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Qual o significado da Assunção de Nossa Senhora?

Toda a natureza e os anjos refulgiram durante a Assunção de Maria Santíssima. Quando lá entrou, foi coroada como Filha dileta de Deus Pai, Mãe admirável de Deus Filho e esposa fidelíssima do Espírito Santo. O que significa a subida de Nossa Senhora ao céu em corpo e alma?

Redação (12/08/2020 10:08, Gaudium Press) A Santa Igreja nos convida a ter presente a figura de Maria no dia de sua Assunção, própria a nos encher de esperança, pois também nós, embora concebidos no pecado, fomos criados com vistas à ressurreição e chamados a gozar um dia da glória do Céu, dessa sublime realidade que hoje contemplamos com os olhos da fé.

Maria Santíssima: a Arca da Aliança

A Arca da Aliança guardava as Tábuas da Lei (cf. Dt 10, 1-5) e constituía um símbolo da presença de Deus em Israel, pois Ele ouvia com maior benevolência os pedidos feitos diante dela. Esta Arca era uma pré-figura da verdadeira que viria séculos mais tarde. Enquanto a primeira guardou a Antiga Lei, houve outra que, sem deixar de guardar a Lei, conteve também a Graça. Tal Arca se chama Maria. A partir do momento em que o Anjo Lhe anunciou sua eleição como Mãe do Redentor, Ela passou a ser a Arca da Nova Aliança e a gerar um Deus feito Homem para a salvação dos homens — o Criador do universo e d’Ela própria —, que durante nove meses viveu em seu claustro virginal. Se para o resto da humanidade o tributo do pecado original foi pago depois de adquirida a mancha, no caso da Virgem Santíssima, Nosso Senhor aplicou o preço de seu Sangue preciosíssimo antes de criá-La, tornando-A a única criatura isenta da culpa original desde a sua concepção.

Maria estava sujeita à morte?

A imortalidade de que gozavam Adão e Eva no Paraíso não consistia em um dom intrínseco à sua natureza, pois esta, de si, era mortal, dado que a matéria está sujeita à corrupção.  Tratava-se de um favor concedido pela benevolência divina a nossos primeiros pais, o qual se perpetuaria em sua descendência. A morte foi, portanto, um castigo decorrente da desobediência original, como declara o Apóstolo: “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (Rm 5, 12). Ela se tornou uma pena imposta por Deus a todos os descendentes de Adão, uma conditio sine qua non para alcançarem a visão beatífica depois de concluírem o curso desta vida.

Com Nossa Senhora, porém, sucedeu algo completamente sui generis… Sendo Ela filha de Adão, achava-Se sob a lei universal da morte; todavia, isenta da culpa original desde o primeiro instante de sua concepção, não estava sujeita às sequelas do pecado. Ademais, por possuir a plenitude de graça, gozava de todos os dons outorgados a Adão ao sair das mãos do Criador, entre eles o da imortalidade, acrescidos ainda daqueles que Deus reservara exclusivamente para Ela como obra-prima de sua sabedoria.

Com efeito, é edificante considerar que, pelo fato de ser imaculada, nunca sofreu nenhuma enfermidade, não envelheceu ou padeceu a menor mazela decorrente do pecado, e seu corpo não esteve sujeito à decomposição.

Por outro lado, a Maria se aplicariam em grau eminente os méritos da Redenção, enquanto primeira beneficiária do holocausto de seu Filho. Ora, Nosso Senhor morreu para vencer o mal e a morte (cf. II Tim 1, 10); não tendo Ela mal algum, tampouco deveria morrer. Contudo, ao mesmo tempo em que participaria da sublimidade da Morte do Redentor, a sua “morte” seria mais apoteótica que o fim da vida de Adão no Paraíso, se houvesse permanecido inocente, recebendo o prêmio da bem-aventurança após atingir o clímax de seu desenvolvimento físico, moral e sobrenatural. O modo como a Virgem Santíssima passaria desta terra para a eternidade estaria envolto em admirável mistério, intrinsecamente ligado ao plano da salvação e aos desígnios divinos em relação à Esposa Mística de Cristo.

Teria morrido Maria Santíssima? Morte de Nossa Senhora?

No texto da proclamação do dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu em corpo e alma, Pio XII nada declara expressamente a respeito da morte de Maria Santíssima, mas apenas recolhe o sentir comum da Igreja sobre sua dormição: “Quando a Virgem Mãe de Deus passou deste exílio para o Céu, por uma especial providência divina, sucedeu ao seu corpo algo de consentâneo com a dignidade de Mãe do Verbo Encarnado e com os outros privilégios que lhe foram concedidos”. E define “ser dogma divinamente revelado que: a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

É sabido que no Céu, em corpo e alma, encontram-se Jesus, “Primogênito dentre os mortos” (Ap 1, 5), e Maria, que como criatura puramente humana, está muito mais próxima de nós, e, segundo uma sólida linha teológica, também José.

