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Por que Deus permite essas coisas?

Muitos cristãos deixam-se contaminar, deixam-se levar e perdem-se em meio a perguntas que não têm respostas.   

Redação (30/03/2022 09:48, Gaudium Press) Tenho uma irmã um pouco mais velha que eu: uma mulher de fé, que nunca começa o dia sem um período de meditação e orações. Ela confessa regularmente e frequenta os sacramentos de forma piedosa. É uma mulher capaz de despertar a fé em outras pessoas através da sua própria fé.

No último fim de semana, conversamos por telefone e as palavras dela me causaram preocupação, fornecendo uma amostra do que está acontecendo não apenas com ela, mas com muita gente. A fé de muitos parece estar abalada.

Logo no início da nossa conversa, notei na voz dela que algo não estava bem. Como já não somos tão jovens, pensei que ela pudesse estar com algum problema de saúde, mas não era isso. Ou melhor, era, mas não da saúde física. Minha irmã está doente da alma e essa é uma doença difícil de curar, porque quem é acometido por ela, muitas vezes, nem percebe.

Como as doenças do corpo, as doenças da alma também têm uma etiologia e um agente causador. O que eu podia fazer naquele momento era ouvir a minha irmã para tentar entender o que estava acontecendo. Como ela é uma pessoa forte, que já enfrentou e sobreviveu bem a muitas adversidades, eu sabia que a causa de seu apático estado de espírito não era uma coisa qualquer.

As ações dos homens

Ela começou falando da guerra e me perguntando se eu tinha visto tal ou tal vídeo, ouvido essa ou aquela notícia, e foi desfiando situações tristes e episódios chocantes. Como a maioria das pessoas, eu tenho acompanhado os acontecimentos na Ucrânia e seus desdobramentos, sobretudo, porque o meu trabalho exige uma atualização constante dos acontecimentos mais relevantes.

No entanto, notei que a minha irmã estava muito mais mergulhada que eu nesta realidade e, pior, que ela não tinha nenhum filtro que a protegesse. Estava vendo de tudo, bebendo das mais variadas fontes e, como já escrevi aqui, esta guerra fez tantos “experts” em geopolítica, estratégias militares, escatologia e desfechos possíveis que, se não nos cuidarmos, acabaremos por perder a paz e o equilíbrio, em meio a esse bombardeio de informações contraditórias e desencontradas,

Depois que minha irmã mencionou tudo o que a afligia sobre a guerra, começou a falar das notícias mais próximas: uma menina de 12 anos que desapareceu após sair para comprar refrigerante, num bairro da periferia de São Paulo, e foi encontrada morta alguns dias depois; um  garoto de 13 anos que, ao ser proibido de usar o celular, atirou na família, matando a mãe e o irmãozinho e ferindo gravemente o pai, que corre o risco de ficar paraplégico. Falou de mulheres mortas pelos maridos ou namorados, de um jovem de 22 anos, morto com um tiro à queima-roupa durante uma briga de trânsito no Paraná e da queda de um avião na China, que provocou a morte de 132 pessoas.

Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa ela desabafou: “Ah, meu irmão, eu estou tão triste, tão desanimada! Já faz mais de 20 dias que não consigo sair de casa. Nem à missa eu estou indo. Na verdade, eu nem estou mais conseguindo rezar!” Ouvir isso foi um choque para mim, afinal, minha irmã nunca sai do seu quarto pela manhã antes de rezar o seu primeiro terço e outras orações diárias.

Comecei uma frase, que ela certamente não ouviu, pois deu o seu derradeiro suspiro de desesperança: “Eu não entendo por que Deus permite essas coisas! Será que ele não está vendo o nosso sofrimento? Essa violência? Essa tragédia da enchente em Petrópolis, que já matou mais de 200 pessoas. E na Ucrânia? Aquelas cidades destruídas, aquelas pessoas que perderam tudo, sem comida, sem água, tendo que fugir…”

Tentei trazê-la à razão: “Não diga uma coisa dessas, minha irmã! Não coloque a culpa em Deus! Tudo o que está acontecendo é fruto das ações dos homens!”

Duas guerras

Lembrei-a do que Nossa Senhora disse em Fátima, dos castigos que viriam sobre a humanidade se não houvesse arrependimento, penitência e conversão. Da necessidade da consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração, o que ficou por ser feito desde 1917, mais de 100 anos para que fosse cumprido um pedido tão simples da Mãe de Deus! Simples, mas, de fundamental importância, pois ela alertou que a Rússia espalharia os seus erros pelo mundo e que isso provocaria muitas guerras.

Nossa conversa se deu exatamente no dia 25 de março, algumas horas depois da cerimônia de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Com um fio de voz, demonstrando toda a dor que lhe ia na alma, minha irmã ainda disse: “Eu assisti à cerimônia. Mas, não sei… Será que valeu? Será que agora não é tarde demais?”

