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Por que “Santíssimo Sacramento” e por que a sua adoração?

Depois de manifestar um inacreditável amor por nós, padecendo dolorosa Paixão, morrendo na Cruz e ressuscitando, iria Jesus simplesmente subir aos Céus e abandonar o convívio com os homens cuja Redenção tão caro Lhe custou? Seria possível imaginar, depois de tal união conosco, haver essa irremediável separação?

Redação (16/08/2020 10:38, Gaudium Press) A maravilhosa solução para esse perplexitante problema só a Deus poderia ocorrer: a instituição da Sagrada Eucaristia.

22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes, dizendo: “Tomai, isto é o meu Corpo”. 23 Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele. 24 Jesus lhes disse: “Isto é o meu Sangue, o Sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos.

Tudo o que é revelado por Deus é mistério da Fé, mas o Santíssimo Sacramento o é por excelência. As palavras desses versículos constituem o fundamento de nossa fé na Eucaristia.

Quando o sacerdote profere a fórmula da Consagração, temos de acreditar que o pão e o vinho que vemos, provamos, cheiramos e até tocamos com a língua, e cuja aparência não mudou em nada, passaram a ser Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os sentidos nos enganam ― e não só em assuntos de fé! ―, pois eles percebem apenas os acidentes e não captam a substância.

O Doutor Angélico aponta vários motivos para explicar a conveniência de ocultar-Se à nossa sensibilidade a substância do Corpo e Sangue de Cristo. Entre outros, assim o estabeleceu a Providência Divina porque, se víssemos Nosso Senhor claramente na Hóstia, não teríamos coragem de comungar. Ele foi muito bondoso conosco, cobrindo-Se com o véu das Sagradas Espécies. Mas, graças à fé que ilumina a inteligência, sabemos que ali está Jesus Sacramentado; aquele mesmo Jesus que, pelas praças e por todo lugar onde passava, curava, perdoava e fazia o bem.

Ápice de generosidade e entrega

Esta passagem — que, de si, nos levaria a vastas considerações — ressalta o infinito desejo de dar-Se que há no seio da Santíssima Trindade. Deus, imutável e eterno, não necessitava da criação. Este foi um supremo ato de liberalidade, de entrega e de generosidade, cujo ápice é o Santíssimo Sacramento, pois criar para comunicar sua felicidade aos seres inteligentes e Se colocar sempre à disposição deles, já é muito; mas criar para, em certo momento, o Verbo encarnar-Se e, sendo Deus, oferecer-Se aos homens como alimento, é inimaginável! Nem sequer os Anjos poderiam cogitar algo tão ousado!

O mais importante sacramento

A Eucaristia é um sagrado banquete — “o sacrum convivium”, diz uma bela antífona composta por São Tomás, no qual temos especial convívio com Nosso Senhor Jesus Cristo; um banquete divino porque é oferecido por Deus, realizado com Deus, a propósito de Deus. Incomparavelmente mais que uma champanhe de excelente qualidade, mais que um caviar russo, mais do que qualquer iguaria que se possa conceber, na mesa da Eucaristia é oferecido o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Salvador.

É o próprio Deus dando-Se a nós como alimento de valor infinito, cujo efeito os curtos limites de nossa inteligência não alcançam. É o mysterium fidei. Se São Tomás afirma que a menor participação na vida da graça supera todo o universo criado, que dizer do valor do próprio Criador da graça? A Eucaristia é, por conseguinte, o mais importante de todos os Sacramentos quanto à substância, por consistir no próprio Deus e Autor da graça, enquanto os demais apenas transmitem a graça, a participação criada na vida divina incriada. É por isso, ensina ainda o Doutor Angélico, que todos os outros Sacramentos existem em função da Eucaristia, embora não seja esta a porta dos demais, como o é o Batismo. Todas as riquezas da Terra são como poeira perto do Santíssimo Sacramento, manifestação do extraordinário amor de Deus para conosco!

Os efeitos do Santíssimo Sacramento

Qual é, então, a união com Nosso Senhor produzida por tão alto dom? Diz o Evangelho: “Assim como o Pai que me enviou vive, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha Carne viverá por mim” (Jo 6, 57). Sempre que estamos na graça de Deus, Ele permanece em nós e nós permanecemos n’Ele, pois, por sua divindade, é o único Ser que pode inabitar em nós. Essa união se intensifica na hora da Comunhão, quando, além da inabitação da Santíssima Trindade, acrescenta-se a presença do Corpo glorioso, Sangue e Alma de Nosso Senhor Jesus Cristo: “mens impletur gratia”, a alma fica repleta de graça.

“Não há Sacramento mais salutar que este para purificar os pecados, dar novas forças e enriquecer o espírito com a abundância de todos os dons espirituais”, afirma o Doutor Angélico.

