ONU exige que regime de Ortega apresente relatório sobre a situação do Bispo Mata
O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, exigiu que o regime da Nicarágua prestasse informações sobre o paradeiro e o estado de saúde do bispo Abelardo Mata, que está em desaparecimento forçado desde o final de junho.

Mons. Mata – Foto: La Prensa
Redação (24/07/2026 08:49, Gaudium Press) O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, manifestou grave preocupação com a repressão contínua contra a Igreja Católica na Nicarágua e exigiu que as autoridades informem imediatamente sobre o destino, o paradeiro e o estado de saúde do bispo emérito de Estelí, Dom Juan Abelardo Mata Guevara. A declaração foi feita em 22 de julho.
“Estou preocupado com os relatos de repressão contra a Igreja Católica e outras confissões religiosas, incluindo a ausência de informações oficiais sobre o destino, o paradeiro e a situação do bispo Abelardo Mata Guevara, de 80 anos, que foi detido em 29 de junho”, declarou Türk.
Dom Mata, que completou 80 anos em junho, é uma figura respeitada na Igreja nicaraguense. Salesiano, ele atuou como bispo auxiliar de Manágua e, a partir de 1990, como bispo de Estelí até sua aposentadoria em 2021. Conhecido por sua defesa dos direitos humanos, especialmente durante os protestos de 2018, o prelado tem histórico de críticas ao autoritarismo e já sofreu ataques de paramilitares ligados ao governo.
Detenção após missa e incerteza sobre seu estado
Tudo começou após a missa que Dom Mata presidiu no domingo, 28 de junho de 2026, na Paróquia La Cruz del Calvario, em Estelí. Na celebração, o bispo pediu orações pela Igreja perseguida no país, mencionando especialmente o bispo Rolando Álvarez (exilado em Roma) e outros sacerdotes que enfrentam restrições ou exílio. No dia seguinte, 29 de junho, enquanto realizava uma consulta médica de rotina para verificar seu marcapasso em uma clínica de Estelí, policiais o detiveram. Ele foi levado para o temido centro de detenção El Chipote, em Manágua.
O regime admitiu a detenção dias depois, alegando que se tratava de uma “investigação” e afirmando que o bispo teria sido devolvido à sua residência em Tisma, no departamento de Masaya. No entanto, não há confirmação independente de sua localização ou condição de saúde por parte da família, da diocese ou de fontes eclesiais. Familiares e colaboradores estariam sob vigilância e intimidação, o que gera temores de um desaparecimento forçado. Organizações de direitos humanos e pesquisadores como Martha Patricia Molina classificaram o caso como um possível “crime contra a humanidade”.
Preocupações com a saúde do idoso
A situação é especialmente delicada devido ao estado de saúde de Dom Mata. Ele convive com diabetes, problemas de visão, sequelas de um câncer e depende de um marcapasso cardíaco. Os bispos da América Central, por meio do Secretariado Episcopal de América Central (SEDAC), pediram publicamente que o regime permita a visita de seu médico particular e de colaboradores. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) também se manifestou, lembrando que o bispo já era beneficiário de medidas cautelares.
Contexto de repressão sistemática
Este episódio não é isolado. Desde as manifestações de 2018, o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo intensificou a perseguição contra a Igreja Católica, vista como uma das últimas vozes independentes no país. Relatos documentam centenas de ataques: proibição de procissões, fechamento de instituições educativas e de caridade, confisco de bens, expulsão ou exílio de mais de 260 religiosos, incluindo bispos e sacerdotes, e vigilância constante em missas. A CIDH e diversos governos, como os Estados Unidos, também cobraram transparência e liberdade para o bispo
Volker Türk destacou que o espaço cívico na Nicarágua está “quase completamente fechado” e que a liberdade de expressão sofre repressão sistemática. Ele instou as autoridades a libertarem imediatamente todas as pessoas detidas de forma arbitrária e a garantirem tratamento humano e digno a todos os detidos, conforme termos do direito internacional dos direitos humanos. Ele também condenou a decisão do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, de suspender a convocação de novas eleições no país.





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