Oásis de fé: a vitória da fidelidade e da paciência
No passado, era motivo de orgulho para uma família ter um filho padre ou uma filha freira. Hoje, com poucos filhos, os pais temem perder a “descendência” se um deles se tornar padre. Mal sabem que a descendência espiritual de um sacerdote é eterna e que cada ovelha de seu rebanho aumenta a sua família espiritual.
Redação (19/04/2026 10:51, Gaudium Press) Neste último final de semana, meus olhos — já cansados de tantas notícias de esvaziamento e crise — assistiram a um fenômeno que só posso descrever como uma torrente de graças. Na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Caieiras, vi um deserto, atravessado com resiliência, paciência e fé, transformar-se em um grande e maravilhoso oásis.
Enquanto o mundo assiste ao fechamento de seminários que outrora abrigavam centenas de jovens e hoje amargam apenas três ou quatro aspirantes, fui testemunha da ordenação de 31 diáconos e 26 sacerdotes da Sociedade Virgo Flos Carmeli, dos Arautos do Evangelho.
Fui um dos milhares que não conseguiram entrar na nave da basílica. Assisti a tudo debaixo de uma tenda no átrio, pelos telões, mas a emoção não conheceu barreiras físicas. Ali, eu não era apenas um cronista; era o amigo de um daqueles rapazes. Acompanhei de perto sua jornada de quase sete anos de espera. Sim, sete anos. Enquanto a Igreja passava por transições e os fiéis amargavam a falta de sacerdotes em muitos lugares, esses jovens “deixados de molho” aguardavam o momento em que Deus e o novo Papa, Leão XIV, permitiriam que seus corações entregues se tornassem mãos consagradas.
Nenhum deles desistiu
Vi lágrimas nesse tempo, mas nunca vi desânimo. Vi uma fé que prevaleceu. E o resultado? Aqueles que foram ordenados no sábado e no domingo chegaram ao altar muito mais maduros, fortalecidos e convictos de seu chamado. Deus sabe o que faz: o tempo de espera não foi um atraso, foi um excelente período de amadurecimento. Nenhum deles desistiu, nenhum deles se cansou de esperar. Chegaram com um fervor que só a paciência purificada pelo fogo do Espírito Santo pode produzir. E, se bem conheço esses jovens, posso dizer que, apesar da longa espera, se perguntados, dirão que não sentiram a caminhada, pois estavam sendo levados no colo por Maria.
Isso me fez viajar no tempo. Recordei minha juventude, quando encontros vocacionais percorriam as comunidades do interior. Lembro-me de padres e freiras que passavam fins de semana conosco, contando como era a vida religiosa. Eu mesmo participei de retiros assim. E embora tenha optado pela vida em família, aquela semente de discernimento foi vital para minha formação.
Hoje, esse discernimento parece faltar não só na religião, mas em todas as áreas. Como seria bom se jovens tivessem encontros com médicos, engenheiros ou advogados para entenderem se possuem as aptidões e habilidades necessárias para aquela profissão. Afinal, nada é mais lamentável do que passar a vida trabalhando em algo que não integra a alma, descobrindo o erro tarde demais para recomeçar.
Sem padre, não há Missa

Precisamos dessas mulheres que rezam enquanto o mundo dorme ou faz guerra. Precisamos de sacerdotes que celebrem a Missa, pois sem sacerdote não há Missa, e sem Missa a Igreja Católica deixaria de ser o que é. Precisamos de sacerdotes para ouvirem nossas confissões e nos obterem o perdão de nossos pecados. Eles são o equilíbrio espiritual que sustenta o caminhar da humanidade.
No passado, era motivo de orgulho para uma família ter um filho padre ou uma filha freira. Os tempos eram outros, as proles numerosas e as pessoas mais dóceis à fé e aos preceitos da nossa Santa Madre Igreja. Hoje, é triste ver famílias que, com poucos filhos, temem perder a “descendência” se um deles se tornar padre. Mal sabem elas que a descendência espiritual de um sacerdote é eterna e que cada ovelha de seu rebanho aumenta a sua família espiritual.
Rezemos pelas vocações
Sei que a Igreja não perecerá — Jesus nos prometeu que as portas do inferno não prevalecerão contra ela —, mas a crise de falta de operários para a messe é real, e muitas igrejas têm sido fechadas, em várias partes do mundo, por falta de sacerdotes.
Essa situação nos pede compreensão e uma ação de compromisso: precisamos rezar pelas vocações. Todos os dias, seja ao acordarmos ou ao nos recolhermos à noite, precisamos lembrar de erguer aos Céus um pedido para que Deus mande mais padres, mais leigos de vida consagrada, mais freiras; que nasçam mais vocações e que essas vocações sejam apoiadas, e não inibidas, tolhidas ou ridicularizadas.
Homens separados por Deus
Por isso, ver 57 novos operários surgirem de uma só vez, presenteando a Igreja e os fiéis com essa força, essa disciplina e essa boa vontade para servir a Deus e ao próximo, nos dá uma felicidade enorme.
Que essa chama ardente que presenciamos em Caieiras, neste fim de semana, com a ordenação desses novos servidores, contagie outros jovens, e que os seminários voltem a se encher; que as vocações falem mais alto que os apelos do mundo. Que haja um reviver da beleza da vida sacerdotal.
Não é uma vida fácil, nunca foi. Mas é uma vida maravilhosa, estupenda. Nós, aqui fora, precisamos desses homens separados por Deus, desses novos apóstolos, para que a Igreja continue firme na sua base terrena enquanto sustenta sua abóbada eterna.
O que eu posso dizer ao meu jovem amigo, cujas mãos ungidas eu pude oscular, e aos seus 56 companheiros de jornada é: “O mundo agora é o vosso campo e o Evangelho, as sementes de seu alforje. Que a paciência que vos forjou seja o bálsamo para as almas que encontrareis. E que Nossa Senhora os abençoe e ilumine em cada dia dessa nova caminhada!”
Por Afonso Pessoa








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