Panamá: sobreviventes de terremoto relatam experiências de fé em meio à tragédia
Após o terremoto de 9 de outubro, moradores de Veraguas encontraram familiares soterrados com vida e atribuem a Deus a vida de seus entes queridos. A Igreja local acompanha as vítimas e presta assistência às comunidades atingidas.

Foto: Wikipedia
Redação (04/11/2026 08:46, Gaudium Press) A serenidade que encontrou em Deus foi o que ajudou Amador García a enfrentar duas horas soterrado sob os escombros de uma igreja no Panamá. O terremoto, que atingiu o país em 9 de outubro, provocou o desabamento da torre do templo de São Isidro de Soná, na província de Veraguas, deixando-o preso sob os destroços.
García dedicava havia mais de vinte anos seus serviços àquela paróquia. De repente, o lugar ao qual havia consagrado boa parte de sua vida transformou-se em uma estrutura destruída, que quase lhe custou a vida. Em entrevista à emissora panamenha Telemetro, ele contou que, durante o período em que permaneceu soterrado, experimentou uma serenidade que atribuiu à ação divina.
“Em outra ocasião, talvez tivesse tentado me movimentar ou fazer alguma coisa. Mas não. Naquele momento, Deus me concedeu uma serenidade total. Entreguei-me à sua vontade”, relatou.
A situação, entretanto, era extremamente delicada. Com dificuldades para respirar, Amador conseguia fazê-lo apenas pela boca. Quando as equipes iniciaram o resgate, sentiu medo ao perceber que o ar lhe faltava. “Não é fácil passar duas horas debaixo dos escombros respirando daquela maneira”, reconheceu.
Seu irmão também teve participação decisiva no salvamento. Apesar da barreira de segurança estabelecida no local, ele conseguiu atravessá-la e se juntar aos trabalhos de busca. Segundo seu relato, Amador estava soterrado sob aproximadamente três metros de destroços.
“Foi algo desesperador. Ele estava praticamente enterrado vivo”, recordou.
Resgatado praticamente sem ferimentos, García considerou sua sobrevivência uma graça extraordinária. “Muitas pessoas me disseram que qualquer outra pessoa dificilmente teria saído daquele lugar quase ilesa”, comentou.
Famílias encontram esperança em meio aos escombros
A experiência de Amador não foi a única em que a fé se tornou motivo de gratidão entre os sobreviventes. Em Soná, uma mãe também viveu momentos de grande angústia quando sua residência desabou e um de seus filhos ficou preso sob os destroços.
Durante alguns instantes, a criança não respondia aos chamados dos familiares. A aflição deu lugar à esperança quando ouviram sua voz chamando pela mãe. O menino foi localizado e retirado dos escombros sem ferimentos aparentes.
“Isso é um milagre de Deus, porque o menino não nos respondia”, declarou a mãe à Telemetro.
No povoado de El Paraíso Tres, também pertencente ao distrito de Soná, outros três familiares — duas crianças, de três e sete anos, e uma tia — ficaram presos sob uma cama após o desabamento da casa. Todos foram encontrados com vida.
Raymundo González atribuiu a sobrevivência de seus familiares à proteção de Jesus Nazareno, imagem à qual sua família mantém especial devoção. “Somos fiéis devotos da imagem de Jesus Nazareno e acredito que foi isso que salvou minha família de morrer esmagada pelos escombros”, afirmou.
A alegria de reencontrar os entes queridos, contudo, veio acompanhada de uma perda significativa: a família, composta por doze pessoas, ficou sem moradia.
Outro sobrevivente, Faustino Sánchez, morador de Los Lajones, no distrito de Cañazas, também perdeu sua casa, construída segundo a técnica tradicional de quincha[1]. Durante o terremoto, procurou proteger uma das filhas, socorrer o pai e alertar os vizinhos.
Apesar de ter perdido a residência e seus pertences, manifestou confiança na Providência divina: “Penso que Deus sabe por que faz as coisas”.
Sem esconder a dificuldade de recomeçar, resumiu a situação com uma pergunta e uma decisão: “O que vou fazer? Tenho que começar do zero”.
Os relatos, divulgados por veículos como Telemetro, Día a Día e Crítica, revelam a gratidão dos sobreviventes pela vida preservada, mas também evidenciam a dimensão das perdas. Para muitas famílias, o desafio agora é reconstruir suas casas e recuperar as condições necessárias para retomar a vida cotidiana.
Igreja acompanha vítimas e comunidades atingidas
Enquanto os moradores procuram superar as consequências do desastre, a Igreja no Panamá também tem se mobilizado para prestar assistência às famílias e acompanhar as comunidades afetadas.
Em 26 de outubro, Dom José Domingo Ulloa Mendieta, arcebispo do Panamá e presidente da Conferência Episcopal Panamenha, realizou uma visita a templos danificados nas províncias de Los Santos, Herrera, Coclé e Veraguas. Acompanhado por Dom Rafael Valdivieso Miranda, bispo de Chitré, também esteve com famílias que perderam suas casas.
Durante as visitas, os prelados ouviram os relatos dos atingidos e transmitiram palavras de consolo e esperança, levando-lhes também a proximidade do Papa Leão XIV. No dia seguinte, Dom Ulloa prosseguiu sua visita à província de Coclé, onde esteve na Catedral de São João Batista de Penonomé e na Paróquia São João Batista de Antón, ambas com danos estruturais.
A dimensão dos estragos também foi destacada pela agência EFE, em reportagem publicada em 16 de outubro. Segundo um levantamento da Arquidiocese do Panamá, pelo menos treze igrejas haviam sido danificadas pelo terremoto, algumas delas com graves prejuízos ao patrimônio religioso e histórico do país.
Na localidade de La Colorada, a capela de São Sebastião sofreu grandes danos, enquanto a capela de Santa Rosa de Lima, em Llano de Piedra, também ficou seriamente comprometida.
Diante da impossibilidade de utilizar determinados edifícios religiosos, os sacerdotes passaram a celebrar Missas e realizar encontros pastorais em residências, varandas, campos e espaços públicos. A iniciativa permite que os fiéis continuem participando da vida sacramental e comunitária, mesmo enquanto aguardam a recuperação dos templos.
“Não são paredes, é uma comunidade viva”, afirmou à EFE o sacerdote Álvaro Sáez, ao explicar como os católicos têm mantido suas atividades religiosas apesar da destruição.
A declaração sintetiza uma realidade que ultrapassa a reconstrução material: embora os edifícios sejam importantes para a vida religiosa e para a preservação da história das comunidades, a Igreja é constituída, sobretudo, pelos fiéis que permanecem unidos na fé.
Assim, entre perdas materiais, reencontros familiares e testemunhos de confiança em Deus, as comunidades panamenhas procuram recomeçar. A reconstrução dos templos e das moradias será um processo que exigirá tempo e solidariedade, mas a fé continua sendo, para muitos sobreviventes, uma fonte de consolo e esperança diante das adversidades.
Com informações Religión en Libertad
[1] Quincha é um sistema de construção tradicional e ancestral da América do Sul e do Panamá (com raízes pré-colombianas), muito semelhante ao que no Brasil se conhece como taipa de mão ou pau a pique.





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