Por que ainda não acabaram com os hábitos religiosos?
O hábito faz algo além do monge: sua simples presença confirma na fé, converte e incomoda. Talvez por isso seja tão perseguido, tão odiado, tão vilipendiado. Coube-lhe a mesma sorte que o Salvador.

Foto: Wikipedia
Redação (09/06/2026 15:33, Gaudium Press) Narra o livro do Êxodo, que Deus revelou como deveriam trajar-se aqueles que haviam sido consagrados ao serviço do altar: “eis as vestes que deverão fazer: um peitoral, um efod, um manto, uma túnica bordada, um turbante e um cinto” (Ex 28,4).
Essa lei, especifica Javé por lábios de Moisés, deve ser observada “sob pena de incorrerem numa falta mortal” (Ex 28,43).
A Santa Igreja, herdeira da Antiga Aliança, conservou e sublimou este costume de revestir aqueles seus filhos que, pela ordenação ou profissão religiosa, se tornaram sagrados.
Os primeiros tempos
É comum acontecer que, com o avançar do tempo, aquilo que pela força das circunstâncias era costume numa civilização passe a ser tradição.
Ora, este fenômeno humano também ocorre na Igreja, mas a modo divino. Logo, para entender os seus costumes, é preciso observar o entorno da época e os caminhos que foram pretexto para o Espírito Santo modelá-la ao longo da História.
Um paradoxo inicial: no momento auge da Quinta-feira Santa, quando Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a Sagrada Eucaristia na presença dos Apóstolos, Ele não estava revestido de nenhuma vestimenta sagrada, nem de algum “paramento” da lei mosaica, mas sim de suas vestes habituais.
O que pode parecer, à primeira vista, uma contradição, faz transparecer, sob outro prisma, a sabedoria infinita com que Nosso Senhor marca o cumprimento dos ritos mosaicos na Nova Lei.
Sendo a Santa Missa a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário, é fácil compreender que Jesus não quisesse que seus sacerdotes se revestissem com os mesmos trajes com os quais os sumos-sacerdotes portavam durante as oblações e oferendas da Antiga Lei.
Desse modo, Nosso Senhor indicava a mudança não só das vestes sagradas, mas da condição sacerdotal, pois os sacerdotes passariam a ser outros Cristos, totalmente revestidos de seu poder e sustentados por suas virtudes.
Entretanto, bem podemos afirmar que Jesus portava um paramento, ou por outra, o melhor paramento da História. Beata Ana Catarina Emmerich, vidente que assistiu, por meio de revelações, toda a Paixão de Nosso Senhor, narra que a túnica que revestia Jesus fora costurada por Maria, sua mãe.
Ora, será que Nossa Senhora não idealizou uma veste que servisse de paramento arquetípico para o acontecimento mais esperado da História? Não sabemos, mas de fato tal era a qualidade desta sagrada túnica que, após terem despido o Divino Salvador, os soldados optaram por lançar sorte sobre esta veste, em vez de dividi-la em partes (cf. Jo 19,23-24).
Os Apóstolos seguiram o mesmo costume de celebrar a liturgia com trajes comuns, optando por não aderir aos paramentos mosaicos. Todavia, desde muito cedo, o respeito para com o culto sagrado fez com que os bispos, presbíteros, diáconos e leitores portassem, durante a celebração, vestes brancas mais belas do que as do povo, como consta nos cânones de Hipólito.[1]
Dos Apóstolos até a Idade Média
Com a invasão dos bárbaros e a queda do Império Romano em 476, a civilização latina foi desestabilizada, sofrendo sucessivas mesclas de culturas. A partir de então, grande parte dos homens deixou as túnicas brancas e longas dos filhos de Roma e passou a trajar túnicas curtas, geralmente até os joelhos, acompanhadas de uma espécie de calção.
Isso impulsionou a primeira distinção entre a veste secular e a religiosa, pois a Igreja preferiu permanecer com o uso dos trajes talares – ou seja, os que desciam até ao calcanhar –, os quais conservavam a modéstia e o pudor. Desse modo, a partir da túnica talar nasceu o primeiro esboço da batina e dos paramentos litúrgicos.
Formou-se organicamente, por outro lado, a mentalidade de que cada grupo deveria possuir um traje próprio. Por exemplo, São Bento, o pai da vida monástica, prescreveu que seus monges usassem a túnica coberta por um escapulário para trabalhos e a cogula, uma espécie de capuz que descia pelas costas, com vistas a proteger do frio.
Já nesta primeira fase, a Esposa de Cristo zelou para que seus filhos conservassem a modéstia e a simplicidade. Santo Agostinho dizia: “vosso hábito não seja chamativo; não busqueis agradar pelo modo de vestir-vos, senão pelo modo de comportar-vos”. Outro exemplo é o do Papa Celestino I que, em uma carta de 428, repreendeu alguns sacerdotes por prezarem mais pelo modo de vestir-se do que pelo ensino da doutrina.
Esta luta pelo equilíbrio entre uma veste digna e respeitosa, mas ao mesmo tempo sóbria, perdurou pelos séculos posteriores. A partir do século X até meados do século XV, o hábito monástico sofreu um lento e complexo processo de transformação que o levou à aquisição das características essenciais que o distinguem até hoje.
É então que o uso do hábito haure novas cores e novos significados. Nesse período, surgem diversas ordens: cluniacenses, camaldulenses, cartuxos e cistercienses, inspiradas no espírito beneditino; os cônegos regulares, seguidores de Santo Agostinho e as ordens mendicantes, como os franciscanos e dominicanos.