Ensina a doutrina católica ser a caridade uma virtude que se radica na vontade. Quando é muito forte, o amor impele quem ama a unir-se a quem é amado. Todo cristão, no dia do Juízo, deve apresentar seu progresso na caridade, por ser ela imprescindível para entrar no Céu. Ora, houve alguém que partiu desta vida não com amor, mas por amor: Nossa Senhora. Afirma Santo Alberto Magno que “mais obrigação tem de amar aquele a quem se dá mais. À Beatíssima Virgem foi dado mais que a todas as criaturas; logo, estava obrigada a amar mais do que qualquer outra”. E assim o fez, conclui o santo doutor.

De fato, os últimos anos da existência terrena de Nossa Senhora estiveram marcados pela paz e por um intenso comércio com o sobrenatural. Ela era visitada diariamente por seu Divino Filho e seu castíssimo esposo São José, acompanhados de muitos Anjos. Vinham eles conviver um pouco e matar as imensas saudades causadas pela separação.

A cada nova jornada, a cada nova visita, a Virgem intensificava seu enlevo por Eles, até o momento em que já não era possível aumentá-lo, pois seu Coração estava completamente inundado de amor. Não obstante, assim como o fogo jamais se sacia, Ela ardia do desejo de dilatá-lo ainda mais. Nesse ápice, Nosso Senhor comunicou à sua Mãe ter chegado a hora de Ela deixar esta terra e rumar para o Reino dos Céus. Consultou-Lhe, então, se preferia partir sem passar pela morte ou seguir o caminho de todos os homens, aquele por Ele trilhado.

Para Maria a questão não se punha: se Jesus tinha escolhido para Si a morte, e seu virginal esposo havia feito o mesmo, como poderia Ela optar por outra via? Sem a menor vacilação, elegeu a mais perfeita imitação de seu Divino Filho: Ela queria a via da morte! Comprazido com sua atitude, Nosso Senhor disse-Lhe que sua vontade seria respeitada; porém, Ele determinava uma morte sem dor, pois não Lhe permitiria sofrer mais do que já padecera no decurso da vida, notadamente durante a Paixão, a qual, suportada com extremos de coragem, valera-Lhe os títulos de Rainha dos Mártires e Corredentora do gênero humano.

Eis a maravilha de uma criatura humana que, de plenitude em plenitude, de perfeição em perfeição, havia chegado ao extremo limite de todas as medidas, até quase não existir diferença entre a sua compreensão do universo e a própria visão de Deus. O que Lhe faltava?

Num êxtase de amor, adormece no Senhor!

Seu Coração se dilatou tanto de amor que o corpo não resistiu… Um êxtase A levou à eternidade e Ela adormeceu no Senhor, tendo à cabeceira do leito seu Divino Filho e São José! Uma multidão de Anjos cantava e graças superabundantes se faziam sentir.

A passagem do estado padecente para o glorioso não significou para Maria Imaculada uma ruptura dilacerante em seu ser, como ocorre ao comum dos homens. Desde seu nascimento Ela possuíra um constante e intenso trato com os espíritos angélicos, e mais acentuado ainda se manifestou o convívio com seu Filho, o Verbo Encarnado, o qual jamais cessou, mesmo após a Ascensão. Conforme os anos transcorriam, novos universos de graças e dons resplandeciam em sua alma, pois seu conhecimento e seu amor a Deus, embora fossem sempre plenos, eram passíveis de crescimento. Em certo momento, a fé cedeu lugar à visão, e Ela subiu aos Céus pleníssima de virtudes e de glória; em suma, pleníssima da Santíssima Trindade.

Assunção: subida ao Céu por força da graça

Em função disso, é indispensável corrigir certa visualização oferecida por algumas obras de arte, até piedosas, em que Maria aparece envolta numa nuvem, elevada ao Céu por uns anjinhos, representados na maioria das vezes como se fizessem esforço para conduzi-La.

Na verdade, por ter a alma na visão beatífica, seu corpo ressurrecto já gozava da agilidade, uma das qualidades deste estado. Ela se deslocava com extraordinária facilidade, com a rapidez do pensamento, podendo subir ao Céu por Si mesma. Os Anjos A teriam acompanhado? Sim, mas por veneração, sem precisar transportá-La, uma vez que Ela possuía mais glória que todos eles juntos.

