, o príncipe Louis.

Aos quatro anos de idade, o bisneto real, filho caçula do príncipe William e de Kate Middleton, duquesa de Cambridge, parece deixar bem claro quem é que manda na casa e na família. Em um dos eventos, no dia 02 de junho, quando a rainha apareceu na varanda do Palácio de Bunckingham, acompanhada pelo filho, o príncipe Charles, e outros membros da família real, para assistir ao tradicional desfile militar Trooping the Colour, o pequeno Louis conseguiu se projetar mais do que a bisavó que, do alto de seus 96 anos, deve ter se segurado para não retirar as luvas e lhe dar uns bons puxões de orelha ou, quiçá, um tapa real na boca escancarada.

O comportamento do menino foi notado pela imprensa e bastante divulgado, mas, certamente, incomodou também aos pais que, nas cerimônias do dia 04 de junho, o deixaram de castigo em casa, levando apenas os filhos mais velhos. Entretanto, no dia seguinte, quando ocorreu o esperado Desfile do Jubileu, que reuniu milhares de pessoas, o pequeno príncipe voltou à cena com força total. Dessa vez, porém, a bisavó foi poupada, e o incômodo foi vivido apenas pela mãe.

Birra de criança

A cena em que o garoto gritou, fez caretas, mostrou a língua e tapou a boca da mãe quando ela lhe chamou a atenção, foi filmada e viralizou na rede, com milhares de comentários e opiniões. Muitos o acharam engraçadinho, outros atribuíram o seu comportamento ao tédio da cerimônia e houve, claro, quem criticou a mãe, e também quem a apoiou, dizendo que filhos pequenos – nobres ou plebeus – são todos iguais. Uma internauta disse que sentiu pena da duquesa por ela ser membro da realeza, estar na frente de centenas de câmeras e não poder dar um sopapo no garoto, como uma mãe comum faria. Mas será que faria?

A birra do pequeno Louis tornou-se alvo de opiniões e até de avaliações de especialistas em comportamento, por ser ele quem é, filho de príncipe, neto de príncipe e bisneto da rainha mais longeva da História. Porém, quantos garotos se comportam dessa forma, sem que os pais consigam controlá-los?

Não temos como precisar quando foi exatamente que a educação se perdeu e que os pais deixaram de ter controle sobre os seus filhos. Hoje, em vez daquele olhar firme, da época de minha mãe e, com certeza, da própria rainha nonagenária, os pais baixam os olhos diante das exigências e dos chiliques de suas crianças, com medo delas e com vergonha de quem os observa.

Até há algumas décadas, as mães tinham um grande número de filhos e conseguiam educar bem a todos eles. Hoje, o número de filhos se reduziu para um, com exagero, dois, e os pais não conseguem dominar essas pequenas feras que, antes mesmo de saírem das fraldas, já deixam claro: “Quem manda nesta casa sou eu!” No início, os pais acham isso bonito, interessante, demonstração de personalidade forte. Aos poucos, vão se chateando, perdendo o controle e sendo dominados, até chegar a um ponto em que não têm mais o que fazer.

É muito comum presenciarmos as famosas birras de lojas ou de supermercados. Os pais saem com as crianças e elas querem que eles lhes comprem tudo o que tiverem vontade. Alguns compram, e as exigências só aumentam, pois é normal na criança testar o limite dos pais e, se não encontram esses limites – dos quais necessitam muito em sua formação – elas vão aumentando o nível de exigência cada vez mais. E os que não compram, porque não querem ou porque não podem, precisam enfrentar o choro, os berros, o sapateado e até crianças rolando no chão, gritando como se estivessem mortalmente feridas.

Educar os filhos

Tornou-se comum também vermos mães execrando a maternidade, dizendo que odeiam ser mãe. Na verdade, o que elas odeiam não é ser mãe, mas não conseguir educar os seus filhos, afinal, não há coisa que provoque mais estresse em uma pessoa do que uma criança chata, exigente e mal-educada. Perdeu-se a noção de hierarquia, de autoridade e vive-se sobre a falsa concepção de que as crianças devem crescer livres, que devemos deixá-las fazer tudo o que quiserem e lhes dar tudo o que não tivemos, a fim de que elas não desenvolvam traumas.

Minha velha mãe, que jamais foi uma torturadora ou abusadora de seus filhos, mas que não poupou a eles umas boas palmadas ou chineladas quando saíam da linha, costumava dizer: “É melhor chorar ele do que chorar eu!” Havia muita sabedoria nessas palavras, pois ela sabia que a dor de uns tapas ou de umas chineladas passava rápido e logo a criança estava brincando de novo e, geralmente, não repetia a mesma arte ou mau comportamento, pois sabia que pagaria um preço por isso. Já, o filho que tudo pode, tudo tem e faz o que quer, vai provocar as lágrimas da sua mãe e do seu pai lá na frente, quando eles não terão mais como endireitar o que cresceu deformado pela permissividade e pelo descumprimento do dever de educar.

Educar os filhos é um dever bíblico. E é um dever dos pais. Não é da avó, da tia, da escola. É dever de pai e mãe, juntos, coesos, um não desautorizando o outro, não passando a mão na cabeça diante dos erros. Se o pai e a mãe não mostram ao filho que ele está errado, que está agindo mal, e se não ensinam qual é a forma certa de agir, alguém, em algum lugar, fará isso e o fará desprovido do amor e do carinho que só os pais têm.

É claro que ninguém defende o espancamento e os maus tratos das crianças, mas um bom encaminhamento delas, o ensino da disciplina, das regras, do respeito ao próximo, que começa dentro do lar, na convivência com os pais e os irmãos, e até umas palmadinhas, quando necessárias, não faz mal a ninguém.

Correção paterna

Por circunstâncias alheias à minha vontade, quis a providência que eu tivesse um filho só. Muitas vezes eu precisei dizer não a ele; alguns nãos que até poderiam ter sido sins, se a realidade fosse outra. Repeti muito: “Quando tiver dinheiro, o pai compra…” Ele nunca deu “piti”, nunca se jogou no chão de um corredor de supermercado por querer alguma coisa que eu não pudesse comprar. Ainda hoje, meu coração lamenta não ter podido dar a ele algumas coisas simples e necessárias, para as quais faltou o dinheiro. Lembro, por exemplo, um dia em que saímos, o tênis dele estava furado, choveu e ele, mesmo calçado, ficou com os pés encharcados, ou o dia em que faltou dinheiro para levá-lo à barbearia e eu mesmo me aventurei a cortar o seu cabelo, obrigando o menino a usar boné durante dois meses.

No entanto, quando olho para ele e vejo o homem de bem que ele se tornou, do qual me orgulho, percebo que essas coisas, mesmo que tenha sido difícil não as ter, não lhe fizeram falta e fortaleceram nele o senso de prioridade e de aceitação diante das impossibilidades da vida.

Não importa se é um pequeno monarca, um filho de uma família de classe média ou um filho de pais pobres, a boa educação é um bem inestimável, um valor que dinheiro nenhum paga e, quem a recebe, pode se dizer bem-aventurado.

Pode parecer que exagero diante das caretas e birras do principezinho britânico, mas, para mim, ele é igual a milhões de outros garotinhos mimados e endiabrados, que os pais não conseguem controlar. Trata-se de um pobre menino rico. Felizmente, a monarquia britânica é só pró-forma, literalmente “apenas uma coisa para inglês ver”, pois não seria nada bom pensar que um menino tão incontrolável e petulante um dia viesse a se tornar o rei de uma grande nação.

Por Afonso Pessoa

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