Outro cisma? Redentoristas Transalpinos realizarão ordenação episcopal sem mandato pontifício
O Papa Leão XIV enfrenta, logo no início de seu pontificado, um dos maiores desafios eclesiais: preservar a unidade da Igreja diante do avanço de grupos tradicionalistas que rejeitam as reformas do Concílio Vaticano II e questionam a autoridade papal.

Foto: Transalpine Redemptorists/ Facebook
Redação (04/07/2026 11:03, Gaudium Press) A decisão da Santa Sé de excomungar quatro bispos ordenados pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) sem autorização do Papa Leão XIV reacendeu uma das maiores tensões entre Roma e os movimentos católicos tradicionalistas das últimas décadas. Enquanto os chamados lefebvrianos contestam a validade da excomunhão e afirmam permanecer fiéis à Igreja, uma nova crise desponta na Escócia: os Redentoristas Transalpinos anunciaram que também realizarão uma consagração episcopal sem mandato pontifício, o que pode configurar um novo cisma.
A resposta dos lefebvrianos
Após a ordenação de quatro novos bispos em Écone, na Suíça, a Fraternidade São Pio X recebeu da Santa Sé a pena de excomunhão. Em resposta, o superior-geral da Fraternidade, Pe. Davide Pagliarani, enviou uma carta ao Papa Leão XIV classificando a decisão como “objetivamente injusta e inválida”.
No documento, Pagliarani afirma que o grupo permanece profundamente ligado à Igreja de Roma, embora considere que a hierarquia atual tenha abandonado aspectos essenciais da Tradição católica. Citando o Evangelho de São Lucas, declarou que os membros da Fraternidade “pediram pão e receberam uma pedra”, criticando o que considera uma falta de diálogo com os católicos tradicionalistas.
Apesar das críticas, a Fraternidade mantém aberta a possibilidade de uma futura reconciliação, recordando que, durante o pontificado de Bento XVI, as excomunhões impostas aos bispos ordenados por Marcel Lefebvre em 1988 foram levantadas como gesto de aproximação.
Um novo foco de tensão: os Redentoristas Transalpinos
Enquanto a situação dos lefebvrianos continua a evoluir, outra comunidade tradicionalista prepara um gesto semelhante.
Os Filhos do Santíssimo Redentor, conhecidos internacionalmente como Redentoristas Transalpinos, anunciaram que, no próximo dia 25 de julho, o superior da comunidade, Dom Pierre Roy, pretende consagrar como bispo o Pe. Michael Mary, na pequena ilha de Papa Stronsay, nas Órcades, Escócia, sem autorização da Santa Sé.
Dom Pierre Roy é um bispo sedevacantista canadense e atual superior dos Redentoristas Transalpinos. Ordenado sacerdote pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) em 2011, afastou-se posteriormente desse grupo e aproximou-se do sedevacantismo. Em janeiro de 2024, foi consagrado bispo por Dom Rodrigo Ribeiro da Silva, também ligado a esse movimento, sem reconhecimento da Santa Sé. Agora, Roy volta a desafiar a autoridade do Vaticano ao anunciar que consagrará o Pe. Michael Mary como bispo, sem mandato pontifício.
Por sua parte, Dom Hugh Gilbert, OSB, bispo da Diocese de Aberdeen reagiu imediatamente, advertindo os fiéis de que tal cerimônia representa um grave ato de desobediência à Igreja Católica e pode caracterizar um cisma.
Quem são os Redentoristas Transalpinos?
Fundada em 1987, a congregação inspirou-se na espiritualidade de Santo Afonso de Ligório e esteve inicialmente ligada à FSSPX, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. Seu objetivo era preservar a liturgia tradicional em latim e a disciplina anterior ao Concílio Vaticano II.
Em 2008, após a publicação do Summorum Pontificum, documento de Bento XVI que ampliava o uso da Missa Tridentina, a comunidade solicitou oficialmente a reconciliação com Roma. O pedido foi aceito, e posteriormente o instituto recebeu reconhecimento canônico na Diocese de Aberdeen, na Escócia.
Durante vários anos, os Redentoristas Transalpinos foram citados como um exemplo de aproximação entre o Vaticano e grupos tradicionalistas.
O que levou à nova ruptura?
Nos últimos anos, porém, a relação entre a comunidade e as autoridades eclesiásticas deteriorou-se.
Os religiosos passaram a afirmar que as reformas iniciadas pelo Concílio Vaticano II teriam provocado uma crise profunda na Igreja, e a criticar restrições impostas à celebração da Missa segundo o rito antigo. Eles também entraram em conflito com bispos locais, especialmente na Nova Zelândia, onde mantinham um mosteiro.
Em 2026, a comunidade publicou uma carta rejeitando a legitimidade das reformas conciliares e declarando não reconhecer a orientação atual da Igreja. Em seguida, anunciou a futura consagração episcopal, alegando que a Sé de Roma estaria ocupada por “inimigos de Deus”. Essas posições aproximam-se do sedevacantismo, corrente que considera ilegítimos os papas posteriores ao Concílio Vaticano II.
O significado para a Igreja Católica
No Direito Canônico, a consagração de um bispo sem mandato do Papa constitui um dos atos mais graves contra a unidade da Igreja, acarretando excomunhão automática e configurando cisma. Foi exatamente esse o motivo da ruptura provocada por Marcel Lefebvre em 1988.
Embora a Fraternidade São Pio X ainda manifeste desejo de manter diálogo com Roma, o caso dos Redentoristas Transalpinos parece indicar uma ruptura mais profunda, já que parte da comunidade passou a negar a legitimidade da própria autoridade papal.
Um desafio para o pontificado de Leão XIV
O Papa Leão XIV enfrenta, assim, uma das mais delicadas questões eclesiais logo no início de seu pontificado: preservar a unidade da Igreja diante do crescimento de grupos tradicionalistas que rejeitam as reformas do Concílio Vaticano II e contestam a autoridade do sucessor de Pedro.
Ao mesmo tempo em que reafirma a disciplina canônica, o Vaticano continua defendendo o diálogo pastoral para evitar novas divisões. No entanto, os acontecimentos na Escócia demonstram que a crise do tradicionalismo católico permanece aberta e poderá marcar profundamente os próximos anos da vida da Igreja.





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