Padre Mychal Judge: frade franciscano primeira vítima oficial do 11 de Setembro
O Padre Judge foi a vítima 0001, a primeira vítima oficialmente identificada entre as 2.753 pessoas que morreram na cidade de Nova York, durante os ataques de 11 de setembro de 2001.

Padre Mychal Judge Foto: screenshot/ Facebook
Redação (11/09/2026 08:48, Gaudium Press) No dia 11 de setembro de 2001, o altar da Igreja de São Pedro, no Distrito Financeiro de Manhattan, recebeu uma oferenda que a paróquia jamais esqueceria. Cinco homens carregaram até lá o corpo coberto de poeira do Padre Mychal Judge, o frade franciscano e capelão do Corpo de Bombeiros de Nova York. A imagem daquele homem de 68 anos, pálido e encolhido numa cadeira improvisada, se tornou um dos símbolos mais marcantes da tragédia que matou quase três mil pessoas só na cidade.
Pe. Judge não foi a primeira pessoa a morrer naquele dia — muitos já haviam perecido nos aviões e nas torres —, mas foi a primeira vítima oficialmente identificada e registrada pelo examinador médico de Nova York com o número DM 0001-01. Seu corpo foi um dos primeiros a ser recuperado e levado para exame.
Uma vida de presença total
Nascido Robert Emmett Judge em 11 de maio de 1933, no Brooklyn, ele era filho de imigrantes irlandeses do Condado de Leitrim e gêmeo de Dympna. O pai morreu quando o menino tinha apenas seis anos. Para ajudar a mãe e as irmãs, o jovem trabalhou engraxando sapatos perto da estação Penn e fazia pequenos bicos. Desde cedo sentiu o chamado religioso. Entrou no seminário franciscano ainda adolescente, fez os votos e foi ordenado padre em 1961, adotando o nome Mychal Fallon Judge em homenagem aos pais.
Por décadas, ele exerceu o ministério em paróquias de Nova Jersey e, a partir de meados dos anos 1980, no convento de São Francisco de Assis, em Manhattan, bem em frente ao quartel do Engine 1/Ladder 24. Em 1992, tornou-se capelão oficial do FDNY. Amigos e colegas descrevem um homem de presença absoluta: quando falava com alguém, aquela pessoa era a única no mundo. Não olhava ao redor em busca de alguém mais importante. Ouvia de verdade.
O jornalista Michael Daly conta que o conheceu num hospital de queimados, onde o sacerdote fazia os bombeiros feridos rirem em meio à dor. Nas ruas, reconhecia moradores de rua pelo nome, rezava com eles e deixava dinheiro dobrado nas mãos. Durante a epidemia de AIDS, numa época em que muitos doentes eram estigmatizados e abandonados, Judge visitava pacientes, celebrava funerais que outros padres recusavam e ajudou a organizar um dos primeiros ministérios católicos voltados a pessoas com HIV/AIDS em Nova York.
O último dia
Na manhã de 11 de setembro, ao saber do primeiro impacto, Judge correu para o World Trade Center. Lá encontrou o prefeito Rudolph Giuliani, que lhe pediu para rezar pela cidade. O padre respondeu com um sorriso: “Eu sempre rezo”. Entrou no lobby da Torre Norte para ministrar os sacramentod e rezar pelos bombeiros e pelas vítimas. Testemunhas ouviram-no repetir: “Jesus, por favor, termine com isso agora! Deus, por favor, termine com isso!”.
Às 9h59, a Torre Sul desabou. A força da explosão de detritos invadiu o lobby da Torre Norte. Judge morreu ali, segundo o atestado de óbito, por trauma contundente na cabeça. Seu corpo foi encontrado, colocado numa cadeira quebrada e carregado por bombeiros — a foto icônica registrada por Shannon Stapleton. Levaram-no primeiro à Igreja de São Pedro (que também havia sido atingida por peças de um dos aviões) e depois ao quartel dos bombeiros. Lá, amigos franciscanos e bombeiros velaram o corpo; cantaram a Bênção de São Francisco antes de levá-lo ao necrotério. Seis bombeiros daquele mesmo quartel também morreram naquele dia.
O padre Christopher Keenan, amigo próximo, sentou-se ao lado do corpo por cerca de uma hora. O padre Kevin Mullen, outro franciscano, soube da morte por rádio e sentiu imediatamente: “É o Mychal”. Para ele, se Judge pudesse escolher como partir, teria escolhido exatamente daquela forma: com as botas calçadas, ao lado dos bombeiros.
O funeral, em 15 de setembro na Igreja de São Francisco de Assis, reuniu cerca de três mil pessoas. Nos anos seguintes, Judge foi homenageado de diversas formas: uma lei federal leva seu nome e estendeu benefícios a capelães; a rua do convento foi rebatizada; um ferry recebeu seu nome; há memoriais nos Estados Unidos e na Irlanda, terra de seus ancestrais. Há quem defenda sua canonização — grupos católicos e não católicos o invocam como exemplo de santidade —, embora a Arquidiocese de Nova York não tenha aberto o processo oficial.
Quem o conheceu de perto, porém, prefere lembrar não o herói ou o símbolo, mas o homem que fazia cada pessoa se sentir vista. Michael Daly escreveu que Judge “residia mais profundamente em você do que você entendia”. Em tempos de lembrança da tragédia, quando o 11 de Setembro corre o risco de se tornar apenas “história”, amigos como o padre Mullen lembram que, para as famílias que perderam alguém, a dor nunca termina.
A história de Mychal Judge continua a ser contada porque ele personificou o que muitos consideram o melhor da fé e da solidariedade humana: correr em direção ao sofrimento em vez de fugir dele, acompanhar os outros até o fim e tratar cada encontro como se fosse o único que importasse.





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