Gaudium news > Ordenações cismáticas da FSSPX, o caso da China e da Alemanha, e um Papa em xeque

Ordenações cismáticas da FSSPX, o caso da China e da Alemanha, e um Papa em xeque

 Independentemente da escolha do Papa, ela será acompanhada com atenção redobrada também na Alemanha.

Foto: Amigos da FSSPX-Belém/ Facebook

Foto: Amigos da FSSPX-Belém/ Facebook

Redação (03/02/2026 08:57, Gaudium Press) A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) informou que pretende consagrar novos bispos sem o mandato da Sé Apostólica, no próximo 1º de Julho. Esse anúncio não é um gesto administrativo nem um simples capítulo de mais uma negociação malsucedida com Roma; trata-se de um ato que toca o nervo central da eclesiologia católica: a relação entre tradição, autoridade e comunhão. Segundo o Direito Canônico, esse gesto implicaria excomunhão automática tanto do bispo que realiza a consagração quanto dos bispos ordenados, agravando ainda mais a já confusa e irregular situação canônica deste grupo dentro da Igreja Católica.

A FSSPX foi fundada em 1970 como reação direta ao Concílio Vaticano II. Seu fundador, o Arcebispo Marcel Lefebvre, participou do Concílio, mas rejeitou aspectos centrais de seus ensinamentos, especialmente as reformas litúrgicas e a nova abordagem da Igreja em relação às outras religiões. Em 1975, São João Paulo II ordenou a dissolução desta sociedade, ordem que foi recusada. A ruptura tornou-se explícita em 1988, quando Lefebvre consagrou quatro bispos sem mandato pontifício, incorrendo em excomunhão automática.

Embora Bento XVI tenha levantado as excomunhões desses bispos em 2009, a Fraternidade nunca foi plenamente reintegrada à Igreja, sobretudo por sua rejeição persistente à autoridade doutrinal do último concílio. Seu status permaneceu “irregular”. O Papa Francisco adotou abordagem pastoral mais pragmática, concedendo faculdades para confissões e permitindo o reconhecimento de matrimônios celebrados por padres da FSSPX sob determinadas condições, sem, contudo, resolver o problema de fundo.

Hoje, dois dos quatro bispos ordenados em 1988 já morreram. Um deles, Dom Richard Williamson, havia sido expulso da Fraternidade em 2012, e ficou marcado por posições extremas, incluindo a negação pública do Holocausto. A FSSPX conta atualmente com centenas de sacerdotes e seminaristas espalhados pelo mundo, o que explica, segundo seus líderes, a urgência e o estado de, segundo comunicado da Casa Generalícia, “grave necessidade” para garantir que novos bispos continuem suas atividades.

De acordo com o comunicado oficial, o superior geral, Pe. Davide Pagliarani, solicitou uma audiência com o Papa Leão XIV em agosto passado, e enviou uma carta enfatizando a necessidade de assegurar a continuidade do ministério episcopal da Fraternidade. Não tendo recebido uma resposta considerada satisfatória da Santa Sé, decidiu avançar com as ordenações após oração e consulta interna.

A revista America sintetizou bem o imbróglio ao afirmar que o caso da FSSPX se encontra preso numa contradição estrutural: Roma tenta evitar um cisma formal, mantendo pontes pastorais, enquanto a Fraternidade exige garantias práticas de sobrevivência institucional sem aceitar plenamente as condições doutrinais e eclesiológicas da comunhão. Em poucas palavras: tem sido um diálogo entre surdos pelos últimos 30 anos.

O anúncio de novas consagrações episcopais recoloca a história em marcha, quase como uma repetição trágica. Do ponto de vista canônico, a situação é cristalina. A Igreja sempre ensinou que ninguém pode ser ordenado bispo sem mandato pontifício. Não se trata de centralismo moderno, mas de uma garantia antiga de unidade. A sucessão apostólica não é apenas uma cadeia sacramental válida, mas uma garantia visível dentro de uma comunhão espiritual e invisível. Quando essa comunhão é rompida, a validade sacramental permanece, mas a ilicitude causa um dano eclesial equivalente a uma bomba atômica. As feridas podem durar séculos.

O argumento da necessidade pastoral reaparece com força. A FSSPX afirma que precisa de bispos para ordenar padres, confirmar fiéis e assegurar sua sobrevivência. Mas é precisamente aqui que o raciocínio se torna perigoso. A Igreja nunca reconheceu a autoconservação institucional como critério último de legitimidade. Quando uma estrutura passa a se justificar a si mesma à margem da autoridade que a constitui, ela começa a assumir contornos de corpo paralelo, mesmo que mantenha linguagem católica e símbolos tradicionais.