É um verdadeiro manancial de toda graça, pelo que, em rigor, uma só Comunhão seria suficiente para nos tornar santos! Esta união é tão alta que custa encontrar um exemplo na natureza que se aproxime dessa realidade sobrenatural. Uma esponja seca logo se embebe ao ser lançada na água, mas a união com Cristo no Santíssimo Sacramento é muito maior, pois na esponja a água ocupa espaços vazios; no Santíssimo Sacramento, porém, Ele nos “embebe” por inteiro. Para empregar outra imagem, é como se tirassem todo o nosso sangue por uma das veias e por outra fosse introduzido o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A fim de exprimir tão sublime realidade, São Cirilo de Alexandria propõe a metáfora da cera: “Assim como a cera derretida acrescentada a outra cera se mistura perfeitamente, constituindo-se uma só, também aquele que recebe o Corpo e o Sangue do Senhor fica unido a Ele tão estreitamente, que Cristo está nele e ele em Cristo”. É uma união de tal maneira forte que bem poderíamos chamar de “mútua compenetração”.

Portanto, quando comungamos o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por Ele ser infinitamente superior a nós, não somos nós que O assumimos, mas nós somos transformados por Ele, chegando a tornar-nos, de algum modo, no divino alimento que recebemos. Jesus assume a carne de quem recebe a sua!

Como surgiu o culto público: a adoração ao Santíssimo Sacramento?

Logo nos primeiros séculos, o Santíssimo Sacramento já era o centro e coração da vida sobrenatural da Igreja. Todavia, fora da Missa não se prestava culto público a esse Sacramento. O pão consagrado costumava ficar guardado numa espécie de sacristia, e mais tarde lhe foi reservado um nicho num ângulo obscuro do templo, onde se punha um cibório em forma de pomba, suspenso sobre o altar, sempre tendo em vista a eventual necessidade de atender a algum enfermo.

Mas, durante a Idade Média, os fiéis foram sendo cada vez mais atraídos pela sagrada humanidade do Salvador. A espiritualidade passou a considerar de modo especial os episódios da Paixão. Criou-se por isso um clima propício para que se desenvolvesse a devoção ao Santíssimo Sacramento.

O último impulso veio das visões de Santa Juliana de Monte Cornillon, uma freira agostiniana belga, a quem Jesus pediu a instituição de uma festa anual para agradecer o Sacramento da Eucaristia. A religiosa transmitiu esse pedido ao Arcediago de Liège, o qual, sendo eleito Papa 31 anos depois, adotou o nome de Urbano IV.

Pouco depois esse Pontífice instituía a festa de Corpus Christi, que acabou por se tornar um dos pontos culminantes do Ano Litúrgico em toda a Cristandade.

Por que adoração ao Santíssimo Sacramento?

Expressão ímpar da benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia é o fato de podermos adorá-Lo exposto no ostensório.

Qualquer um pode comprovar como as plantas expostas aos raios solares ostentam uma exuberância, uma beleza e uma vitalidade que elas não têm estando à sombra; uma grande diferença, devida apenas ao esplendor do Sol.

Ora, se a natureza é embelezada dessa maneira pela luz solar, que admiráveis benefícios não deve proporcionar à alma o raio espiritual emanado diretamente do Deus escondido? Muito mais benéfico é o Santíssimo Sacramento para nossa alma do que o Sol para nosso organismo corporal. Devemos aproximar-nos d’Ele ao máximo.

Nunca devemos fugir de Jesus, mas abrigar-se n’Ele, porque assim serão purificadas as nossas misérias, e a alma sairá aperfeiçoada. Nossos olhos corporais não conseguem, infelizmente, contemplar tais mudanças. Jesus, presente no Santíssimo Sacramento, faz com que a alma pervadida pela graça se assemelhe cada vez mais a Ele. Por isso, quando vemos as maravilhas operadas pelos homens de Deus, podemos estar certos de que elas provêm muito mais da Eucaristia, da qual são devotos, do que de eventuais qualidades pessoais.

Além desses sublimes benefícios produzidos na alma pelo Santíssimo Sacramento, devemos considerar que, apesar de nossas limitações ou até imperfeições, Nosso Senhor tem saudades de nós, e quer nos aproximar d’Ele, pois encontra as suas “delícias junto aos filhos dos homens” (Pr 8, 31).

Com muita propriedade, encontra-se em algumas capelas do Santíssimo Sacramento a expressiva frase de Santa Marta à sua irmã: “Magister adest et vocat te — O Mestre está aí e te chama” (Jo 11, 28). Quando entramos no recinto sagrado para fazer-Lhe uma visita, Jesus-Hóstia nos acolhe com alegria, como que dizendo: “Aqui está o meu filho! Há quanto tempo Eu não o via… Venha!”. De fato, nosso Redentor nos ama tanto que, por maiores que sejam nossas misérias, Ele Se alegra em nos ver.

Peçamos a Jesus Sacramentado um amor íntegro e uma entrega total a Ele, única restituição digna por tudo quanto d’Ele recebemos. E transbordemos de alegria e de entusiasmo por sermos tão amados individualmente por um Deus que, já nesta vida, é a nossa “recompensa demasiadamente grande”.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP


 Texto extraído, com adaptações, do livro O inédito sobre os Evangelhos, vol. I e III.

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