O significado da Assunção de Maria

Maria Santíssima, a Arca da Nova Aliança, Mãe de Deus e nossa Mãe, neste dia em que Se elevou gloriosamente aos Céus em corpo e alma, antecipou a vitória final prevista na maldição da serpente: “Ela [a mulher] te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15). Vitória triunfal que será completa na ressurreição dos mortos, no fim dos tempos, quando o mal for definitivamente derrotado no Juízo Universal, e o Filho de Deus pronunciar a sentença final: “Vinde benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34).

Com efeito, na passagem de Maria Santíssima deste mundo para a eternidade, vislumbramos desde já o que nos acontecerá no Juízo Final, caso venhamos a morrer em estado de graça. Todos nós ― esta é uma profecia que qualquer um pode fazer, sem risco de incorrer em erro ― partiremos desta vida. E quanto tempo mediará entre a morte e a ressurreição? Não importa, pois para Deus nada é impossível. Nossa alma foi por Ele criada a partir do nada e o corpo, embora tenha origem humana nos pais, foi constituído por Ele.

Adão, o mais belo ser de toda a obra da criação, foi modelado como um boneco de barro por um artista chamado Deus, e também o barro foi criado sem qualquer matéria preexistente, como o resto do universo. Isto nos mostra que Deus, sendo onipotente, pode criar e recriar todos os seres. Assim como nos formou individualmente e infunde a alma em cada criança recém-concebida, pode mandar que os restos mortais de homens falecidos ― alguns há milhares de anos, como nossos pais Adão e Eva ― sejam reunidos e seus corpos reconstituídos em estado glorioso.

Em última análise, a ressurreição certifica a onipotência divina. Pela simples lembrança de que morreremos, seremos sepultados e esperaremos até sermos recompostos de forma gloriosa, a ponto de adquirirmos um corpo espiritualizado, já antegozamos esse momento de extraordinária beleza em que triunfaremos, como Nossa Senhora no dia da Assunção.

Por que a Assunção de Nossa Senhora?

Outra razão da conveniência deste magnífico acontecimento é a restituição prestada a Deus por todos os benefícios concedidos ao gênero humano. Uma vez que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade desceu dos Céus para Se encarnar, trazendo ao mundo a divindade humanizada, seria justo que uma pessoa humana fizesse um oferecimento harmonicamente contrário e levasse para o Céu o melhor da santidade, o que de mais belo, excelente e extraordinário pudesse existir na Terra: a humanidade divinizada. Tal missão foi reservada a Maria.

Por outro lado, Ela foi o sacrário do Filho de Deus durante os nove meses nos quais gerou a humanidade santíssima de Cristo. Era compreensível que, havendo-O recebido como tabernáculo na Terra, também Ele A recebesse em seu Santuário Celeste.

Esta Solenidade da Assunção nos abre grandes portas e um caminho florido e cheio de luz, no que diz respeito à salvação eterna. Diante do penhor de nossa ressurreição, que nos é dado pelo mistério da Assunção de Maria Santíssima, deveríamos nos considerar mutuamente uns aos outros segundo esse ideal, como se estivéssemos já ressurrectos, pois, acima do abatimento e das provações desta vida, brilha a esperança da glorificação para a qual rumamos.

Como celebrar a festa da Nossa Senhora da Assunção

Vivamos buscando os bens do alto, e que nosso pensamento acompanhe o trajeto seguido por Maria Virgem. Ela penetrou no Céu em corpo e alma e foi exaltada; nós, na hora presente, como não podemos adentrá-lo fisicamente, façamo-lo ao menos em desejo. Voltemo-nos para o trono de Maria Assunta, e assim receberemos graças sobre graças para estarmos sempre postos nesta via que nos conduzirá à ressurreição feliz e eterna, quando recuperaremos os nossos corpos em estado glorioso.

Por isso, pondera Dr. Plinio, a Assunção deve ser considerada como “a festa de todos os gáudios e todas as alegrias, a festa do dia em que Nossa Senhora, ressurrecta, foi levada aos Céus em corpo e alma. Terá sido a maior celebração realizada no Paraíso depois dos esplendores retumbantes da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo: Maria Santíssima, a Obra-Prima da mera criação, ocupará seu lugar ao lado do trono de seu Divino Filho!”

O Reino do Imaculado Coração de Maria terá especial apreço por esse mistério pois, junto à Encarnação, ele constituiu o maior portento da História.

De fato, a Encarnação e a Assunção formam um arco gótico, que resume todo o plano da criação. Na Encarnação, Deus desce para viver entre os homens; na Assunção, Maria sobe para viver entre as Três Pessoas Divinas. Na Encarnação, Deus santifica a terra com sua presença; na Assunção, a criação inteira se eleva ao Céu em Maria, tornando-se divinizada.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP


Texto extraído, com adaptações, dos seguintes livros:

O inédito sobre os Evangelhos, vol. VII

Maria Santíssima! O Paraíso de Deus revelado aos homens, vol. II

 

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