Recorde-se também que, no cenário eclesial atual, esta dinâmica não é inédita. Um paralelo inevitável surge com a situação da Igreja na China. Lá, durante décadas, bispos foram ordenados sem mandato pontifício, não por apego à tradição, mas por submissão ao Estado. O resultado foi igualmente doloroso: bispos válidos, porém ilegítimos; comunidades divididas entre clandestinidade e reconhecimento oficial; fiéis confusos sobre onde estava a verdadeira comunhão com Roma. Curiosamente, o problema canônico é o mesmo, ainda que as motivações sejam opostas. Na China, a autoridade política substituiu o Papa. No caso da FSSPX, é a própria consciência institucional que se arroga o direito de agir sem ele. No contexto chinês, há indícios de que a Igreja permitiu ao governo do Partido Comunista Chinês certo grau de influência na escolha dos bispos mediante um acordo secreto. Periodicamente, o Papa buscou lidar com essa questão por meio da renovação de acordos e reconhecimentos, embora não haja evidências de que tais medidas tenham reduzido a perseguição aos fiéis promovida pelas autoridades de Pequim. Nesse cenário, a estratégia de concessão pode não ter alcançado os resultados esperados, e será relevante acompanhar como Leão XIV conduzirá futuras negociações com o governo chinês.

Em ambos os casos, a Igreja de Roma reagiu com prudência extrema. Evitou declarações definitivas sempre que possível, buscou acordos graduais, tolerou situações imperfeitas para evitar um cisma formal. Com o acordo sino-vaticano, Roma preferiu reconhecer ordenações irregulares a sacramentar uma divisão irreversível. A lógica foi clara: preservar a possibilidade de comunhão futura, mesmo à custa de ambiguidades presentes.

É exatamente essa lógica que agora está sob pressão no caso da FSSPX. Ao anunciar consagrações após pedir explicitamente autorização e não a receber, a Fraternidade dá um passo qualitativamente distinto. Não se trata mais de uma irregularidade herdada do passado, mas de uma decisão atual, consciente e deliberada. Isso endurece posições em Roma e enfraquece os argumentos daqueles que, dentro da Cúria, sempre defenderam paciência e integração progressiva.

As consequências pastorais não são abstratas. Muitos fiéis ligados à tradição já vivem um drama silencioso. Amam a liturgia antiga, desconfiam de certos rumos doutrinais contemporâneos, mas não querem romper com o Papa. A radicalização da FSSPX pode empurrar esses fiéis para escolhas dolorosas ou para uma confusão ainda maior. Ao mesmo tempo, comunidades tradicionais em plena comunhão com Roma acabam sendo injustamente associadas a uma lógica de desobediência que não é a delas.

No fundo, o debate revela uma tensão mais profunda sobre o modo como a autoridade é exercida na Igreja contemporânea. A FSSPX acusa Roma de ambiguidade doutrinal, traição à tradição e de abuso de poder. Roma vê na FSSPX uma recusa prática da obediência e um risco permanente de cisma. E o problema mais grave é que decisões unilaterais, sobretudo no âmbito episcopal, tendem a selar rupturas que depois exigem séculos para serem sanadas.

A história da Igreja ensina que cismas raramente começam com declarações explícitas de ruptura. Eles nascem de atos concretos que tornam a comunhão inviável, na prática. A consagração de bispos sem mandato sempre foi um desses atos. Não por acaso, Roma reage a eles com extrema gravidade, mesmo quando evita palavras definitivas.

Diante desse cenário, o pontificado de Leão XIV será colocado em xeque. Seu temperamento, sua leitura da tradição e sua compreensão do papel do Papa na unidade da Igreja influenciarão decisivamente os próximos passos. A decisão não será simples nem indolor. Entre a aplicação rigorosa da disciplina canônica e a busca obstinada por uma solução pastoral, a linha é tênue.

Resta saber, portanto, qual será a resposta do Papa Leão XIV diante desse impasse: declarar as excomunhões e consumar uma ruptura definitiva com a FSSPX, consolidando o cisma, ou insistir na via dos acordos, com o risco de validar na prática o método dos herdeiros de Lefebvre e, ao mesmo tempo, fortalecer outros grupos que pressionam Roma a submeter-se à sua própria leitura do Magistério e da tradição. Independentemente da escolha do Papa, ela será acompanhada com atenção redobrada também na Alemanha, onde, por motivos muito diferentes, a comunhão eclesial com Roma igualmente se encontra perigosamente suspensa por um fio.

Por Rafael Ribeiro

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas