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Por que somos tentados?

Quando a tentação se abate sobre nós, temos a tendência de perguntar: “Por que Deus a permite?” Certamente para o nosso bem, caso contrário Nosso Senhor Jesus Cristo não a teria experimentado.

Redação (26/07/2020 16:28, Gaudium Press) Lembremo-nos de que Jesus é conduzido pelo Espírito Santo e quem permite a tentação é o Pai que havia dito durante o Batismo: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 17). Se o Pai manifesta sua complacência pelo Filho e, em seguida, consente em sua ida para o deserto para ser tentado, por que não quererá que nós, que recebemos a vida divina por meio d’Ele, sigamos o mesmo caminho?

“A vida do homem sobre a terra é uma luta”

Os fenômenos da natureza humana, mesmo os mais comuns, não raras vezes obedecem a leis que, ao serem analisadas com atenção, podem nos proporcionar valiosas lições. É o que acontece quando sofremos uma fratura e somos obrigados, por exemplo, a manter engessado durante longo período um braço ou uma perna. No momento em que o gesso é retirado, comprovamos que o membro atingido, embora antes fosse forte e vigoroso, tornou-se flácido. A musculatura ficou atrofiada pela imobilidade, sendo necessário submetê-la a sessões de fisioterapia para readquirir seu aspecto normal. Algo parecido se verifica com o homem que trabalhou a vida inteira e, ao se aposentar, opta por uma existência sedentária, permanecendo sentado na maior parte do dia numa confortável cadeira de balanço. Tal regime o expõe, com o tempo, a alguma grave doença, pois a constituição do ser humano exige movimento, esforço e combate.

Isso tem sua reversibilidade na vida espiritual, e até com maior razão. Nossa alma precisa exercitar-se constantemente na virtude a fim de aderir ao bem com toda a força. De fato, as dificuldades e, sobretudo, a tentação contribuem como um importante estímulo, segundo Santo Agostinho: “Nossa vida neste desterro não pode existir sem tentação, já que o nosso progresso é levado a cabo pela tentação. Ninguém se conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado se não vence; nem vence se não combate; nem combate se lhe faltam inimigo e tentações”.

Por que as tentações?

Com efeito, não podemos tomar a provação como um desastre ou um sinal de decadência na vida espiritual, pois, se assim fosse, deveríamos concluir que Nosso Senhor Jesus Cristo havia passado por uma crise espiritual no episódio das tentações no deserto;  o que é absurdo e até blasfemo. Muito pelo contrário, Ele quis deixar um exemplo de como vencê-la e agíssemos em conformidade com Ele.

 Muitas vezes, as piores provações se abatem sobre nós nas melhores fases da vida espiritual. Quando começamos a dar passos firmes nas vias da virtude, o demônio costuma intensificar as tentações, visando impedir a nossa santificação.

Existem doentes com uma espécie de complexo causado por verem pessoas saudáveis a quem muitas vezes gostariam de transmitir suas enfermidades para aliviar o instinto de sociabilidade ferido, por se sentirem diferentes ou inferiores. Assim também age satanás. Ao cair no inferno, por ter-se revoltado contra Deus, passou a detestar os que batalham para obter a salvação, por serem seus inimigos e adoradores de quem ele odeia. Então, quer o demônio a nossa perdição e permanece à espreita, andando em derredor, “como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pd 5, 8), pronto para nos empurrar precipício abaixo e nos lançar na mesma infelicidade eterna na qual ele se jogou.

A tentação tem seu início na sensibilidade

No deserto, Jesus estava padecendo as contingências físicas próprias à natureza humana, enfrentando longos dias sem comer nem beber e consumindo suas últimas energias. Por sua vez, o tentador encontrava-se à espreita para agir e tirou proveito para pô-Lo à prova nesse momento. O demônio propôs a Nosso Senhor que transformasse a pedra em pão, prometendo a vida – comer, naquela circunstância, era uma questão de subsistência –, mas era à morte que queria conduzi-Lo ao sugerir que usasse seu poder divino para satisfazer uma mera necessidade humana.

