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Por que Deus permite o mal?

Deus poderia ter criado, aos nossos olhos de meras criaturas, um mundo sem pecado e sem lutas. Entretanto, no universo brilha a justiça infinita do Criador.

Redação (08/07/2020 10:52, Gaudium Press) Deus criou um universo cujas criaturas são boas e o conjunto delas é “muito bom” (Gn 1, 31). Logo no seu início, porém, todo esse bem criado passou a coexistir com o mal. A terça parte dos espíritos angélicos se uniu a Lúcifer numa revolta contra Deus (cf. Ap 12, 4). Ao brado de São Miguel, os Anjos fiéis se levantaram em oposição aos rebeldes e “factum est prælium magnum in Cælo — uma grande batalha se travou no Céu” (Ap 12, 7). Precipitado nas trevas eternas, o demônio tentou, devido sua obstinada oposição a Deus, desfigurar a beleza do plano da criação.

Invejando a criatura humana, que ainda se conservava inocente e desfrutava das delícias do Paraíso e da amizade com Deus, tomou o aspecto de uma encantadora serpente, astuta e habilidosa para estimular as paixões humanas. Deste modo, queria “enganar os homens, para que não fossem exaltados e elevados ao lugar de onde ele caíra”. Entrou ele em contato com Eva e lhe propôs a desobediência a Deus. Eva cedeu e levou Adão a segui-la no mesmo caminho.

Assim, a partir do momento em que Anjos e homens desobedeceram aos preceitos divinos, uma luta se iniciou entre o bem e o mal, entre os que procuram servir a Deus e os que se revoltam contra Ele; entre os que querem satisfazer suas paixões desregradas e aqueles que desejam viver da graça. Essa luta não tem trégua, pois foi estabelecida pelo próprio Criador: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela” (Gn 3, 15). Luta tremenda, que atravessa os séculos com o enfrentamento constante de duas raças: a bendita estirpe de Jesus e Maria e a maldita linhagem de satanás.

Desde a expulsão do homem do Paraíso, vemos, então, como o filão dos maus parecia triunfar, desde a morte de Abel até a chegada de Jesus (cf. Lc 11, 47-51). Contudo, este aparente domínio do poder infernal teria fim com o cumprimento da promessa que Deus fizera aos nossos primeiros pais: “Ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15)..

Por que a serpente entrou no Paraíso?

Ora, por que Deus deixou entrar a serpente no Paraíso e permitiu que o mal se estabelecesse na face da Terra? Entre outras razões, ressaltemos três: em primeiro lugar, a fim de nos enviar um Salvador que operasse a Redenção. Em segundo lugar, para evitar o amolecimento e a tibieza dos justos. A existência dos maus é o melhor treinamento para os bons, que podem, na defesa do bem, praticar o heroísmo da virtude para a glória de Deus e seu próprio mérito. Por último, porque permitindo o mal, Deus quer um bem superior que dele resulta acidentalmente.

No entanto, com a Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, o mal sofreu sua derrota definitiva, porque passou a vigorar sobre a face da Terra o regime da graça. Foi este o meio determinado pela Sabedoria Divina para acabar com a vitalidade e o dinamismo da linhagem de satanás, o qual, inconformado, tudo faz para se vingar; por isso a luta entre o bem e o mal continua sem tréguas, hoje mais do que nunca.

Quanto a nós, católicos, não podemos ignorar tal realidade, na qual, aliás, estamos envolvidos. O que pensar de alguém que, sendo assaltado por um ladrão em sua própria casa, assistisse com indiferença e de braços cruzados às piores agressões contras seus familiares mais próximos? Seria esta atitude própria a um bom pai, filho ou esposo? Assim, o que mais chama a atenção não é a furor dos maus, mas a indiferença dos bons nos ataques do mal.

A solução para o problema do mal

Devemos estar muito atentos para um aspecto de suprema importância: essa luta se trava também dentro de nós. Da mesma forma como no Paraíso Terrestre existia a serpente, em nosso interior há serpentes que fazem um trabalho muito mais ladino do que o demônio com Eva. São nossas más tendências, em virtude do pecado original, sempre de tocaia, esperando uma oportunidade para nos arrastar para o partido dos tíbios e indiferentes.

Assim sendo, nessa batalha interna, cabe-nos manter o mal amordaçado e humilhado, e dar ao bem toda a liberdade, o que só podemos alcançar com a graça de Deus.

Certo é que, quanto mais progredirmos na virtude, mais poderá se levantar contra nós uma violenta oposição do poder das trevas.

Dois mil anos de História da Igreja nos mostram que essa oposição se transforma em ódio e em perseguição. Não temamos, entretanto, o que nos possa advir, certos de que, como diz São Paulo, “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” (Rm 8, 28). Avancemos, pois, seguros, com os olhos fixos n’Aquele que “se manifestou para destruir as obras do demônio” (I Jo 3, 8).

De fato, quem é o diabo perto de Nosso Senhor Jesus Cristo?

O mal é limitado, o bem é infinito

Como ensina a filosofia, o mal é uma ausência de bem. Sendo, pois, uma mera negação do bem, por si só não tem força para derrotá-lo. Deus é o Sumo Bem, o Bem em essência.  Portanto, para ganharmos a batalha contra o mal, devemos procurar atingir uma união plena e perfeita com o Ele, servindo-nos de todos os elementos que Ele põe ao nosso alcance para isso. Pois só através da participação na própria vida divina poderemos vencer definitivamente os ardilosos embates do “pai da mentira”.

Visto que o mal e o pecado parecem dominar o mundo inteiro, devemos tirar uma lição para os nossos dias. Da luta entre o bem e o mal resulta necessariamente a vitória do bem, de modo que, cedo ou tarde, os justos serão premiados e “farão brilhar como uma tocha a sua justiça” (Eclo 32, 20).

No momento em que uma parte ponderável da humanidade vira as costas a seu Criador e Redentor, somos chamados a crer, com firme confiança, nas promessas feitas por Ele.  Assim como Nosso Senhor triunfou outrora contra todas as aparências de derrota na cruz, triunfará de novo estabelecendo uma ordem superior a que o mal quer destruir: “No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra” (Sl 129, 5).

Mons. João Clá dias, EP

(Texto extraído, com adaptações, da revista Arautos do Evangelho ano 12, jul. 2007, n. 135, p. 11-19)

 

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