A alma medieval definira seus hábitos não apenas enquanto necessidade prática ou mero costume local, mas sobretudo, como um meio de transmitir uma mentalidade. Para os monges daquela época, tudo estava imbuído de simbolismo e significado. O hábito branco dos cistercienses expressava a candura virginal de Nossa Senhora. As três cores dos trinitários, ordem fundada por São João da Mata, era uma representação mística da Santíssima Trindade: o branco referia-se ao Pai, o azul ao Filho e o vermelho ao Espírito Santo. Quanto aos hábitos mendicantes, estava sempre presente o amor à pobreza, o espírito de penitência e a aversão às riquezas mundanas.
Outro ponto importante na história dos trajes religiosos é que, segundo a tradição, muitos foram escolhidos por Nossa Senhora: a cogula branca de Cister, os hábitos dos premostratenses, dos mercedários, dos dominicanos, dos servos de Maria e o escapulário dos carmelitas.
Em síntese, a Idade Média conferiu ao hábito um caráter sobrenatural, um sinal de consagração e de distinção religiosa. Ele é uma insígnia sagrada conferida por Nossa Senhora, que faz do monge um símbolo de contradição e de rejeição ao mundo.
Surgem dificuldades: Renascença e Protestantismo
No entanto, a Igreja passaria novamente por dificuldades. O século XIV e, sobretudo, o XV foram decisivos para a Cristandade. Com o advento da Renascença, toda a cultura da Europa se alterou: os homens acostumaram-se a vestir-se com trajes curtos e justos; tanto a arte como a moda tendiam fortemente a ressaltar o corpo humano. Pela primeira vez, as mulheres apareceram com os cabelos descobertos e difundiram-se trajes contrários ao pudor.
Ademais, nesse ínterim, eclodiram contra a Igreja os ataques protestantes que, além de afrontarem a doutrina e os costumes da Esposa de Cristo, também rechaçaram seu modo de vestir-se.
Todavia, uma outra preocupação bem mais grave assolava a Santa Igreja: a tentação do mundo e o seu modo de vestir invadiam até as santas fileiras do clero. Por que se ocupar com ninharias deste porte? Pelo seguinte: no homem, composto de corpo e alma, um influencia o outro e vice-versa. Se, de um lado, a mentalidade produz paulatinamente os atos externos, por outro lado, os costumes e os hábitos adquiridos, quando não afins às ideias, acabam por modificá-las.
Portanto, ceder no modo de vestir-se, era, em pouco tempo, ceder no modo de pensar.
Em combate ao perigo, os concílios de Viena (1311-1312), de Constanza (1414-1418) e, sobretudo, de Trento (1546-1563), foram radicais ao prevenir os clérigos contra a concessão às modas recentes, suspendendo até de ordens o religioso que fosse encontrado em tais condições.
Também foi nesse clima de luta que São Carlos Borromeu definiu, nos sínodos provinciais de Milão, a batina negra como traje eclesiástico.
Similar perseguição ocorreu no período da Revolução Francesa. O liberalismo condenou a ampla variedade de trajes como contrária às ideias revolucionárias. A partir de então, todos eram “livres” para vestir-se de modo igual, mas não o eram para ornar-se com diversidade, beleza ou distinção. Como os hábitos religiosos, aliás, eram extremamente perigosos para a igualdade, logo foram proibidos na França.
Infelizmente, quando em 1801, Napoleão restabeleceu a paz religiosa através da Concordata, muitos sacerdotes, já tomados pelo espírito revolucionário, não quiseram retornar ao uso das roupas eclesiásticas, preferindo permanecer com os trajes laicais.
E ainda hoje sofremos as consequências dessas concessões.
O hábito é imortal
A análise de todos estes fatos nos propõe uma pergunta: por que dar tanta importância à maneira como os homens se vestem?
De um lado, vemos a Igreja velando para que seus filhos se vistam conforme os desejos de Nosso Senhor; e de outro, a mentalidade e as ideias do mundo que, por meio das modas, tentam desviar o vestuário religioso.
A resposta é simples: em última análise, trata-se de uma luta entre duas mentalidades, traduzidas simbolicamente no modo de trajar-se.
Não só o hábito faz o monge. Ou seja, também o hábito faz o monge.
E, acrescentemos, o hábito faz algo além do monge: a sua simples presença incomoda, converte ou confirma na fé.
Talvez por isso seja tão perseguido, tão odiado, tão vilipendiado. Coube-lhe, enfim, a mesma sorte que ao Salvador. E sempre que pareça morrer, estará profetizando a sua ressurreição.
Por Samuel Fontenele
[1] As informações históricas e litúrgicas contidas neste artigo foram retirados dos seguintes livros: AUGÉ, Matías. El hábito religioso: História-psicologia-sociologia. Madrid: Publicaciones Claretianas, 2011; COELHO, António. Curso de Liturgia Romana. Braga: Livraria Litúrgica, 1941, v.1; REUS, João Batista. Curso de Liturgia. 2.ed. São Paulo: Vozes, 1944; ROCCA, Giancarlo. La sostanza dell’Effimero: Gli Abiti degli Ordini Religiosi in Occidente. Roma: Paoline, 2000; VIANA, José Ribeiro. Disciplina Eclesiástica: a respeito do hábito talar. São Paulo: Diocese de Sorocaba, 1979.




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