Tal é o artifício que conosco emprega satanás na hora da tentação: ele se aproveita das debilidades humanas e começa por excitar a sensibilidade. Ao agir assim, atinge grande número de almas, sobretudo fomentando o interesse pelos bens materiais. Estes, e em especial o dinheiro, constituem o maior empecilho para a santificação dos que põem sua esperança nos valores deste mundo. Satanás nunca promove a vida nem produz união, pois só se empenha em levar as almas ao pecado e, após lograr a queda de muitas delas, visa o aniquilamento da sociedade.

Ao evocar as palavras do Deuteronômio, “não só de pão vive o homem” (8, 3), Jesus como que afirmava: “Não só de pão, mas também de pão”. Reconhece a necessidade do alimento e até do dinheiro, porém, ensina que devem ser utilizados com a primeira atenção posta em Deus. Seu divino exemplo é de desprendimento das coisas concretas.

Outra lição que daí decorre diz respeito ao modo de proceder de Jesus em face de uma necessidade pessoal: dar aos outros aquilo que o maligno sugere que obtenhamos para nós mesmos e fazer-lhes o bem que gostaríamos de receber. Desse modo, aquilo que o demônio queria que realizasse em proveito próprio, ao converter as pedras em pão, Ele o faz depois, em favor de terceiros, nas Bodas de Caná, ao converter a água em vinho (cf. Jo 2, 1-11), e multiplicando pães e peixes ao longo da vida pública (cf. Mt 14, 15-21; Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-13).

Um princípio que deve nortear constantemente a nossa vida até a hora da morte: nunca podemos dialogar com o demônio, criatura maldita que sempre tira aquilo que promete. Devemos encerrar qualquer conversa com ele logo no início, com o apoio da Palavra de Deus.

A tentação é um benefício

Deus lhe permite tentar-nos, com vistas ao nosso benefício, para nos dar oportunidade de adquirir força, experiência e sagacidade na luta contra ele, e, derrotado este, outorgar-nos o prêmio de não ter cedido. Mas se tivermos a desgraça de sucumbir dizer: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra Vós”. Estas palavras do Rei Davi, o perfeito arrependido, recordam como, desde que reconheçamos nosso pecado com verdadeira contrição e desejo de nunca recair na falta cometida, nossas culpas serão apagadas. Quando nos apegamos a Nosso Senhor e à misericórdia de Nossa Senhora, recebemos o consolo de sermos perdoados.

Quantas vezes, depois de ter percorrido um bom trecho da vida, olhamos para trás e verificamos que o pecado não compensou. Nessas horas a lembrança de nossas quedas servirá para ilustrar e fortalecer as atitudes do presente, ajudando-nos a tomar decisões bem firmes e acertadas.

Com efeito, as tentações nos obtêm, sobretudo, méritos para a eternidade. Tanto o Santo quanto o pecador são tentados e, às vezes, o primeiro mais que o segundo, a julgar pelo modo atroz com que satanás investiu contra Nosso Senhor. A grande diferença entre ambos é que um recusa as solicitações e o outro se rende. Logo, ser tentado não é um desastre, pelo contrário, pode ser até um bom sinal. De nossa parte é preciso não consentir e, para isso, apoiarmo-nos no auxílio divino, pois seria uma insensatez concebermos nossas qualidades como o fator essencial na luta contra o demônio, o mundo e a carne.

A nossa força está na graça

Diante da tentação, devemos crer na força de Nosso Senhor Jesus Cristo e não nas nossas. No deserto, o diabo quis convencê-Lo do quanto Ele era poderoso, capaz e apto a estar no centro dos acontecimentos, e faz o mesmo conosco incitando-nos, pelo orgulho, a esquecer a graça e a vida interior, imprescindíveis para resistir.

Daí a necessidade absoluta de nos aproximarmos dos Sacramentos com a maior frequência possível, de “orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo” (Lc 18, 1); de recorrermos à mediação de Nossa Senhora e à intercessão dos Santos; de termos, enfim, ao longo de todo o dia, a nossa primeira atenção posta no sobrenatural. Assim obteremos forças para enfrentar todos os problemas, pois quem é negligente em sua vida interior perde o principal instrumento de combate.

Quando o inimigo nos assalta, unamo-nos ainda mais a Nosso Senhor Jesus Cristo, uma vez que, para vencer todas as tentações, é indispensável contar com a graça divina.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

 

Texto extraído, com adaptações, da revista Arautos do Evangelho mar. 2017, n. 183, p.9-15.

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