Papa Leão XIV conversa com Zelensky
O Papa Leão XIV insistiu em uma trégua em Oleshky para o envio de ajuda humanitária e a evacuação de civis.
Foto: Vatican News/ Vatican Media
Redação (19/10/2026 15:30, Gaudium Press) Três dias depois de telefonar ao presidente russo Vladimir Putin, o pPapa Leão XIV conversou nesta segunda-feira, 19 de outubro, com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. O pontífice reiterou o pedido de uma trégua humanitária na cidade de Oleshky, na região de Kherson, ocupada pela Rússia e onde cerca de 2 mil civis — entre eles dezenas de crianças — enfrentam uma crise de fome, falta de água, eletricidade e medicamentos.
A chamada ocorreu no final da tarde, conforme anunciou a Sala de Imprensa da Santa Sé. O Papa, que se recupera de uma cirurgia para remoção de um nódulo canceroso no lobo inferior do pulmão direito realizada no dia 13 de outubro no Policlínico Gemelli, em Roma, já havia sido liberado do hospital no sábado (18) e retoma gradualmente suas atividades.
O comunicado do Vaticano
Segundo o comunicado oficial da Santa Sé:
“Durante a conversa, o Santo Padre recordou a grave situação na cidade de Oleshky, na região de Kherson, e fez referência ao pedido de uma trégua humanitária já apresentado ao presidente da Federação Russa. O Santo Padre expressou a esperança de que a cooperação entre ambas as partes permita a chegada de alimentos e ajuda médica, assim como a evacuação voluntária e segura da população civil. Por fim, reafirmou o compromisso da Santa Sé em favor do diálogo e da paz.”
O texto não detalha a resposta de Zelensky.
A ligação anterior com Putin
No dia 16 de outubro, ainda internado no Gemelli, Leão XIV telefonou a Putin. Foi a segunda conversa conhecida entre os dois desde que o pontífice assumiu o papado em maio de 2025 (a primeira ocorreu em junho daquele ano). O Papa expressou “profunda preocupação” com a situação humanitária em Oleshky e pediu um cessar-fogo para permitir a entrega de alimentos e assistência médica, além da evacuação voluntária e segura dos civis.
O Kremlin confirmou a conversa e afirmou que Putin agradeceu a disposição do Papa em contribuir para a resolução do conflito e seus esforços humanitários. Segundo a versão russa, Putin “apoiou a intenção do Vaticano de facilitar a criação de condições para garantir a segurança da população da cidade e organizar o fornecimento de itens vitais”. As partes concordaram em cooperar nesse sentido. Moscou, porém, responsabilizou o “regime de Kiev” pela crise humanitária.
O cardeal secretário de Estado Pietro Parolin confirmou que a iniciativa da chamada a Putin partiu do próprio Papa, que quis interceder pela cidade sitiada, onde cerca de 2 mil civis precisam de corredores humanitários.
A tragédia humanitária em Oleshky
Oleshky fica na margem esquerda do rio Dnieper, na região de Kherson, e está sob controle russo desde os primeiros meses da invasão de 2022. Antes da guerra, a cidade tinha cerca de 24 mil habitantes. Hoje restam aproximadamente 1.700 a 2 mil pessoas, incluindo cerca de 40 a 50 crianças, segundo fontes ucranianas e dados da Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU na Ucrânia.
Nos últimos meses a situação se deteriorou drasticamente. Desde maio de 2026, as entregas de alimentos pelos mercados locais cessaram depois que pessoas que tentavam entrar ou sair da cidade foram mortas por minas ou drones nas principais vias de acesso. Não há água potável regular, eletricidade, medicamentos nem ambulâncias. A ponte que a ligava a Kherson foi dinamitada em novembro de 2022, e as estradas ao redor estão minadas. Relatos de sobreviventes descrevem moradores que se alimentam de ervas e restos de comida. Drones FPV russos também perseguem civis, tornando qualquer deslocamento um risco mortal.
As autoridades ucranianas acusam as forças russas de bloquear corredores humanitários e impedir a saída da população. Moscou, por sua vez, culpa Kiev por obstruir o fornecimento de ajuda. A cidade tornou-se uma espécie de “zona cinzenta” na linha de frente, onde os civis estão presos sem saída segura.
Organizações religiosas ucranianas e o comissário de direitos humanos do Parlamento ucraniano já haviam feito apelos internacionais, inclusive à Santa Sé, pedindo a abertura de corredores humanitários.
Diplomacia vaticana
A intervenção pontifícia ocorre em meio a um impasse no conflito. No dia anterior à ligação com Putin, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, descartou um cessar-fogo geral, argumentando que qualquer pausa permitiria à Ucrânia se rearmar. O Papa Leão XIV tem insistido no diálogo e na proteção dos civis, usando inclusive a expressão “massacre inútil” (em referência a Bento XV durante a Primeira Guerra Mundial) para descrever a guerra na Ucrânia.
A diplomacia vaticana busca soluções pontuais e humanitárias enquanto mantém o compromisso com uma paz negociada. A esperança agora é que a cooperação entre Kiev e Moscou, incentivada pelo Papa, permita finalmente a entrada de ajuda e a saída voluntária da população civil de Oleshky antes que a crise se agrave ainda mais.
A Santa Sé continua acompanhando os desdobramentos e reafirma sua disposição de facilitar o diálogo entre as partes.




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