Ficamos ao telefone por cerca de uma hora. No final, ela parecia mais aliviada e um pouco menos triste, mas, essa conversa me impactou muito. Resolvi escrever sobre ela porque, o que está acontecendo no coração de minha irmã, está acontecendo no coração de muitos cristãos. Para os que não creem, nós estamos apenas assistindo a uma intrincada partida de xadrez, na qual se fala muito sobre a necessidade de se pôr fim à guerra, mas, no fundo, parece se tratar de uma retórica vazia. Se olharmos para a situação, desapaixonadamente, poderemos perceber que parece haver um certo desejo ou necessidade de que a guerra continue…

Na verdade, estamos diante de duas guerras, a de Vladimir Putin contra a Ucrânia, e a dos interesses econômicos, uma guerra – aparentemente – sem tanques, sem mísseis, sem bombas e sem fuzis, mas, com um poder tão ou mais devastador do que o que temos visto nos rastros de destruição deixados pelo enfrentamento dos dois exércitos dos países outrora irmãos. Dessa forma, para os que não creem, é só uma questão de observar o jogo para ver quem move a próxima peça desse tabuleiro.

Para aqueles que, ora creem, ora não creem, os que vivem pulando de galho em galho, entre uma ideologia e outra, as opiniões variam. Uns acham que Deus não tem poder suficiente para mudar as coisas; outros acham que Ele não se importa, e outros acreditam que Ele está nos castigando, mas, não concordam com isso e confundem o Senhor do Universo com as vias do pseudoconservadorismo de conveniência que grassa em algumas partes do mundo.

Tragédias: Deus é o culpado?

O que me preocupa, de fato, e, obviamente, não apenas a mim, reles grão de poeira na economia da vida, mas a todos os que levam a religião a sério, é exatamente o que está acontecendo com muitos cristãos que estão se deixando contaminar, se deixando levar e se perdendo em meio a perguntas que não têm respostas. As Sagradas Escrituras nos dizem que nós não entendemos nem o que se passa na Terra, quanto mais vamos entender as coisas do Céu.

As tragédias que estamos vivendo, e que têm feito adoecer a alma da minha irmã e as de tantas outras pessoas, são coisas da Terra, mas têm estreita ligação com as coisas do Céu. Não é Deus o responsável pela guerra, pela queda das aeronaves, pelas brigas de trânsito que resultam em morte, pela perda da capacidade dos pais de educarem os seus filhos, pela violência contra a mulher e até mesmo por muitas catástrofes, como aquelas provocadas pelas enchentes. Mas, nada disso foge ao controle dEle. Tudo estava previsto, o que não significa que Deus tenha projetado essas coisas. Ele é atemporal, e vê o desenrolar da vida sem passado, presente ou futuro, como nós. Ele sempre soube que todas essas coisas aconteceriam, e nos preveniu sobre elas.

Os profetas falaram sobre isso. Nosso Senhor Jesus Cristo falou exaustivamente sobre isso, sobre a fome, os fenômenos climáticos, as pestes, a guerra e os rumores de guerra. Ninguém é ignorante dessa realidade e cada geração vive um pedaço dessa trajetória. Mas, o que provocou todas essas coisas foi o pecado, e o que as alimenta e precipita continua sendo o pecado. E, se nós achamos que não pecamos, ao menos devemos admitir que, ao não condenar o pecado, somos coniventes com ele. Às vezes, podemos não ter coragem de cometê-lo, mas, sem nos darmos conta, podemos até admirar e invejar quem o comete.

É importante que a Rússia seja consagrada ao Imaculado Coração de Maria, afinal, Ela mesma pediu que isso fosse feito. Mas, quantas coisas mais Ela pediu? Coisas que dizem respeito a cada um de nós, coisas que não necessitam de uma cerimônia solene presidida pelo Sumo Pontífice, mas requerem a nossa atitude firme e corajosa. Coisas pequenas como o cuidado no vestir.

Satanás ruge ao nosso redor

No início deste artigo, eu disse que as doenças da alma têm uma etiologia e um agente causador. Este agente causador tem nome. Aliás, tem vários nomes. Um deles é Satanás e ele ruge ao nosso redor, e faz muito mais que o exército russo para invadir e destruir o território da nossa alma. E, não nos iludamos, nós jamais conseguiremos lutar bravamente e vencer esta guerra se não entregarmos, incondicionalmente, a nossa vida a Deus.

Os que não creem e os que pulam de galho em galho, de ideologia em ideologia, tentando perscrutar os motivos de Deus, acreditando que Ele abandonou a humanidade a toda sorte de infortúnios, esses pouco importam ao demônio, porque ele já os cooptou. Quem verdadeiramente importa ao demônio é você que crê, mas que tem se deixado abalar, assim como a minha querida irmã.

Por isso, assim como disse a ela, ouso dizer também a você: aproveite esses últimos dias da Quaresma para fazer um acurado exame de consciência e peça sinceramente perdão a Deus caso já tenha passado pela sua cabeça que Ele é o responsável por tudo isso que estamos vivendo. E deixo, para sua meditação, um pensamento do livro “Imitação de Cristo”, uma das grandes obras da cristandade:

“Bem aventurada a simplicidade, que deixa os caminhos difíceis das questões para andar pela vereda plana e firme dos mandamentos de Deus. Muitos perderam a devoção por terem querido investigar demais coisas mui elevadas. […] Porque o inimigo não tenta aos infiéis e aos pecadores, que já os tem seguros; mas aos fiéis devotos tenta e atormenta de vários modos.”

Por Afonso Pessoa

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