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“Qual a utilidade do meu Sangue?”

No dia em que a Santa Igreja contempla o perfeito holocausto oferecido pelo Divino Redentor ao Pai, somos convidados a meditar sobre o peso de nossos pecados nos sofrimentos de Jesus.

Nosso Senhor Jesus Cristo flagelado

Redação (29/03/2024 09:51, Gaudium Press) Com cuidado e delicadeza exímia, a Santa Igreja estabelece a cerimônia da Sexta-Feira Santa, cerne de nossa devoção e religiosidade. Na sua sabedoria divina, na sua perfeição e no seu espírito imaculado escolhe o Evangelho da Paixão segundo São João, com o objetivo de iluminar e fortalecer a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo como Messias, verdadeiro Filho de Deus. O texto em si é tão claro e eloquente que, no conjunto da Liturgia, nos permite meditar sem maiores explicações. A par disso, por ser muito extenso impossibilita o comentário de versículo por versículo. Assim, limitar-nos-emos a ressaltar algumas passagens para que nos ajudem em nosso progresso na vida espiritual e façam compreender melhor a grandeza da Paixão, acontecimento central na História.

Adão no seu esplendor

“Eis o Homem!” (Jo 19, 5).

“Eis o Homem!” (Jo 19, 5), anunciou Pilatos ao conduzir Jesus para fora do palácio, após a flagelação. Nosso Senhor estava ensanguentado da cabeça aos pés, coroado de espinhos, com uma cana de irrisão entre as mãos atadas, numa humildade plena, total, pois Ele é a Humildade. O Rei do universo, o Homem-Deus, era apresentado ao povo como “o Homem”, nas condições as mais aviltantes possíveis. Cena pungente, mas também extraordinariamente simbólica.

Consideremos Adão, criado por Deus como modelo perfeitíssimo do gênero humano. Todos os privilégios sobrenaturais, preternaturais e naturais lhe foram dados em abundância, numa proporção difícil de ser concebida por nós. Era um varão magnífico, digno de admiração por ter sido moldado diretamente pelas mãos divinas. Ao terminar de criá-lo, Deus poderia ter exclamado com júbilo: “Eis o homem!” Os próprios Anjos, quando contemplavam Adão no Paraíso, se encantavam por ver a beleza que Deus nele havia depositado, adornando-o de dons e qualidades, e fazendo-o participar em alto grau da natureza divina. Só lhe faltava um ponto: que aquela graça desabrochasse em glória. E desta vida passaria para a eternidade sem a morte, transformando a fé em visão, a esperança em realidade e a caridade estaria consumada por todo o sempre.

A gargalhada do demônio quando deformou o homem

“O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado” (Gn 3,23).

Entretanto, satanás conseguiu, por meio do pecado, fazer desta perfeição de homem um horror. E depois, olhando para Deus, talvez tenha querido referir-se a Adão dando gargalhadas e dizendo: eis o homem!… Tão repugnantes ficaram Adão e Eva que Deus os expulsou do Paraíso e pôs Querubins à porta para lhes impedir o acesso, porque eram indignos de viver ali (cf. Gn 3, 23-24). Começa, então, a História de uma humanidade infiel, insubmissa aos ditames de Deus.

A vítima pura e inocente redimiu nossos pecados

No extremo oposto — que oposto e que extremo! —, nesta cena do Ecce Homo encontramos o verdadeiro primogênito da humanidade, o Novo Adão, muitíssimo mais perfeito do que o primeiro. Sua Alma, unida hipostaticamente à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não deixou de estar um só instante na posse da visão beatífica, de forma que não era possível haver alma superior a ela. Santa, nunca se afastara da divindade. Deus agia como ela e ela agia como o próprio Deus. Tampouco podia haver inteligência mais brilhante. Sua vontade superexcelente aderia a tudo o que o entendimento e a visão beatífica lhe mostravam. E sua sensibilidade puríssima era de uma delicadeza extraordinária. Qualquer elogio seria insuficiente para Ele, pois era o Homem mais fabuloso da face da Terra.

“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele” (Is 53, 3).

E este Homem o Pai resolve colocar no estado de humilhação em que O vemos agora, completamente desfigurado, “desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos” (Is 53, 3), segundo descreve Isaías na primeira leitura.

“Transpassaram minhas mãos e os meus pés, e eu posso contar todos os meus ossos” (Sl 21,17-18).

Mais tarde, ao longo da Via-Sacra, perdeu Ele tanto Sangue que foi preciso alguém ajudá-Lo a carregar a Cruz até o Calvário; e, ao ser nela pregado, podiam contar-lhe os ossos (cf. Sl 21, 18). Nosso Senhor Jesus Cristo se apresenta, portanto, como vítima pura e inocente para expiar a deformação produzida no homem pelo pecado.

Sua Paixão nos dá uma noção da gravidade do pecado que custou ao Homem por excelência, modelo de toda a ordem da criação, tão atroz holocausto: “se eles fazem isto ao lenho verde, que acontecerá ao seco?” (Lc 23, 31). Tendo sido assim a justiça de Deus sobre o Inocente, colocando sobre suas costas o peso de nossos crimes, o que nos acontecerá se enveredarmos pelas vias da inimizade com Deus?

O dia adequado para um bom exame de consciência

Assim, nós poderíamos percorrer todos os episódios desse relato sublime da Paixão e deles extrair mais conclusões para um exame de consciência… num artigo que nunca acabaria. Fiquemos com o que foi comentado até aqui e aproveitemos para pedir com ardor a graça de reparar tudo isso pelas nossas boas obras e, sobretudo, pelo horror ao pecado.

Não é este o momento de, recordando a Paixão e Morte de Nosso Senhor, fazermos um propósito sério de emenda de vida, deixando todos os caprichos, todos os desvios, para transformar nossa existência em um ato de reparação a tudo o que Jesus sofreu? Tenhamos um verdadeiro arrependimento de nossas faltas, todo feito de espírito sobrenatural, a ponto de pedir de coração sincero a santidade, que não é tanto o fruto de nosso esforço, e sim da graça de Deus. E nós devemos implorá-la empenhadamente, pois o Salvador no-la conquistou neste dia, no alto do Calvário. “Com a árvore da Cruz, foram-te devolvidos bens maiores do que aqueles que lamentavas ter perdido com a árvore do Paraíso”.[1]

Que eu me ofereça inteiro para abraçar uma vida de virtude, de pureza, de humildade, de obediência, em uma palavra, de santidade, e possa fazer companhia à Mãe de Jesus ao pé da Cruz.

Extraído, com adaptações, de:

CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos: comentários aos Evangelhos dominicais. Città del Vaticano-São Paulo: LEV-Instituto Lumen Sapientiæ, 2013, v. 7, p. 329-335; 343.


[1] SÃO PEDRO CRISÓLOGO. Homilía LX: Sobre el Símbolo, hom.V, n.8. In: Homilías Escogidas, op. cit., p.186.

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